Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2007

A Libertação de Sara Wikes

Cinco anos passados sobre a morte do Dr Jonas Malheiro Savimbi, cinco anos de não guerra em Angola, cinco anos de um dos mais elevados crescimentos económicos de África e do mundo, dão-me a distanciação, o tempo, a informação analítica e a oportunidade de responder a um amigo antigo e a um amigo mais recente que pouco conheço, o Vítor Nogueira e o Luis Araújo, com carinho, amizade e frontalidade.

Fiquei contente com a Libertação da Sara Wikes.

Porque a Libertação de uma Pessoa injustamente presa é sempre um passo novo nos caminhos difíceis da Democracia.

Achei aliás que seria importante eu promover a luta pela Libertação da Sara também porque é uma luta de Pessoas que em Angola pugnam pela Democracia, inclusivamente para alguns pela Democracia Participativa, alargada portanto à intervenção activa de todos os Cidadãos e Cidadãs, como faz o Luis Araujo.

Mas começo por relevar alguns aspectos essenciais que a História Formal, a História da Verdade Oficial, a História que os documentos das Nações Unidas nunca contarão.

A UNITA, goste-se ou não dela, (eu estou afastado da UNITA desde 2005…), era uma força política com Forças Armadas, fortemente preparadas, treinadas e combatentes.

Nunca a Historia Oficial, a Verdade Oficial, contará que no preciso momento em que a direcção politica da UNITA anunciou que terminava a guerra civil, não só ela terminou, como, magicamente, nunca mais houve guerra civil, ( e já lá vão cinco anos…).

Gostava que os Historiadores Oficiais, os Contadores das Historias Oficiais, me relatassem quantos casos idênticos existem na História da Humanidade.

Nem um bando armado, ficou, do lado da UNITA, para gerar uma simples infracção a uma decisão politica da direcção da UNITA de 2002, nem uma simples ilegalidade face à legislação Angolana.

No entanto, ainda em Angola, em Cabinda, ali ao lado, a guerra civil continua, e transforma-se, cada vez mais, numa inultrapassável guerra pela Independência…

Por outro lado, o findar da Guerra Civil ainda não originou a Paz, ainda não originou a Democracia, ainda não originou o Desenvolvimento, embora já esteja a gerar, crescentemente, o forte crescimento económico que acima refiro e tal é um aspecto positivo.

E, desta vez, não se pode imputar estes “ainda não”, qualquer culpa enfim, à UNITA, ao dr Jonas Malheiro Savimbi, morto há cinco anos, em combate, que hoje, mais uma vez, recordo com saudade.

Era o dr Jonas Malheiro Savimbi, éramos nos da UNITA, perigosos terroristas, inflamados sectários, amantes da Guerra, da Violência descabelada, mas terminámos com uma Guerra Civil e ela, magicamente, findou.

Mas os diamantes de sangue continuam, a exploração desenfreada continua, quer nos campos de exploração diamantífera, quer nos campos de exploração petrolífera.

Passados cinco anos…

Não faço parte dos que acham que a GW, ou a Sara, sejam agentes de um imperialismo qualquer.

Faço sim parte dos que acham que a GW, e provavelmente também a Sara, andaram a apontar para o alvo errado durante anos, fazendo sim, com essa falta de pontaria, um espantoso jeito aos que hoje, em Cabinda, procuram analisar, no plano da Transparência que na verdade não têm.

Ainda me lembro do que está escrito, sobre a UNITA, sobre mim, nos canhenhos das Nações Unidas, no Jornal Oficial das Comunidades, no Diário da Republica Portuguesa….e dos silêncios que vivi.

Por outro lado, se fosse cínico, diria como me disseram múltiplas vezes até 2002, “Angola é um Estado Independente, escolhe autonomamente as suas políticas e governações…não nos devemos imiscuir na sua política interna, mas temos o dever de obrigar a UNITA a acatar as decisões de um Governo legitimamente e internacionalmente reconhecido”, enfim a argumentação que justificava a equiparação da UNITA ao MPLA.

Não o farei hoje, como não o aceitava e não fiz antes de 2002, 22 de Fevereiro/4 de Abril.

A UNITA não está somente militarmente desarticulada, porque nessa matéria foi ela própria que se desmilitarizou, e bem.

A UNITA vive o luto de um leader, vive o resultado de uma dolorosa mas necessária decisão - o findar da guerra civil - e busca-se a si própria num país onde a distribuição da Riqueza é brutalmente desigual, e onde se recompõe, ao mesmo tempo a elite politica e social, o que a tem afectado, tanto quanto afecta os restantes partidos políticos angolanos em particular por tal suceder no seio de um Regime pré democrático.

Finalmente, a UNITA vive uma desarticulação ideológica que também a dilacera.

A Comunidade Internacional, esta “santa” figura, que prometeu o que não devia aos Angolanos para quando terminassem com a guerra civil, até hoje, em nada cumpriu.

Simplesmente abandonou Angola e os Angolanos à sua sorte, a troco de uns míseros tostões e da Liberdade Absoluta de Comércio, o que, diga-se é apesar de tudo a base do crescimento económico vivido em Angola, o que não é nada mau, sendo e sabendo a muito pouco.

Neste contexto, Angola e os Angolanos, apesar de tudo, vivem melhor, a economia acelera todos os dias e, aceitemos, quando os EUA quiseram impor regras ao governo Angolano, este, em vez de ceder, optou por seguir a via da aliança com a RP da China, (que, ela também, não é um exemplo de Democracia e de Transparência).

Diga-se que bati palmas, pois a alternativa entre a RPC e a cedência aos EUA era de resultado nulo e sempre dá algum gozo dizer não ao Império do Mundo.

Claro que por tal, (e por outras idênticas, …) já me disseram, passou-se para o MPLA…pelo que já estou habituado e decididamente já não ligo bóia a estas maledicências.

Entretanto, o que sucedeu à Sara é inaceitável.

Porque os Estados devem reconhecer e incentivar a critica, a análise critica que lhe seja feita, interna e externamente.

Porque as empresas transnacionais devem reconhecer e aceitar a critica, a análise critica, em todos os cantos do Planeta onde estejam e por isso mesmo muitas delas formalmente reconhecem o primado da Ética e da Responsabilidade Social na sua actividade, devendo portanto cumpri-lo.

Mas, sabe-se mundialmente, Cabinda vive em cenário de guerra. E a tensão elevada que se vive num cenário de guerra conduziu o Estado Angolano, por via dos seus zelosos funcionários, a um erro clamoroso e que exige que seja emendado.

Ponto final.

Não me parece sério exigir pedidos de desculpas, como não me parece sério impedir que a Sara continue a sua investigação em Angola, toda ela, Cabinda inclusive.

Agora que toda esta história me deixa com um sabor amargo na boca, e alguma azia no estômago, lá isso me deixa.

E, neste quinto aniversário da morte do meu amigo Jonas Malheiro Savimbi, ainda mais.


Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 12:41
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