Quinta-feira, 16 de Junho de 2005

As habituais asneiras de Pezarat…

Saiu, hoje, dia 15.06, um enorme volume, na VISÃO, sobre África 30 Anos Depois. Claro que, com esse título, esperava que ao abrir o volume me surgisse uma vasta colecção de textos, sobre este Continente que, já vários disseram, partiu mal para as suas Independências…mas não, tratava-se, somente, de uma colecção de material diverso sobre Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

Enfim, a “África”, dita portuguesa…velhos hábitos…maus hábitos…contraditórios hábitos.

Irei fazer alguns textos, para este blogzito, sobre este enorme volume e, por um ódiozito antigo, reconheço, irei começar pelo texto do sr Pezarat Correia.

O discurso deste senhor é o habitual…e, para um militar responsável que terá sido, pelo menos responsável pela condução da guerra nas ex colónias portuguesas foi-o, tem como tese algo inusitado, “Foi violenta a descolonização porque tinha sido violenta a colonização”…velha tese, serôdia tese, de uma dita esquerda que, sinceramente, já mete dó.

Mais uma vez, este militar transforma a questão colonial portuguesa numa mixórdia, quando a mesma foi um complexo processo feito por movimentos diversos em circunstâncias anómalas.

Processo complexo, porque e a História deixou-nos documentos que o provam, em África, ao tempo da Expansão Portuguesa, vivia momentos de movimentações populacionais significativas, pelo que o aparecimento de mais um grupo populacional não era senão mais um entre todos os outros.

Processo complexo, porque e a História deixou-nos documentos que o provam, nos espaços ocupados pelo reino português, imperialmente dirigido, em um primeiro momento, se assistiu sobretudo à construção de uma complexa teia relacional entre este imperial reino e uma multiplicidade de “reinos” e reinos, que sustentaram a manutenção e um Império com 250 000 pessoas em 50% do Planeta, o que, só por si, é obra.

Processo complexo, porque, e a História deixou-nos documentos que o provam, em um segundo momento, o Império de dividiu quanto aos objectivos, para uns foi o comércio de escravos, para outros foi uma tentativa de colonização, de ocupação de espaços imensamente vazios e de inserção desses espaços à economia da época.

Processo complexo, porque se houve violência, houve também inserção, em lógica dominante/dominado, mas onde os enriquecimentos, até do esclavagismo, se distribuíram entre o Império português e os “reinos” e reinos existentes.

Processo complexo, porque e a História deixou-nos documentos que o provam, em um terceiro momento, o Império, já totalmente fragilizado, na sequência da retirada do rei para um outro continente, o americano, para a então colónia Brasil, e em fuga face às “invasões francesas”, iniciou um processo de “colonialismo do tipo anglosaxónico”, que se reforçou com a Conferência de Berlim, anulando a, já pequena aceitação das elites africanas, apesar de só a elas dever a manutenção do espaço “colonial”, por via de tratados e acordos com essas elites realizados.

Processo complexo, porque e a História deixou-nos documentos que o provam, é ao período salazarista, de 1926 ao final da II Guerra Mundial, o quarto momento, que se terá de assacar o essencial da definitiva anulação dessas mesmas elites, e o aparecimento, enquanto ideologia dominante, de um significativo apartheid, que só foi enviado para a gaveta aquando do iniciar da Guerra Colonial em Angola, em 1961.

Sou dos que descrê, totalmente, das “estatísticas” oficiais, em particular as que são apresentadas pelos inúmeros livros da ideologia “oficial”, de Direita e de Esquerda.

Sou dos que entende que só pode ter acontecido um significativo processo de miscegenização, bem maior que o admitido, durante estes séculos de relação.

Caso não tivesse existido, não teria sido assim tão fácil obter os tratados múltiplos que estão aí para provar as relações estáveis, não teria havido o comércio tão amplamente distribuído, do ponto de vista geográfico, não teriam existido as tropas negras ao lado das brancas por todo o espaço de expressão portuguesa.

Não é, pois, possível confundir o processo de colonização europeu com o processo de expansão português.

Como teimam alguns “intelectuais”, como teima o sr Pezarat Correia.

Em um quinto momento, a cabeça do Império, já definitivamente serôdio, e acompanhando, tarde, outros, como Norton de Matos, procurou revigorizar o reforço relacional, a partir da década de 50 do século XX. Existem inúmeros textos, de reflexão estratégica, de próceres do regime, que mostram esta desorientação, depois esta mudança de rumo, durante a década de 50 e ainda na década de 60 desse século já terminado.

Este quinto momento prolonga-se em um sexto, que só o assumo como tal, separado do anterior, por ter surgido a guerra colonial.

Treze anos de guerra. Em três cenários de efectiva guerra. Confrontando uma multiplicidade de culturas, de vivências, de estares.

Desses treze anos, é fácil esconder a verdade, mas a verdade existe para além do escrito, pode-se retirar o que segue – nós, os anticolonialistas, ganhámos na Guiné Bissau, empatamos em Moçambique, e estávamos verdadeiramente perdedores, no plano militar ressalve-se, em Angola.

Ao 25 de Abril de 1974, existiam, somente, focos de Resistência, bem localizados, não existia uma Guerra.

Pezarat esconde esta realidade. Qual a razão?

Só ele poderá contar, ele que esteve do lado contrário ao da minha barricada.



Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 14:22
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