Quinta-feira, 26 de Maio de 2005

ensino profissional

Não resisto a citar o meu querido professor do ISCEF hoje ISEG, Vítor Constâncio que como sabem foi secretário geral do PS e hoje é Governador do Banco de Portugal, numa bem recente conferência, onde diagnosticou as causas da baixa produtividade nacional, para dar um pontapé de saída a esta pequena intervenção sobre o Ensino Profissional, “Na educação é um desastre…Estamos no fim da lista da OCDE e muito abaixo dos 10 países que vão entrar na UE, sobretudo no secundário”.

Pois é, é um desastre.

Umas pequenas e simples contas para vos abrir o apetite. A União Europeia financiou, desde 1986, subsistemas vários de Ensino, entre eles o Profissional, assim como a Formação Profissional e, de imediato, muitos de nós, talvez até alguns de vocês presentes, se deixaram encantar pela cantiga das criticas aos que viviam dos fundos comunitários como ainda hoje se diz por entre mesas de café.

Para vos dar uma ideia mais realista o custo hora formando no subsistema da Aprendizagem está hoje nos 2,31 euros, no Ensino profissional nos 1,22 euros e na Formação Profissional varia entre os 3,5 euros e os 4,5 euros.

Se considerarmos que uma turma tem em média 20 formandos estes valores significam à hora algo como, 46,2 euros, 24,4 euros e 70 ou 90 euros. Estes valores, recorde-se, pagam formadores, pessoal técnico e administrativo, instalações e equipamento e até a promoção da actividade.

Eu pago ao meu dentista 90 euros, se vou a um advogado, como me disse uma advogada amiga, “as minhas consultas ou são de borla ou custam 75 “duros””, talvez vocês se possam também recordar quanto custa uma consulta médica, ou em um advogado, etc. Curiosamente ninguém se recorda destes valores, mas todos afirmam opiniões definitivas sobre o custo do ensino.

Na realidade um formador, caro, fica, a um estabelecimento de ensino ou de formação, algo que varia entre 25 euros e os 50 euros, pois a média é inferior aos 20 euros.

Espantamo-nos quando no bem recente seminário da AIP o Prof. Dr. Strube, o patrão da UNICE, central patronal europeia diga “A União Europeia deverá tornar-se até ao ano 2010 “ na economia baseada no conhecimento mais dinâmica e competitiva do mundo” e, ao mesmo tempo se escreva, com toda a razão, “Se um professor se ausentasse de Portugal em 1991 e voltasse dez anos depois, ficaria surpreendido com a estagnação dos indicadores que definem a educação. Numa década, o insucesso escolar manteve-se praticamente na mesma: 45 por cento dos jovens entre os 18 e os 24 anos não finalizaram o secundário, o que nos coloca no último lugar entre os países da União Europeia. E os homens que não investem na sua formação surgem, pela primeira vez, em maior número do que as mulheres: 52 contra 38 por cento.”, ( in Educação: Um retrato parado no tempo). ?

Não, não nos podemos espantar. Em particular porque, se compararmos valores de conclusão do ensino secundário “em Espanha são já 67% e em França 83%”, segundo José Ferreira Gomes escreveu no Público de 15 de Março de 2004…

Mas, mais contraditório ainda é quando ouvimos da voz do meu querido professo Vítor Constâncio que “O pior é que Portugal é dos que mais gasta com a educação, ( está em 5º lugar), é o primeiro no ratio professor/nº de alunos…”.

Longe, muito longe, claro, vai o tempo em que li, em texto escrito com respeito, que um rei de um país nórdico, não recordo qual, tinha por hábito, no século XIX, só descer do cavalo quando se passeava nas pequenas urbes, para cumprimentar o professor dessa urbe…

Nesse tempo, não mediamos tudo pela leitura simplista dos números. Líamos a vida por outro tipo de apreciações, não poucas vezes bem mais realista que aquela que nos indica que se houver um frango para duas pessoas estatisticamente ninguém pode morrer à fome…

Houve também tempo, esse bem mais recente, em que saía legislação onde se podia ler, “…no contexto da integração europeia e do desafio do desenvolvimento económico e social que urge promover, a elevação da qualificação dos recursos humanos do país constitui um imperativo e investimento inadiável”, ou ainda, “As escolas profissionais, numa perspectiva de inserção e resposta às necessidades de desenvolvimento regional e local…”, e estou a citar um decreto lei, o que instituiu as escolas profissionais, de 1989!

É claro que hoje se tem de reconhecer, como fazem a CIP e a AIP, no preâmbulo do documento que urge, “Promover a reforma da educação e da formação profissional…Estruturar e implementar com eficácia a formação ao longo da vida…”, pois como se pode ler no texto acima citado, “O insucesso continua a marcar o seu território logo no início da escolaridade: quase metade dos alunos a chegar ao 2.º ciclo com pelo menos uma reprovação. Quanto ao analfabetismo, caiu apenas dois por cento: em 2001, nove em cada cem habitantes ainda não sabem ler nem escrever….”, e o impacto de tal na produtividade, nacional e de cada uma das empresas não pode ser pequeno…

Pretendeu-se, em tempos, com a criação do ensino profissional criar vias de ensino que adequassem a aprendizagem dos Jovens ás necessidades da actividade económica.

No entanto, a primeira apreciação que se fez da experiência, em 1998, preocupava-se mais com “algumas fragilidades e ambiguidades relativas, nomeadamente, ao processo de criação das escolas, à natureza jurídica dos promotores, à relação destes com os órgãos de direcção, á responsabilização pedagógica e financeira dos órgãos da escola, bem como ao modelo de financiamento”…e, claro, limitar a autonomia administrativa, financeira e pedagógica das escolas profissionais…para, também, iniciar o lento e irreversível processo de descapitalização das mesmas, passando-se dos já miseráveis 3 euros de custo hora formando para os actuais 1,22 euros…

Aumentou-se o impacto das escolas profissionais nas populações escolares, aumentando-se o nº de escolas e cursos profissionais, ao mesmo tempo em que se cimentava este subsistema de ensino? Não, perante aquilo que refere o meu querido professor Vítor Constâncio, o elevado ratio professores/alunos, que resulta de um processo também irreversível e que tem a ver com a resposta, tipicamente portuguesa às dificuldades, isto é perante a dificuldade em responder ao incremento do custo de vida reduza-se o nº de pessoas na família, gerador da significativa redução de população nas escolas a solução encontrada foi procurar criar nas escolas públicas, totalmente afastadas em média das realidades económicas e sociais envolventes, o dito ensino tecnológico.

Objectivo? Manter as escolas públicas semimortas, sem as reformar, sem reformar as mentalidades nelas dominantes.

Para manter os custos financiáveis pelos financiamentos comunitários.

Por isso a RLVT tem, somente, nas suas 51 escolas profissionais, 7,7% dos seus Jovens nos Cursos Profissionais e a Grande Lisboa 7,6%, no ano lectivo 2003/4. Por isso o Continente tem, somente, 9,2% dos seus Jovens neste subsistema de ensino!

É assim que um subsistema de ensino, onde o país investe desde 1989, onde se pretendia que o ensino tivesse, como referem a AIP e a CIP no documento “Estratégia de Lisboa Desenvolver o Espírito Empresarial e aumentar a Competitividade das Empresas”, feito para o Seminário “ A Competitividade das Empresas Portuguesas e a Estratégia de Lisboa”, “um carácter mais employement-friendly aumentando a componente prática dos conteúdos formativos e estreitando as relações com as empresas”, mantém-se adormecido com custos hora formando da ordem dos 1,22 euros!

Ao mesmo tempo que nos queixamos, todos, dos baixos índices de produtividade e dos elevados custos do Ensino.

Hoje, tempo em que as exigências técnicas, tecnológicas e comportamentais são, na actividade económica, crescentes, continua-se a olhar para o sistema de ensino no seu todo como um instrumento elitista formador de saberes académicos, distanciados da vivência futura de cada um.
publicado por JoffreJustino às 15:45
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