Sábado, 16 de Julho de 2005

O QUE NÃO É ACEITÁVEL ACONTECER NEM EM LUANDA NEM EM MALANGE

(texto publicado em O LIBERAL, jornal ONLINE)



A nossa Guerra Civil (em Angola) foi dramática e durou demasiado tempo. Muitos dirão até que foi inútil. Mas, para terem razão, deverão então assumir o que aqui assumo – a exigência de penalização para os que cometeram tais actos inúteis – os assassinatos de militantes da UNITA. Estes assassinatos delapidam um capital de confiança interno e externo que estávamos a conquistar, com dificuldade, com dureza mesmo, mas que é essencial para a estabilização das nossas comunidades e para uma visão internacional positiva da nossa sociedade e da nossa economia

Três militantes da UNITA foram assassinados, dois na estrada, Osvaldo Chivemba e Victorino Pinto Reis Esteves, entre Sautar e Quirima, na província de Malange e um terceiro no Cazenga, em Luanda, Gilberto Emiliano Congo, um dos responsáveis da UNITA por Viana.

É sabido que me afastei da UNITA, por divergências ideológicas e de estratégia. É sabido que fui dos membros da UNITA sancionados pelas Nações Unidas, sem direito a julgamento nem à defesa, situação em que estive durante mais de 2 anos. Nunca fui, provavelmente nunca serei, ressarcido desse período onde perdi muito de uma vida de trabalho e a própria UNITA nos esqueceu, a nós sancionados.

É sabido também que tenho feito um grande esforço em defesa da Reconciliação Nacional, por opção pessoal, e que tenho procurado realçar, sobretudo, os aspectos positivos de um processo complexo, difícil e feito prática e felizmente quase que só entre angolanos.

Na verdade, a comunidade internacional abandonou Angola a si própria. A promessa, melhor, o compromisso da Comunidade Internacional, a famosa Conferência de Doadores, continua por acontecer. O acompanhamento do processo angolano, a nível internacional, resume-se quase que a declarações de circunstância e a promessas incumpridas.

Sei também que não é possível acusar o Governo, composto também por membros da UNITA, nem o MPLA, nem o PR, do sucedido, destas 3 lamentáveis mortes. De facto, entendo estas situações como excepcionais, como resultantes de um período de Guerra Civil terminada, como révanches inúteis de uns poucos dos vencedores.

Em geral, o processo continua a correr bem. Mas temos assistido, aqui e ali, a casos graves, como os 3 assassinatos que acima relevo.

É tempo das autoridades mostrarem que o são, que têm efectivamente autoridade e que estes casos devem ser na sua opinião firme, fortemente penalizados.

Em nome de uma Reconciliação Nacional, que tem de continuar exemplar, que deve mostrar-se promotora da Tolerância e dinamizadora da Democracia, bases de um efectivo Desenvolvimento Sustentado. Só um procedimento rigoroso ao sucedido permitirá que, a nível internacional, Angola conquiste um estatuto de relevo, estatuto que lhe permita a reivindicação do Direito de estar no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Um estatuto, ainda que conduza à percepção que Angola é um país estável, com potencial para crescer numa economia global que não se compadece com o laxismo perante estes assassinatos.

Continuarei a privilegiar a promoção de bons exemplos de boas atitudes de Reconciliação. Mas, por isso mesmo, não poderei deixar passar em branco 3 assassinatos políticos na minha terra.

Continuo a crer que são casos isolados, mas, por isso mesmo, sinto a necessidade de os realçar e de exigir que se tomem medidas contra quem os praticou. Posso entender a dor vivida em muitas das famílias angolanas de membros do MPLA, da mesma forma que conheço a dor de muitas famílias de membros da UNITA e de membros que partido nenhum.

A nossa Guerra Civil foi dramática e durou demasiado tempo. Muitos dirão até que foi inútil. Mas, para terem, razão deverão então assumir o que aqui assumo – a exigência de penalização para os que cometeram tais actos inúteis. Estes assassinatos delapidam um capital de confiança interno e externo que estávamos a conquistar, com dificuldade, com dureza mesmo, mas que é essencial para a estabilização das nossas comunidades e para uma visão internacional positiva da nossa sociedade e da nossa economia.

A nós não nos é permitido tais comportamentos.

Sendo ricos, somos demasiado pobres; sendo férteis, somos demasiado improdutivos. Não nos podemos dar a estes “luxos” inúteis, de país “rico”, demasiado dispendiosos para as nossas posses.

Morreram, desnecessariamente, 3 seres humanos. Dirão alguns, morreram muitos mais. Dirão alguns, de fome morrem ainda muitos mais. Por isso mesmo não nos podemos dar a estes “luxos” de países “ricos”, onde a violência gratuita, se e quando acontece, poucas marcas deixa. Temos um pequeno capital já acumulado de boas práticas, de boas vivências. Mas estes pequenos gestos podem delapidá-lo sem mais.

Temos de ter um rigoroso Estado de Direito capaz de defender esse pequeno capital acumulado de esperança e de boa vontade em nome dos nossos filhos, dos nossos descendentes.

Façamos com que estas situações não se repitam mais. Estou certo que é possível emendar a mão que cometeu tais actos.

Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 17:46
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2 comentários:
De Joo Tocha a 22 de Julho de 2005 às 09:27
Meu caro amigo

Ainda estou siderado com as declarações de Freitas do Amaral, por acaso conhecidas ou proferidas quando estava em Luanda, sobre a corrupção em Angola:
Não podemos falar dela pois Portugal não é exemplo, foi este o sentido.


Uma diplomacia ajoelhada, apesar de alguns pontos positivos enunciados mais à frente ou atrás na sua entrevista, no que diz respeito à cooperação. Já agora gostei da entrevista que dispensava a nódoa.

Ao que isto chegou.
E se ele fosse chamado a depor e a explicar o que sabe em Portugal?

João Tocha


De Lobitanga a 18 de Julho de 2005 às 11:51
Felicito-te por na tua análise (e reflexão) teres tratado as vítimas como seres humanos com nomes e não como mera estatística.
Lobitanga


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