Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

Em defesa do Ensino Profissionalizante

É importante, antes do mais cumprimentar o EXPRESSO por “puxar à 1ª página”, como o faz na edição de hoje, 8 de Dezembro, uma notícia sobre o estado da Educação em Portugal.



No entanto, convém antes do mais esclarecer conceitos por forma a clarificar o tema – o Ensino Profissional não é o mesmo que os Cursos Educação Formação, ainda que sendo ambos componentes do subsistema do Ensino Profissionalizante.



Assim, o Ensino Profissional lida com Jovens há já 17 anitos, com o 9º ano de escolaridade e que neste subsistema farão a escolarização até ao 12º, num contexto de dupla certificação, escolar e profissional em 3 anos, enquanto que os Cursos de Educação Formação é um subsistema bem mais recente, que lida com Jovens com o 9º ano de escolaridade incompleto, ou com o 12º ano de escolaridade incompleto, também, num contexto de dupla certificação, escolar e profissional mas de um só 1 ano.



Esclarecida esta questão analisemos as angústias do professor Domingos Cardoso, reformado aos 36 anos de serviço no Ensino.



Vivemos, no contexto do Ensino e da Qualificação Escolar e Profissional das Pessoas em Portugal momentos terríveis e que exigem medidas imediatas, por forma a superarmos atrasos cada vez mais difíceis de superar, na nossa concorrência com os restantes países da União Europeia, e mesmo com o Resto do Mundo.



O Ministério da Educação fez surgir assim os Cursos de Educação Formação num modelo de combate ao Insucesso e ao Abandono Escolar e, só este ano lectivo, e bem, procurou incentivar a generalidade das Escolas, Públicas ou Privadas, Profissionais ou não, a criarem e desenvolverem, nos seus espaços e com os seus recursos, os mesmos Cursos de Educação Formação.



É sabido ainda que de Norte a Sul do País existem, por razões que têm sobretudo a ver com a tendência para a redução da população portuguesa, com os baixíssimos índices de nascimento, inúmeras escolas públicas com um corpo docente largamente excedentário em relação aos alunos nelas existentes e é neste contexto de procura de soluções ao não Desemprego para os Professores e de utilização dos recursos existentes, que se aceitou a ideia de generalizar, nas escolas públicas também, estes Cursos de Educação Formação.



Eles permitiriam, assim, combater o Insucesso e o Abandono Escolar e ao mesmo tempo gerar horas de leccionação para os professores existentes no modelo público de Ensino.



O Insucesso escolar é, releve-se, em Portugal, dramático – recordando o documento QREN, Quadro de Referência Estratégica Nacional, “em 2005, cerca de 73,8% da população apenas tinha concluído o ensino básico e 13,6% o ensino secundário, enquanto que no conjunto da UE25 se verifica uma repartição em sentido contrário (47,6% com o ensino secundário e apenas 29,1% detentores do ensino básico)”.



No que diz respeito ao Abandono Escolar, não menos dramático, devemos recordar ainda que “Por outro lado, a expressiva redução da taxa de saída escolar precoce registada nos últimos quinze anos (de 64% em 1991 para 38,6% em 2005) não impede que Portugal continue a revelar uma situação pouco favorável no contexto europeu, posicionando-se claramente acima da média da UE 15 (16,9%) e da UE 25 (15,7%), com reflexos na manutenção de défices de qualificações e de níveis de empregabilidade reduzidos.”



Vale também recordar que, “Cerca de 3 500 000 dos actuais activos têm um nível de escolaridade inferior ao ensino secundário, dos quais 2 600 000 inferior ao 9.º ano. Cerca de 485 000 jovens entre os 18 e os 24 anos (i. e., 45% do total) estão hoje a trabalhar sem terem concluído 12 anos de escolaridade, 266 000 dos quais não chegaram a concluir o 9.º ano.”

Ora esta característica dos Recursos Humanos Portugueses, abrangendo do Empresário ao Segurança, fragiliza significativamente a capacidade do País se adaptar à Sociedade do Conhecimento e da Informação onde hoje vivemos.



Daí que se privilegie, Programa Operacional do Potencial Humano, um dos Programas enquadradores do Quadro de Referência Estratégico Nacional, QREN, a dupla certificação, escolar e profissional, pois o mesmos era um instrumento essencial de superação do Insucesso Escolar, do Insucesso na Qualificação Profissional, e da mais rápida adequação dos Recursos Humanos em Portugal aos modelos comportamentais, tecnológicos e procedimentais mais exigentes dos dias de hoje.



Portugal herdou esta dramática situação dos tempos do Regime Salazarista relembre-se. Recordemos um autor do regime de então, ainda que já em fase de reformulação de ideias, em princípios dos anos 70, ““…cerca de dois terços dos estudantes que concluíram a instrução primária abandonavam definitivamente os estudos nessa altura. Duas terças partes da nação estão deste modo a enfrentar as dificuldades e as complexidades tecnológicas do nosso tempo com a modesta base de conhecimentos que lhe foram ministrados até aos 10 anos”.”, (in, A Terceira Posição, de A. Valdez dos Santos, Soc. de Pub. Economia & Finanças Lda).



Evoluiu-se bastante nestes 33 anos como se vê. Mas não se evoluiu o suficiente.



É o que as declarações e as angústias do professor Domingos Cardoso mostram. Uma parte da comunidade escolar essencial, os docentes, vive momento de perplexidade e de incapacidade de adaptação à comunidade juvenil que deveria apoiar nos seus processos de aprendizagem, de qualificação.



Eu temia esta reacção negativa, nas escolas públicas de elite, as escolas ditas secundárias, libertas que andaram estes anos, dos jovens inseridos no contexto do Abandono e do Insucesso Escolar.



Disse-o, enquanto dirigente da APEAFOP, Associação Portuguesa de Entidades Acreditadas de Formação Profissional, num seminário no Conselho Nacional de Educação…recordei-o ainda há dias em um textinho que fiz distribuir na Internet recordando que não é por acaso a tão grande quantidade de produtos têxteis a correrem as feiras do Relógio e equivalentes por este país fora, resultantes em especial da não passagem destes produtos nos controlos de qualidade..



Uma população não qualificada é uma população estranha ao modelo produtivo onde predomina o controlo de qualidade.



O professor Domingos Cardoso desconheceria esta realidade, ou não pensava nela mesmo quando andaria a passear e a comprar nestas inúmeras feiras ambulantes que pululam por este país fora.



E confrontou-se, inesperadamente e em fim de carreira profissional, com esta população que lhe entrou pela escola e pela sala de aulas a dentro.



Uma população que, como ele diz, e citando o EXPRESSO, ““amarrotavam e deitavam para o cesto do lixo” as fichas de trabalho que distribuía à turma”, ou que grunhiam mungiam e roncavam na sala de aula.

É difícil gerir esta nova população? É sim.



É impossível geri-la?



Nem pensar.



Nela acumula-se, além do insucesso escolar, a degradação da família dita tradicional, o impacto das solicitações consumistas, a perca de regras de convivência social, a não presença efectiva parental, assim como o total desconhecimento dos actos de estudar, de ler, de aprender, da disciplina, da aceitação da autoridade.



(Note-se ainda que as fichas de trabalho, por si, já tendem a ser um modelo de aprendizagem simplificador e massificador, incapaz de produzir a ideia de leitura, de investigação, de busca da informação…).



Há pois, o professor Domingos Cardoso releva-o, uma enorme disfunção entre a vivência na escola, pública ou privada, “normal”, e a vivência real, sendo que uma parte importante dos docentes em Portugal não estão preparados, profissionalmente qualificados, para lidarem com esta população que o próprio sistema de Ensino cria, os do Insucesso, os do Abandono, escolar.



Sou director pedagógico de uma Escola Profissional, a EPAR, e nela existem Cursos de Educação Formação.



É claro que parte dos jovens que temos tiveram grande dificuldade de adaptação à disciplina em sala de aula e fora dela, mas desde o inicio lhes foi mostrado que sendo a EPAR uma Escola Profissional formávamos nela Futuros Profissionais para o Mercado de Trabalho, onde a disciplina e a noção de hierarquia e autoridade são ainda maiores que as existentes num contexto escolar.



Alinhada com esta explicitação de regras, viveram os jovens momentos de conhecimento não só do Saber, ser, fazer e estar, mas ainda momentos de aproximação à vida exterior à escola, como ainda lhes foi incutido o desejo de terem uma Carreira Profissional no contexto de um Mercado de Trabalho Altamente Concorrencial, especialmente agressivo.



Regras de disciplina, noções de autoridade e hierarquia, recusa em aceitar atitudes de desleixo para com os outros, do docente à profissional de Limpeza, aliadas com a participação em momentos de decisão relacionados com a sua vida, e muito diálogo, potenciaram profundas alterações comportamentais nestes Jovens.



Houve claro desistentes, processos disciplinares e muito muito acompanhamento com as famílias dos Jovens.



Para o efeito houve claro a definição prévia de estratégias em sala, reformuladas sempre que necessário, pelos docentes que acompanharam estes Jovens. De facto, numa Escola Profissional existe esta experiência de lidar com Populações Difíceis e Altamente Carenciadas, que provavelmente não existirão em outros subsistemas de Ensino.



Mas esta reportagem notícia do EXPRESSO levanta algo de essencial – a necessidade de qualificação permanente no corpo docente e a sua adequação ás populações envolvidas no processo de aprendizagem.



Como levanta outro tema sempre escondido – a Inserção, escolar, profissional e social tem custos e, na verdade, este campo não está devidamente acompanhado.



Assim, tenta-se, com resultados menores dos que deveriam ser, encontrar soluções mais baratas no contexto da qualificação das Pessoas, escolar e profissional, que no contexto da construção de estradas, de equipamentos.



O erro está sobretudo aqui porque já se atingiu o limite.



Quando sabemos que o custo hora aluno passou dos 4,5 euros de 1986 para os 1,8 euros de hoje, não se pode esperar outra consequência que não a da insatisfação, sobretudo na parte das equipas docentes menos adequadas às exigências de adaptação à Inserção dos Jovens Afastados dos modelos tradicionais de Ensino.



Mas, por favor não acusem os Cursos de Educação Formação, de Jovens ou de Adultos, o Ensino Profissional, ou o reconhecimento e validação de competências, escolares e profissionais.



Há sim que investir, ainda mais, na Qualificação das Pessoas e, portanto, investir também e mais nas equipas técnicas e formativas e nas entidades que se dedicam a esta actividade essencial para a modernização de Portugal.





Joffre Justino



(Presidente do Conselho Cientifico da APEAFOP)
publicado por JoffreJustino às 09:38
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