Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007

Não há Liberais em Portugal –há Populistas e neoliberais economicistas – e até na Europa esta espécie escasseia ….

Basta que o Estado proteja a propriedade privada para que seja considerado Liberal? Basta que o Cidadão, ou Cidadã, a defenda, para que seja um Liberal? Pois, em Portugal, parece que sim…

É um incomodo ser-se, ainda hoje, um Liberal.

São tão poucos os Estados Liberais, são tão poucos os Cidadãos e Cidadãs Liberais, e ainda por cima estão tão divididos…

Penso eu que Polido Valente é um desses poucos e costuma, diga-se, sê-lo em circunstâncias dificeis, pelo que me orgulho de o ter tido como professor, em Económicas, ao tempo em que eu, diga-se, era um radical marxista.

Como me orgulho de ter aprendido com Ernâni Lopes e com Vitor Constâncio, (este bem menos liberal…), a quem não me canso de prestar homenagem…

Mas no Publico de 21.12.07 Polido Valente falhou o alvo…

Ser-se Liberal implica, penso eu, mantermos alguma tensão em nós próprios entre a defesa dos direitos do individuo e a defesa do colectivo, entre a promoção da propriedade privada e a defesa dos direitos de quem trabalha, entre a defesa dos deveres de cada individuo e as responsabilidades do colectivo para com a sociedade, entre a defesa da Segurança que o Estado nos deve dar e os limites ao seu Poder.

Ser-se liberal implica assumir os Direitos do Homem radicalmente. Mesmo que tal implique alguma insegurança comunitária.

Ser-se Liberal não é entender que um proprietário possa abusar do seu direito de propriedade pondo em causa os direitos de propriedade dos restantes, por exemplo.

Por isso me mantenho radicalmente contra “a liberdade” de produção, sem regras rígidas, dos Organismos Geneticamente Modificados, OGM, porque, hoje, o monopólio a montante, das sementes, por empresas como a Monsanto, contende com a Liberdade de produção, dada a expansão das sementes OGM sobre terrenos de quem as não adquiriu e com os direitos dos seus proprietários e por isso apoiei as manifestações mais radicais contra a sua abusiva utilização.

Por isso me mantenho radicalmente contra a “liberdade” de deslocalização de empresas que procuram beneficiar dos salários de fome em países como o Vietnam, como sucede com a NIKE e muitas outras empresas do sector do Vestuário mundial, pois a liberdade de circulação de bens e capitais tem de estar acompanhada pela liberdade de circulação das Pessoas, o que não sucede.

A livre concorrência é abusivamente referenciada para defender a aplicação de “invenções” não testadas convenientemente em múltiplos sectores, assim como para defender os monopólios e oligopólios contrários precisamente à Livre Concorrência efectiva.

Hoje a Segurança dos Cidadãos e Cidadãs, e o seu Bem Estar, não se compadecem com Estados minimalistas, desprovidos de qualquer capacidade de regulação perante constelações empresariais mais fortes que a larga maioria dos mesmos Estados. A Segurança e o Bem estar dos Cidadãos e Cidadãs implicam a existência de uma efectiva aceitação da Responsabilidade Social das Organizações, (ver site da APEE, Associação Portuguesa de Ética Empresarial, www.apee.pt), assim como a existência de Estados reguladores dos interesses múltiplos na economia e na sociedade.

Fui alvo do Totalitarismo por um Estado Fascista, o português, por ser contra a guerra colonial e a favor de um regime outro que não o fascista.

Normal.

Normal já não é ter sido alvo do totalitarismo por instituições como as Nações Unidas, a União Europeia e o Estado Português de novo que, em lógica de cascata, me acusaram e penalizaram duramente, acusando-me de “actividades políticas” em favor da UNITA, sem qualquer direito à defesa do meu bom nome e dos meus direitos. E tudo em defesa de um Estado então totalitário e ainda hoje prédemocratico, e dos interesses das grandes petrolíferas e das grandes diamantíferas e interesses russos/israelo/canadianos do sr Lev Leviev, que eu criticava com alguma veemência diga-se.

No maior dos silêncios diga-se, da larga maioria de “liberais”, portugueses e não portugueses.

Por isso e apesar de continuar a respeitar Polido Valente e de continuar a recordar as suas aulas com grande carinho, não consegui, hoje, calar.

Porque não é sério e muito menos Liberal, defender os “Iluminados Monarcas” de hoje, os srs Putin do mundo de hoje.

Do marxismo estudado com alguma seriedade regressei, nos anos 80, ao Liberalismo.

De Esquerda, mas Liberalismo, ou se quiserem Liberalismo, mas de Esquerda.

E aprendi também e outra vez com Polido Valente.

Sou Liberal de Esquerda para não me confundir, de forma alguma, com os neoliberais que violentaram o Chile com um regime fascista, que cederam em Angola com o apoio a um regime comunista, e que com as suas “medidas económicas” via Banco Mundial de então, destruíram meio mundo.

O populismo do sr Putin, a entrega da bandeira vermelha ao Exército russo etc, não merece qualquer defesa, nem justifica qualquer interesse, político, económico e social, nem qualquer apoio por parte de um Liberal.

O sr Putin é na verdade um potencial ditador, tem em geral atitudes antidemocráticas e continua a defender os interesses económicos do Estado que herdou do sovietismo.

A única coisa que o sr Putin tem feito é permitir o renascimento de um classe de Poder já não estatista no plano formal ainda que estatista no plano do real pois é do Estado, do sr Putin, que lhe vem o Poder

Por isso não merece qualquer apoio.

Apoio sim merece o sr Sarkozy, presidente francês, que se opôs, na Cimeira de Lisboa, às serôdias medidas neoliberais da Comissão Europeia, para com os países africanos. Apoio sim merece a atitude do sr Brown, primeiro ministro britânico, assim como o bom senso do sr Sócrates, primeiro ministro português, que mantiveram a Cimeira a um bom nível, impondo o debate sobre a boa Governação e a Democracia, contra até o sr Mugabe, um ditador que defende Hitler, sendo negro.

É claro que ao assumirmos estas posições parece que ficamos de fora dos bem pensantes, das Helenas de Matos e etc.

É claro que ficamos e ainda bem.

Porque quando morrermos levaremos nós todos o mesmo – nada!

E enquanto não morrermos marcaremos a diferença face a pseudo importantes serôdios que se sentem com dificuldades a pagar salários de 420 euros e não olham para o desperdício que provocam e enchem as feiras dos relógios deste país, onde, aí sim perdem fortunas e geram ridículos internacionais.

Polido Valente continua a merecer ser lido com atenção, mais que eu claro, mas cometeu um deslize que lamento, pois sou um dos seus admiradores, mesmo quando o critico.

Ele é um dos solitários que pensa em Portugal.

É um Liberal meus senhores, mesmo quando erra.

Há pois pelo menos um Liberal em Portugal, que como todos nós, também erra. Só que um não faz a diferença e quando ele erra fica o campo das ideias tão vazio que o ruído sabe a bomba atómica…

Joffre Justino


(vejam também www.epar.pt)
publicado por JoffreJustino às 10:55
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