Quinta-feira, 26 de Maio de 2005

A INSERÇÃO SOCIAL NÃO DEVE VIVER SÓ COM UMA ÚNICA ORIENTAÇÃO

A marginalização, a exclusão mesmo, de parcelas importantes das Populações de um País não é tema de hoje. Secularmente, mesmo em Portugal, foi tema de debate e de práticas que se reflectem em obras múltiplas, e com linhas de orientação as mais diversas, que passaram por processos como a Inquisição e a expulsão de populações portuguesas, por serem judias, não cristãs, ou muçulmanas, ou, por exemplo, pela escravização de Africanos, mas não dos Indios brasileiros.

Hoje, 1999, no entanto, tempo de fim de século e de milénio, abordando o assunto pela positiva e no âmbito do princípio Europeu da coesão económica e social, a preocupação do combate à marginalização e mesmo aos pressupostos da exclusão social, está evidente na criação do Alto Comissariado para as Minorias Étnicas e Emigração e em documentos como o Plano Nacional de Emprego.

Perante esta fase preparatória do que regulamentará a Agenda 2000, entendi ser útil pôr a debate esta temática, por via do seu instrumento de superação, a Inserção, baseando-me na experiência retirada de actividades concretas feitas por entidades onde estou envolvido, como a Escola Profissional Almirante Reis, EPAR, no âmbito do combate à exclusão social.

Começarei pois por recordar que podemos dizer que existem, mesmo que não formalmente, 4 escolas de orientação do combate à exclusão, todas, sinceramente, respeitáveis, ainda que com resultados bastante diferentes. Assim, elas são:

 A escola caritativista, exemplificada pela actividade da santa casa das misericórdias

 A redistributivista, que tem como exemplo, a própria Segurança Social e os múltiplos fundos de reformas hoje existentes

 A integracionista, visível em muitas actividades associativas de combate à exclusão social

 A insercionista, onde, entre outros, me incluo e incluo as actividades da EPAR

No que respeita à primeira orientação, as entidades a ela aderentes, inicialmente, pretendiam, tão somente, a redistribuição dos gestos individuais de caridade, acumulados comunitariamente por várias razões, caminhos e entidades, perante os casos de evidente carência a que se assiste no dia a dia da nossa vida. Se foi em tempo, até, uma filosofia, uma orientação da redistribuição dos ganhos, hoje é duvidoso que esta opção exista enquanto filosofia.

De facto, é praticamente por todos aceite que o caritativismo não soluciona senão a necessidade imediata de quem dela precisa, não tendo portanto uma função social dinâmica de mudança do status quo.

No segundo caso, as entidades que nela se baseiam, elas próprias, entendem que não solucionam com a sua actividade directa e imediata o problema da exclusão social e da marginalização. A complexidade de problemas sociais resultantes do findar do antigo período industrialista e desta transição pós moderna, por todos nós vivida, que vão desde a tendência ao desaparecimento de enorme quantidade de profissões e de sectores de actividade inclusivé, ao atraso e às especificidades com que Portugal se inseriu no industrialismo, a tal conduzem.

Assim, desde o jovem estudante dos PALOP, licenciado finalmente em Portugal e que não obtém emprego correspondente ao status que entende Ter, e que vê tal suceder por razões étnicas, ao emigrante dos PALOP que não tem qualificações profissionais adequadas ao Mercado de Trabalho português, crescentemente exigente, ao jovem escolarmente excluído por um sistema de ensino que teima em viver olhando somente para o seu umbigo e não para o seu alvo principal, a juventude portuguesa e residente e as suas necessidades perante uma economia e sociedade que mudou como nunca em 25 anos, em todos estes público alvo se encontram Pessoas alvo de exclusão social, vividas ou expectadas.

Perante os mesmos, um caritativista diz, ofereça-se uma esmola, (por exemplo, um bilhete de avião de regresso ao país de origem); um redistributivista diz, pague-se um subsídio de desemprego; um integracionista diz, qualifique-se, ou requalifique-se, profissionalmente a Pessoa.

Nós, como insercionistas que somos, pensamos e agimos de outra forma,

Procuramos, antes do mais, entender as causas socio-culturais que justificam a razão do sentimento de exclusão que, tantas vezes é o próprio ponto de partida da própria Pessoa e que leva, quase forçosamente, a que a exclusão seja real, até quando não parece que o seja. Partilhamos de seguida com a Pessoa a necessidade de valorizar as componentes positivas das suas origens socio-culturais, contextualizando-as na sociedade formal dominante, promovendo-as mesmo e, assim, valorizando contextos Pessoais, Comunitários de origem e fornecendo instrumentos que potenciem não uma integração pelos instrumentos mas uma compreensão do papel positivo de cada Pessoa na Comunidade Receptora, a partir das suas próprias diferenças e relevando mesmo as ditas diferenças. Funcionando, enfim, no contexto da Multiculturalidade, o contexto desta Globalização, só que vista democraticamente.

No entanto, a experiência diz-nos tal, os que se projectam por via da filosofia da Inserção Social, são, ainda hoje, os “politicamente não correctos”, em Portugal.

Tal gera, situação após situação, projecto após projecto, reduções de verbas aprovadas, que só anulam o impacto e a possibilidade de intervenção em cada projecto que se segue, em acúmulo de reduções do aprovado sobre reduções, sobre reduções, sobre ..., que acabam por pôr em causa as entidades.

Dois exemplos entre, já, centenas de casos vividos,

Uma Formação para potenciais empresárias, a partir de actividades tradicionais. Terminada a Formação entende-se promover os resultados da actividade feita pelas formandas e realiza-se um Colóquio sobre o Comércio e a Multiculturalidade neste Mundo já quase globalizado, a par de uma exposição dos trabalhos das formandas. Na mesa do Colóquio está um arranjo floral, simples, barato, mil e tal escudos, mas adequado à própria característica do projecto. Corte na factura/recibo do mesmo arranjo floral porque não há “evidência de custos”. A gestora apresenta então uma foto saída num jornal diário português, de larguíssima divulgação, onde o dito arranjo floral aparece, com bastante evidência. Corte na mesma, só que agora sem qualquer justificação...

Um projecto de Inserção Social e Profissional de Minorias Étnicas Residentes em Portugal. Elaboram-se vários Estudos, aprovados num contexto genérico, adequado a um projecto que por si é piloto, experimental diga-se em bom português. Entre eles, um estudo sobre Cabinda, um caso de uma população CPLP bem específica, com um contexto de inserção difícil até pelos pressupostos da conflitualidade inerente à mesma, por parte dela exigir, hoje, a Independência face ao país que a integra, Angola. Um caso de uma população onde se pode relevar, inclusivé, o papel positivo que as suas elites tiveram, em aliança com Portugal, para que Portugal pudesse manter a sua relação com África para além do final do século XIX, com todos os seus aspectos positivos e negativos. O objectivo do estudo era óbvio para a entidade promotora e para a entidade gestora do projecto, tratava-se de reforçar a função dominante, num tempo histórico não tão longíquo assim, desta população, até para a política externa de Portugal, relevando-a, facilitando-se assim uma Inserção por via da apresentação de práticas positivas, históricas. Corte nos custos apresentados, por não se justificarem no projecto, e corte feito 7 meses depois dos custos terem sido apresentados. Recurso da entidade sem resposta definitiva até hoje.


Nestes dois casos qualificaram-se e requalificaram-se, com êxito, os (as) formandos(as). Mas desenvolveu-se algo mais – forneceu-se uma compreensão do papel de cada formando(a), com base na estrutura cultural de origem e nas potencialidades de inserção da mesma na cultura dominante e vigente em Portugal. A Multiculturalidade, enfim. E se no primeiro caso se trata de uma redução de mil e tal escudos, a segunda implica uma redução de volta de um milhão de escudos... num dossier que em custo hora beneficiário ficou, comprovadamente, em menos de 15 escudos hora beneficiário.

É assim, com o esgotamento das entidades insercionistas, vai surgindo o caminho do reforço de um descontentamento social crescente em Portugal e ao que urge dar resposta. E o caminho de um descontentamento, até, no seio da CPLP, dos PALOP muito em particular em áreas como a qualificação e a tipificação do emprego.

É o caminho das rupturas sociais que só se descobrem quando explodem na cara dos cidadãos, bem violentamente.

Até lá os sinais vão-se acumulando. Desde os pequenos e surdos conflitos, raciais, vividos nos centros comerciais que pretendem divulgar e viver deste consumismo que todos queremos, mas a que nem todos temos acesso, ao crescente nº de presos existentes nas cadeias de Portugal, às queixas constantes, ainda que surdas, nas embaixadas PALOP em Portugal, aos combates de bairro entre jovens e entre jovens e familiares/vizinhos, às manifestações de jovens na baixa de Lisboa, para “acordar as Pessoas”, violenta e estupidamente reprimidas, etc.

Até ao dia em que tudo poderá explodir.

A partir da experiência resultante do 2º projecto atrás descrito, o de inserção social e profissional de minorias étnicas residentes em Portugal, a EPAR foi convidada e é parceira de um projecto comunitário que decorre em 5 países da União Europeia – a EMBNET, Ethnical Minority Business Network – que pretende promover negócios e parcerias de negócios, com base nas actividades inerentes às Culturas específicas das Minorias Étnicas Residentes na União Europeia, um projecto Multicultural, enfim.

Em Portugal, ao que parece, seria um projecto chumbado. Tratando de Culturas, da sua Promoção, é pouco especificável... como se sabe.

Cansa, esta atitude que se espera que seja emendada com a Agenda 2000.

Mesmo no País que hoje comemora o 25º aniversário do 25 de Abril, Revolução que não teve nada de “NORMAL”, ao que parece, a “normalidade” impôs-se... só que, talvez, do lado errado da História e das relações humanas.




Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 15:49
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.posts recentes

. Primárias - Uma Otima Pro...

. O 11 de Setembro e eu pr...

. Um recado a Henrique Mont...

. Na Capital Mais Cara do M...

. Há Asneiras A Não Repetir...

. “36 Milhões de Pessoas Mo...

. Ah Esta Mentalidade de Ca...

. A Tolice dos Subserviente...

. A Típica Violência Que Ta...

. Entre Cerveira e a Crise ...

.arquivos

. Julho 2012

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Agosto 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds