Sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007

A Bíblia face ao Aborto e à Vida

Num momento em que o que parece discutir-se, entre os que se dedicam ao debate sobre o Aborto, é o direito ou não à Vida, vale a pena estudarmos o que a Bíblia assume em relação a este tema, pois a Bíblia é, sem dúvida o Livro da Vida, do Amor, da Esperança e da Crença, pois é um livro enformador, entre todos os que se apresentam enquanto Livro Sagrado.

Com a sua leitura poderemos constatar qual a opção nele existente sobre a questão do Aborto e da Vida e, assim, mais adequadamente reflectirmos sobre algumas opções que, embora ancoradas na Bíblia, a interpretam à sua maneira, em favor de outras opções que não aquelas que este Livro define como Sagradas.

A Bíblia, note-se, entende-se a si mesma como a Palavra de Deus e, sendo-o, é nela que Deus se apresenta da seguinte forma, “Porque Deus amou o Mundo, de tal maneira, que deu o seu Filho Unigénito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna, (João, 3.16).

É este argumento que releva a relação de Deus com o Ser Humano numa relação de amor, de compreensão e não de ódio e castigo.

Mais ainda e segundo a Bíblia, “Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele”(João 3.17).

Estamos assim perante um Deus onde não há ódio ao Ser Humano. E se o livre arbítrio permite ao Ser Humano tomar as suas decisões, as mesmas não provocam em Deus, segundo a Bíblia, qualquer seu afastamento perante o Ser Humano.

É esse livre arbítrio que permite que a Palavra de Deus se explicite, sobre a sua relação com o Ser Humano, da seguinte forma, “Quem crê nele não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do Unigénito Filho de Deus”, (João 3.18). Não há pois nem ódio nem castigo e a condenação, segundo a Bíblia, resulta de uma opção individualmente assumida que conduz a “ E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más”, (João 3.19).


Reparemos, para realçar o como Deus, na Bíblia, nos vê, que Jesus utilizou em a mulher de Samaria, como seu porta voz para toda a cidade, aquela que transportará a noticia da sua chegada, uma mulher dita pecaminosa, mas que assume a verdade, não fugindo dela, (João 4.18).

Segundo alguns, direi mesmo muitos, o Aborto tem a ver com o eliminar uma vida, portanto, para eles, tem a ver com um acto pecaminoso, particularmente reprovável e que condena quem o pratica.

Mas será que a Bíblia vê assim o aborto?

Não me sentindo capaz de, sozinho, abordar o tema, entendo adequado basear-me em estudiosos da Palavra, da Bíblia, como o reverendo John Hendricks, membro da Christian Research and Felllowship, para assim abordar, com mais confiança este tema.


1. O Homem


Segundo este reverendo, “ A Bíblia é muito clara ao descrever o homem em 3 partes : corpo, alma e espírito” (Fácil Acreditar, J. Hendricks, traduzido por David Serapicos, 1999).

Partindo do que nos diz a Bíblia, “ E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservadas irrepreensíveis para a vinda do nosso Senhor Jesus Cristo”, (I Tessalonicensees 5.21), este autor releva esta tripla distinção, que será importante para o tema que estamos a tratar .

Centrando-se unicamente na Palavra da Bíblia o reverendo Hendricks cita Isaías, 43.7 “ A todos os que são chamados pelo meu nome e os que criei para minha glória, eu os formei, sim eu os fiz”.

Em Génesis, 2.7, podemos esclarecer um pouco mais este tema, “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida: e o homem foi feito alma vivente”.


Assim, para a Bíblia, “O corpo do homem foi formado do pó da terra”, (in fácil Acreditar, obra já citada, pág. 71) e se continuarmos este percurso com o reverendo Hendricks, avançando agora para a alma encontraremos, “ A alma é superior ao corpo do homem nela está a vida do homem. É isso que o faz um ser vivente”, (obra já citada pág. 72).

Mas, notemos, e de novo com o reverendo Hendricks, que cita Génesis 1.30, “E a todo o animal da terra, e a todas a ave dos céus e a todo o réptil da terra, em que há alma vivente”, que a alma não é “a parte do cristão que lhe dá a vida eterna… que faz com que o homem seja verdadeiramente superior aos animais”, (obra citada, pág. 72).

O reverendo Hendricks acentua este raciocínio da seguinte forma, “As Escrituras são exactas; todo o homem tem a vida de alma e essa vida de alma não é eterna e não tem nada a ver com o ser cristão. Observem cuidadosamente Actos 3.23, “E acontecerá que toda a alma que não escutar esse profeta será exterminada de entre o povo”, sendo que este profeta é “Jesus Cristo o Filho de Deus”, (obra citada pág. 74).

Então o que é que distingue o homem das restantes almas viventes? Para definir essa distinção o reverendo Hendricks regressa a Génesis, 1.27, “E criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou”.

É então que o reverendo Hendricks nos recorda que esta criação “à sua imagem”, não se pode referir ao corpo, já que o corpo do homem e da mulher são diferentes, nem à alma pois ela seria idêntica à de todos os restantes animais, também almas viventes.

E explica-nos então o reverendo, “A resposta está em João 4.24, “Deus é Espírito…”, (da obra já citada, pág. 79), pelo que assim, “O espírito no homem era o que permitia com que o homem e Deus estivessem em unidade e tivessem doce comunhão…O espírito deu ao homem vida perpétua e verdadeira”(obra citada pág.79).



A questão da Vida e do Aborto


A Bíblia é muito clara quanto ao surgimento, individual, da vida. Para o clarificarmos regressemos a Génesis 2.7, “…e soprou em seus narizes o fôlego da vida: e o homem foi feito alma vivente”.

Recordemos ainda Job 27.3 “Enquanto em mim houver alento e o sopro de Deus no meu nariz”, para reafirmar o como Deus e a Bíblia vêm o surgimento da vida e a sua manutenção, ou, como diz o reverendo Hendricks, “nós temos que nos lembrar e aderir à verdade bíblica, de que a vida da alma do homem, acaba com o seu ultimo fôlego, ou seja, quando este morre. O tempo correcto biblicamente para a vida é na altura da primeira respiração, (o fôlego da vida) e o tempo bíblico para morte é com o último fôlego”, (obra citada pág. 76).

Assim, biblicamente, o feto que não recebeu o sopro da vida, não tem, sequer, alma vivente, nem pode ser considerado que já esteja criado no termo bíblico de criação.

Mas regressemos mais uma vez à Palavra e leiamos Exodus 31.22, “Se alguns homens pelejarem e ferirem uma mulher grávida, e forem causa de que aborte, porem se não houver morte, certamente será multado, conforme ao que lhe impuser o marido da mulher e pagará diante dos Juízes”.

Reparemos que, face ao Aborto em si não há morte, pois esta só acontece com a morte da mulher. Como podemos ver em Exodus 21.23, “Mas se houver morte, então dará vida por vida”, tratando-se de novo da morte da mulher, pois o feto não tem ainda, sequer, alma vivente.

Aliás, em Job 3.16, a posição da Palavra é mais clara, “Ou, como aborto oculto, não existiria, como as crianças que nunca viram a luz”, pois estas nem existem por não terem recebido o sopro da vida.

Em Salmos 58.8 voltamos a encontrar uma afirmação de não vida, pelo que citamos “…como o aborto de uma mulher, nunca vejam o sol”, pois o feto não recebeu, sequer, ainda, o sopro da vida, não é , portanto, alma vivente.


Parece-me, pois, evidente que a posição penalizadora sobre o Aborto não resulta da Palavra Sagrada.

Tal posição pode resultar de preconceitos, de opções, de filosofias de vida, da evolução da ciência e da técnica, ( que nos aproxima de um limite quanto à possibilidade de retirar o feto do útero da mãe, limite esse ainda pouco claro, evolutivo e portanto a ter em conta), mas nunca da base que tem orientado uma parte substancial do debate sobre o Aborto – a de que este acto é condenado por Deus, através da Sua Palavra, da Bíblia.

Ora, não sendo tal verdade, estando este Livro Sagrado isento desta matéria, saibamos dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César.

Assim, os que são anti Aborto assumam-se somente enquanto tal, antiabortistas, deixando de lado pressões religiosas, defendam o que é do seu ponto de vista, no plano de César e não no plano de Deus.

É um direito que lhes assiste, absolutamente respeitável, mas sem chantagens emocionais, sem pressões em volta do nome de Deus.

Um outro assunto, ainda no contexto de dar a César o que é de César, é a questão moral inerente ao Aborto. Tal questão resume-se à função de sustentação da nossa Espécie, a Humana e, portanto, à importância do acto reprodutório enquanto, por ora, único meio de sustentação da mesma.

Esse tema, não pode ser visto no contexto de um posicionamento religioso, ou espiritual, mas sim num contexto moral e social. Ou as comunidades entendem que têm a vontade anímica de prosseguir, ou entendem que chegaram ao fim de um percurso, o da sua presença entre a Comunidade Humana global.

Tempos houve em que a educação sexual se desenvolvia, distendidamente, entre rituais comunitários de crescimento pessoal, masculino e feminino, e em que a função reprodutora era assumida como um elemento determinante para a sustentação das mesmas comunidades.

Algumas comunidades, como os Cátaros, por exemplo, assumiam que a sua própria existência correspondia à existência do Diabo, pois seríamos, todos, filhos do Diabo. Daí que condenavam a reprodução e a continuidade da Espécie Humana.

Outras Comunidades entendiam que a proximidade à espiritualidade era mais fácil com processos de abstinência o que condizia a uma penalização da sexualidade e da reprodução.

A Bíblia não condena nem a sexualidade, condena sim a devassidão, nem a reprodução e a continuidade da Espécie Humana, e, mais, explicita em todas as suas palavras o Amor de Deus aos Seres Humanos e o desejo que tem em ser Amado por eles.

Infelizmente, as comunidades em que vivemos são cada vez mais comunidades fechadas, apartamentos em prédios, onde o núcleo se encerra e onde os Valores, os Costumes, e as técnicas vivenciais não se transmitem adequadamente,

Se passearmos na net pelo Conselho Nacional da Educação verificaremos a estupidificante verborreia em volta de questões simples como a transmissão da experiência sexual, do Amor entre os seres humanos e entre os casais que justifica a idiotice dos debates em volta da questão do Aborto.

Porque não pode haver posição esclarecida sobre o Aborto se não houver uma posição esclarecida sobre a sexualidade e a importância da continuidade das comunidades humanas.

Assim, se o Aborto não é pecado, pode ser penalizável, moral e socialmente, ( que não juridicamente), se for transformado em meio de rejeição da nossa função de continuidade das comunidades onde estamos e de que somos parte.

Isto é, uma decisão de Aborto, tomada no contexto de um casal, por razões de saúde, tomada por razões de evidente impossibilidade de sustentação do filho que vem, não pode ser condenada, nem moral nem socialmente e muito menos juridicamente.

Mas uma decisão de Aborto, tomada pelo simples amor ao corpo, pelo simples desejo de continuidade de uma vivência de estrito prazer, é, sem dúvida, moral e socialmente condenável.

Na verdade, cada vez menos, o Aborto pode ser entendido como instrumento contraceptivo pelos impactos particularmente negativos que tem sobre a saúde, física e psicológica da mulher, pela simples razão de existirem outros meios com efeitos radicalmente minimizados sobre a mulher se prevenção da gravidez, pelo que, assim, o Aborto tem de ser, também, radicalmente neutralizado.

Não em nome de qualquer acto pecaminoso, mas em nome da saúde, individual e pública.

Mas, para tal, há que pôr fim, também, a esta larvar ignorância sobre a sexualidade, a esta perspectiva injustificada em qualquer circunstância, de penalização da sexualidade, que vai ao ponto de anular a educação sexual das crianças e dos jovens e a esta atitude demente de negação da prevenção da gravidez.

Tal como há que pôr fim à sustentação desta perspectiva generalizada de rejeição da Reprodução.

Só que tal perspectiva aponta para a negação dos actuais conceitos de beleza humana, que conduzem a uma parte dominante da rejeição da gravidez por parte das Jovens, como aponta para a assunção, pela Comunidade, da responsabilidade colectiva que temos, todos, de ter do apoio à Infância, à Juventude, apoio que não cabe somente às mamãs e aos papás mas sim, como sempre foi, à Comunidade no seu todo.

Só assumindo a educação sexual, que sempre existiu, só assumindo o apoio colectivo às crianças e jovens, como sempre sucedeu, é que é possível travar esta tendência ao suicídio colectivo a que hoje assistimos, em particular nas nossas sociedades ditas desenvolvidas.

Cabe pois às comunidades alterarem radicalmente Valores hoje dominantes, que passam pela definição de corpos “saudáveis” que apontam para corpos estéreis, que passam pela não aceitação da educação sexual das crianças e dos jovens, que passam pelas lógicas individualistas e pela rejeição da continuidade da nossa espécie, a humana.

Cabe-nos, como de costume, o papel de sermos os que trazem o bom senso, a um debate que se perspectiva ridículo e inútil porque sectário e não educativo.

Com este texto pretendo participar nesta nossa função, de forma positiva e capaz de apontar um caminho que venha da Tradição para um Futuro que desejo cada vez melhor para todos.








Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 12:29
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