Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010

Questões Familiares…

Vivemos tempos de grande desorientação, cultural, económica, social, com forte impacto na estrutura familiar. Assim muitas das famílias não vivem enquanto tal, em consequência dos horários dos seus responsáveis, tantas vezes em nada coincidentes, ou em consequência de grandes dificuldades económicas, mas também em consequência da comunicação social, em especial da televisão que despacha programas para aumento dos tempos de visão para os respectivos canais, sem qualquer preocupação sobre as consequências dos mesmos, sobre as crianças e os jovens e até sobre adultos culturalmente marginalizados/excluídos. De tal surgem graves problemas de estabilidade familiar, com crises e divórcios a subirem em flecha e com nascimentos de crianças não desejadas. Vivemos, verdade seja dita enfim, também, tempos em que predominam os casos “ à Camilo Castelo Branco”, feitos de paixões intensas, mais que “à Eça de Queiroz”, feitos de vivências de opção e compreensão, isto é, com a crença na busca do amor eterno, ou por via do eterno cavaleiro de armadura brilhante, ou da eterna princesa encantada, nunca existentes, perante as comparações do dia a dia, pleno de dificuldades, onde se vive e se procura as mais das vezes sobreviver. Temos entretanto, em Portugal, enquanto sinal por um lado da crise, e, por outro, da errada percepção de que viveríamos num país rico, em Julho de 2010, 9598 milhões de euros de crédito mal parado. Destes 4091 milhões corresponde ao segmento Famílias. Em 2009 o mesmo crédito mal parado, para as Famílias, seria de 2734 milhões de euros. Antes do mais não resisto a pensar numa componente essencial, muitas vezes esquecida – para os mais de 90% de micro e PME é particularmente difícil separar o rendimento da Família do da Empresa, pois uma parte essencial dos que lá laboram são membros da Família. O que quer dizer que parte substancial dos 9598 milhões de euros de crédito mal parado é, mesmo referente ás Famílias e não às Empresas, e tal é um dos caracteres distintivos das famosas Empresas Familiares a sério, sobretudo em Portugal onde o Empreendedorismo é maior do que se imagina. E, por favor, não confundir com as “Empresas Familiares” da moda e das revistas sensacionalistas. Convém acentuar outro elemento – no segmento Empresas entre 2008, início desta mundial crise, e 2010, o crédito mal parado aumenta em cerca de 260%; no segmento Famílias, o aumento foi de 149%, o que releva também as dificuldades das Empresas em Portugal, da actividade económica enfim, desde o rebentar desta global crise. Eis a consequência de Portugal ser uma economia bem aberta ao mundo, desde a década de 70 do século XX em especial. Ora, havendo dificuldades nas Empresas há sempre, a prazo maior ou menor, dificuldades acrescidas na vida das Pessoas e das Famílias. Como está a suceder. Dificuldades que afectam, sempre, a vida Pessoal e o contexto familiar, factores que sempre se ignora para não complicar apreciações “sociais”. As Famílias Portuguesas, por outro lado, tem sido alvo de importantes modificações. Tanto a migração, para o exterior e para o litoral, de uma percentagem importante das mesmas, à industrialização e terciarização, vividas em especial desde a década de 60, tudo foram processos de desestruturação das Famílias Tradicionais, dominantemente rurais até lá. Curiosamente a crise actual inicia-se com Portugal a estar acima da média europeia na taxa de divórcios , 0,25% em Portugal para 0,21% na União Europeia, a par de uma redução do nº de casamentos, menos 3101 em referencia a 2007, para 2008. Os impactos das migrações, dos processos de urbanização, da desestruturação da Família Tradicional, estão bem patentes nestas taxas de divorcio. Mas também, acho eu, a crise em que vivem as Famílias, no plano dos rendimentos são factor de instabilidade no seio das mesmas e acentuam a tendência para a redução do tempo de vida das relações a casal. A Família Tradicional, em especial na sua componente dominantemente rural, não se estruturava a partir de conceitos de base sentimental, mas sim em lógicas de interesse, de “alianças” inter famílias, por razões bem terrenas – em especial a gestão das parcelas de terrenos, ou a simples ideia de sobrevivência. O impacto dessas lógicas no interior de famílias urbanizadas, mas de certa forma ainda não urbanas, não creio que tenham sido estudadas. Mas garanto que nem as paixões relatadas por Camilo Castelo Branco, nem as desilusões de Eça de Queiroz relevam o pensar das mesmas. Ainda que seja de relevar, como referi já, o impacto emocional das telenovelas e demais programas para share feitos, sobre estas Famílias recém urbanizadas. A par da bem difícil gestão de diminutos orçamentos familiares, em especial perante a influencia imposta pelas televisões, incentivando a um desbragado consumismo. Os princípios cristãos, e ou católicos, que deveriam enquadrar a vivencia no seio das Famílias, perante esta comunidade portuguesa, entendida oficialmente como cristã e ou católica, na verdade, deixaram de ter funcionalidade. Até porque se incentiva hoje a ideia da felicidade fácil, terrena, emocional, sentimentalona, e que está bem patente na frase que cito do DN de Maria Saldanha Pinto Ribeiro, “quando o casamento não traz felicidade, parte-se para outra relação”. Assim, sem mais, sem procura do que falha na relação e do que fazer para a redinamizar, (mais do que para a salvar obsoletamente), sem qualquer apoio, institucional e ou religioso, ambos afastando-se, “como diabo da cruz”, destas crises de solução difícil, eis o findar de relações em todo o dia que passa. Porque a felicidade é medida pelo consumismo, ou por valores inatingíveis, sentimentalões, à telenovela. Curiosamente, diz o Instituto Português de Mediação Familiar, (IPMF), por via de um seu responsável, que “não há” receitas para o aumento de divórcios nos pós férias, tema de um texto no DN de 7 de Setembro, já acima referido. Pensaria um cidadão normal, como eu, que o pós férias tenderia a ser um momento de amenização de conflitos e de desejo de harmonia, já que o relaxe e a convivencialidade que as férias proporcionam a tal apontariam. (Pensaria mas sei-o que não é assim…). Os nºs também dizem que não, pois surgem aumentos de pedidos de divórcio, em 30%, precisamente no pós férias. Dir-se-ia pois que o amor não se acalenta com o sol e a praia,… Tratarei mais vezes este tema, pelo que por ora me fico por aqui. Mas, para além desta problemática relacional, entre adultos, vivemos, hoje, outro tipo de problemas bem mais complexos, como os da gravidez indesejada entre adolescentes. De notar que a gravidez entre os 12 e os 19 anos, dados estudados e divulgados no Dia Mundial da Contracepção, é algo bem tradicional, bem antigo, em todo o mundo. Casar e engravidar rápido era o projecto de vida da Mulher, desde bem Jovem, em todas as comunidades tradicionais. Como é algo tradicional, bem antigo, a realidade apresentada pelos dados da Associação para o Planeamento Familiar “Mais de 10% das IVG ocorrem em adolescentes até aos 19 anos e quase 5% dos nascimentos são de jovens mães”, e divulgados em noticia de hoje. Para bem pior antigamente, podem crer, pois nos tempos hodiernos esta realidade se encontra já diminuída fortemente pela entrada na escola e na Vida Activa, profissional, da Mulher. Só que temos 4347 jovens, só em 2009, que decidiram levar avante a gravidez. Muitas vezes contra a Família de origem, tanto da Jovem como do Jovem envolvido. Mas mesmo sem que seja contra, a verdade é que esta Jovem Mãe confronta-se com uma sociedade que exige dela a participação no Trabalho e nos rendimentos que pagarão os encargos da criança que chega ao mundo. Pelo que será afastada do ambiente de Ensino e ficará sem qualificação suficiente, escolar ou profissional, passando a ser mais um elemento de instabilidade na família, na de origem como na(s) futura(s). Mas continuarei com esta reflexão, também em breve, deixando por ora um tema para reflexão de quem me ler – caberá mais à gestão de valores inadequados e à falta de educação sexual entre os Jovens, tal qual entre as Famílias, do que aos baixos rendimentos familiares esta taxa de divórcios acima da média europeia, esta taxa de IVG, entre Jovens adolescentes, num país entendido como cristão e ou católico? Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 13:48
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