Quinta-feira, 13 de Outubro de 2005

O espólio do dr Jonas Savimbi

Estamos em período pré eleitoral em Angola. É pois natural que a comunicação social angolana, em particular, sinta a necessidade de esclarecer os cidadãos sobre o passado recente do País e dos seus líderes, vivos ou já não. Por isso não me espantei com uma notícia sobre o espólio do fundador da UNITA, considerando que no ar anda, desde a sua morte, esta pergunta - onde param os milhões de dólares, em moeda e em diamantes, que ele teoricamente detinha e geria pessoalmente?

Este assunto não é novo na comunicação social angolana. Assim, já terão corrido boatos sobre a possibilidade do brigadeiro Wala, comandante que chefiou a força militar que encontrou e matou o dr Jonas Savimbi, ser uma das pessoas que conheceria o paradeiro de uma famosa mala onde o dr Jonas Savimbi guardava não só os ditos milhões de dólares, como conteria ainda mais famosos e ultra-secretos documentos, onde estariam listagens com nomes de altas patentes das FAA que, alegadamente, forneceriam informações militares secretas ao líder da UNITA.

Bem, é definitivamente fácil desmentir estes boatos.

1. A comitiva que acompanhava o dr Jonas Savimbi quando este morreu, estava em condições de debilidade física quase total. Na verdade, tinha sido já obrigada a abandonar todo o equipamento de apoio à comunicação, por exemplo, como é sabido.

2. Quem conhece a experiência de guerrilha, ou da luta política clandestina, sabe que se tal sucedeu, bem mais cedo tanto o dr Jonas Savimbi quanto os restantes membros da comitiva já tinham reflectido e decidido sobre a forma de abandonar, de forma protegida, quer dinheiro, quer diamantes, quer documentos que consigo tivessem.

3. Esta comitiva, e o dr Jonas Savimbi, não tencionaram, nunca, abandonar Angola, pelo que não necessitavam de manter consigo tão pesado e no momento inútil material. Na verdade, esta comitiva soube criar as condições, antes de ser encontrada, para fazer retirar para fora de Angola tanto mulheres como idosos e crianças. Mas, note-se, os adultos com capacidade militar mantiveram-se na comitiva, prova cabal de que nunca abandonariam Angola, uma decisão que, diga-se, nunca teria tido o meu apoio, mas que eu entendo completamente dada a tradição da UNITA.

Assim, não se trata de, conforme opina o Notícias Lusófonas, saber se a famigerada mala que o dr Jonas Savimbi tinha quando morreu, era ou não é a “verdadeira”, porque duvidosamente terá existido, à altura, tão pesado instrumento na comitiva.

Para que fique para a História que um dia se venha a contar, é perceptível para quem alguma vez fez uma actividade política clandestina que documentação do teor da acima referida pelo Noticias Lusófonas, como listagens de pagamentos é absurda, ainda que se possa dizer que, infelizmente, no plano estrito da História e dos documentos que esta necessita para se refazer.

De facto, a clandestinidade não se faz com documentos administrativos, como facturas, recibos, ou ordens de pagamento e equivalentes. Toda essa informação, se alguma vez existiu, era somente baseada em conversas pessoais e directas com quem estabelecia o contacto e nada mais.

Assim, a haver situações comprometedoras para militares e políticos ao serviço e ou do MPLA, as mesmas terão definitvamente morrido com a morte do dr Jonas Savimbi… Desta forma também, a existir essa famigerada mala (ou malas…) não só é certo que já não estavam com o dr Jonas Savimbi e a sua comitiva, como foram sem dúvida guardadas em lugar seguro e hoje de acesso certamente impossível, pois terão sido distribuídas de forma dispersa e em locais que hoje certamente ninguém conhece, dadas as circunstâncias do sucedido.

Outra coisa é também garantida. A haver alguma documentação, de importância bem menor do que a imaginada, a mesma nunca se encontrará fora de Angola. Habituado aos mujimbos angolanos é para mim evidente que nem o brigadeiro Wala nem ninguém terá mais que documentos dispersos, inúteis, a não ser no plano histórico e algumas poucas pedras e uns tantos dólares, mantidos por meras razões de segurança e de sobrevivência no médio prazo. Assim, é muito pouco provável que o dr Jonas Savimbi tenha orientado seja quem for sobre essas explosivas informações e a forma de as esconder.

Sou, entretanto dos que defende que o dr Jonas Savimbi já previa e mais assumia que iria ser morto. Defendo, aliás, a tese segundo a qual assistimos a um verdadeiro suicídio do dr Jonas Savimbi, em nome da sobrevivência da sua UNITA…

No restante desta noticia do Noticias Lusófonas pouco há a referir. Trata-se somente de alguma especulação jornalística sem qualquer cimento de sustentação, ainda que possa ser imaginativamente construída.

Joffre Justino
(publicado in O Liberal)
publicado por JoffreJustino às 13:15
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