Sexta-feira, 4 de Abril de 2008

Algumas Famílias Disfuncionais?....

Alguns políticos portugueses, ao que parece em todos os partidos políticos, (Ana Gomes, do PS, foi o último caso…), espantaram-se com a violência, efectiva e ou latente, mas em ambos os casos real, nas escolas portuguesas, e assumiram atitudes de alguma sem vergonha, lamento dizê-lo.



Ando nestas actividades relacionadas com o Ensino desde 1975.



Cheguei até a ser dirigente sindical do SPGL. Anos depois fundei, com mais sócios, uma Escola Profissional, a EPAR, Escola Profissional Almirante Reis, (www.epar.pt). Tenho pois alguma experiência vivida sobre o Ensino, até porque lido com uma Escola Profissional, onde os Jovens são oriundos de Populações Altamente Carenciadas e, uma parte deles, de Famílias Disfuncionais.



Mais ainda, sou Presidente do Conselho Técnico Cientifico da Associação Portuguesa das Entidades Acreditadas de Formação Profissional, APEAFOP, (www.apeafop.pt).



É meu dever, por isso, intervir nesta matéria.



Antes do mais dois esclarecimentos essenciais – Família Monoparental não significa linearmente Família Disfuncional; Populações Altamente Carenciadas não significam linearmente Famílias Geradoras de Jovens Problema.



A seguir alguma informação essencial – a generalidade das Famílias em Portugal, a sua larguíssima maioria diga-se, são Famílias com Problemas, ( o que não significa o mesmo que Família Geradora de Jovens Problemas…), e convém iniciar este assunto por aqui. Porque,



a) O primeiro Problema, sistematicamente ignorado, reside no facto de nos últimos 30 anos termos vivido a imigração interna de um nº significativo de famílias, ou de parcelas importantes delas – todas as Famílias e Pessoas que abandonaram o Interior de Portugal e vieram residir para o literal e para os espaços urbanos do Litoral.

b) A adaptação das Pessoas e das Famílias a esta nova forma de viver, urbana e litoral, aparentemente, pensava-se fácil. Não é verdade, nunca o foi e hoje começa-se a viver, socialmente, essa dificuldade, de forma massiva. A transformação, recente, de Populações Rurais em Populações Urbanas, tem fortes implicações Culturais, de adaptação a espaços novos, de perca de referências afectivas e sociais, no mínimo.

c) O segundo Problema reside na transformação da forma predominante de relação laboral, de rural a urbana, com implicações na vivência do dia a dia, em especial com a sujeição a horários, rigorosos e prolongados, gerando afastamento da Família em períodos que vão acima das 10h/dia em média. Este problema, para além da necessária, (e difícil), adaptabilidade a esta nova forma de viver, é quase linearmente gerador de Jovens Problema, dado o isolamento em que parte essencial da Juventude vive, face aos Adultos que os deveriam acompanhar.

d) O terceiro problema reside na total falta de equipamentos sociais de apoio às Famílias, em especial às Famílias com Crianças, em Portugal. Infantários, creches, escolas primárias, centros de apoio às crianças, etc., é matéria que nem o Estado Central, nem o Poder Local, nem as Comunidades, nem as Famílias, souberam resolver adequadamente, empurrando a solução, por exemplo, para a atipicidade da figura “Ama”, usualmente significando uma senhora em um apartamento minúsculo, que, sem qualquer formação, “tomava conta”, dos bebés e das crianças, horas dos dias da semana, a fio, contra uma remuneração.

e) O quarto problema reside nas poucas qualificações, adicionais à transmissão de conhecimentos, dos professores nos vários graus de ensino, em Portugal. Anos a fio, desde que a massificação do Ensino aconteceu em Portugal, com o 25 de Abril de 1974, esta classe socioprofissional foi tratada como um nível mais elevado das atípicas “Amas”.

f) O quinto problema das Famílias com Problemas residiu em algo que ainda hoje se esconde em Portugal – não se fazem 14 anos de Guerra esperando que os Jovens que nela participem não ganhem traumas do foro psicológico. Ora foram as Famílias, já de si com os problemas acima, que auxiliaram a esconder estes problemas, nunca tratados, por entre os lençóis das camas de casal e entre as paredes dos minúsculos apartamentos onde essas Famílias com Problemas viviam e vivem.

g) O sexto problema reside na relação evolução salarial/evolução dos preços em Portugal. Um país com Preços europeus, força as Famílias a viverem com salários terceiro mundistas e pensa que nada acontece. Este problema, gerador de opções difíceis nas Famílias, como o não terem crianças, o não terem vida social normal, o não poderem corresponder com qualidade à Sociedade de Conhecimento de hoje, é permanentemente ignorado, por razões tristes que passam pró sustentar as baixas produtividades de muitas unidades económicas nacionais.

h) O sétimo problema reside na completa inadaptação dos espaços urbanos à vida social das Famílias, que são empurradas para pequenos quartos de pequenos apartamentos, de edifícios não cercados por jardins, não rodeados de espaços colectivos, muitas vezes sem sequer poderem usufruir da velha tasca do antigamente. Para não falar dos equipamentos de transportes públicos, das ligações dos espaços onde se sediam as Famílias aos espaços onde se sediam as unidades empregadoras. Esperar que um Jovem casal anseie por regressar a casa, reproduza a Família com 3 crianças por casal nestas condições, é esperar um Milagre que Deus nunca permitiria que acontecesse…. (já nem “a casa portuguesa com certeza” existe…).

i) O oitavo problema reside na tendência ao suicídio, inerente aos problemas acima, surgida. Os Jovens casais, pressionados como foram, (e são), anularam-se e daí os 1,4 crianças, a diminuir, por casal, que Portugal tem hoje. Se esta tendência, de 30 anos feita, não é uma tendência suicidária, geradora de graves problemas psicológicos, culturais, sociais, e familiares, eu não existo.

j) O nono problema é o problema de adaptação cultural de uma sociedade arcaica, fortemente autoritária e conservadora, como a Portuguesa antes do 25 de Abril, a uma sociedade permissiva, liberal, democrática, como a de hoje.

k) O décimo problema reside na Inserção das Populações emigrantes na sociedade portuguesa, uma sociedade, ainda por cima, em clandestina mudança…



Violência nas escolas com estes Problemas e estas Famílias Problema?



Felizmente ainda se vive pouco esse estado!



Mas a tendência para o problema e o conflito é, sem dúvida, crescente, e está presente nas escolas desde os dias em que iniciei a minha actividade docente em 1975.



Escamoteada pela “Revolução dos Cravos”, pelos sonhos então vividos de dias vindouros sempre melhores, ela, nos dias de hoje, com menos sonhos, tende a dominar a presença das Famílias em geral nas escolas, isto é os seus herdeiros, dada a multiplicidade de problemas, alguns dos quais descrevo acima.



Filhos Únicos, abandonados horas a fio, sem uma Família concreta dias a fio, entregues a professores não qualificados pedagogicamente para o serem, ( porque se acham que as ridículas “profissionalizações” qualificou alguém,…), e em espaços colectivos como são as escolas, o que podem gerar senão problemas, conflitos?



Felizes devem considerar-se os políticos, e o Estado e seus representantes, porque as escolas e os professores lá foram “resolvendo problemas”, nestes últimos 30 anos, fazendo omeletas quase que sem ovos.



Só que as soluções de arremedo têm sempre um momento de fim. A partir do findar desse momento, teimar em mantê-las significa somente agravar, muito perigosamente, o(s) erro(s), anterior(es).



Sabem, a generalidade dos que vão ler esse texto, que defendi, (e defendo), a Ministra da Educação, (e o Ministério), no que diz respeito à Avaliação de Desempenho, ou ao estatuto do Aluno.



Reafirmo, defendo.



Porque a Mudança necessária, diria mesmo Urgente, no sistema de Inserção das Crianças em Portugal, onde cabe, enquanto subsistema, o Ensino, tem de deixar de ser feita com “Amas”, (por muito amorosas que a sua maioria foi e é – recordo a estrada que paguei na Madeira, para o Alberto João oferecer à “Ama” dos seus filhos, uma rua à porta da sua casa…como exemplo de alguém que certamente foi amorosa), para passar a ser feita por profissionais, e não “afins de Amas”.



Os Profissionais têm Custos.



Ora a Inserção das Crianças, ou o Ensino tem vivido a Custos ridículos em Portugal e se continuar assim, mais grave será, a prazo, a situação.



Recordo aos políticos de Portugal, (e à dra Ana Gomes), que pagar 1,8 euros hora formando para, mais que Ensinar, Qualificar, escolar e profissionalmente e ainda Inserir, como substituir os Pais e as Mamãs deste País, torna a situação absolutamente insustentável.



Porque o País tem vivido, neste contexto do Ensino, da Qualificação e da Inserção, abusando da sorte, das boas vontades, e da militância de uma geração de Responsáveis das Organizações de Ensino, e dos seus Professores/Formadores.



Só que as consequências do erro estão a acumular-se perigosamente.



Elas estão bem visíveis nesta contestação Docente.



Mal orientada, centrada na partidarite portuguesa pelos “sindicatos”, errando sempre no alvo – por exemplo na questão da Avaliação de Desempenho, que uniu tantos docentes, ficou patente como os restantes intervenientes no Ensino, em especial os encarregados de educação e a “opinião publica”, e apesar do apoio da comunicação social aos Docentes, apoiaram e apoiam a Ministra da Educação e o Ministério.



Porque é mesmo o exemplo do absurdo, a profissão que mais avalia os outros, não só não ter lido atentamente o Modelo de Avaliação de Desempenho, como se ter limitado à critica sem apresentar alternativas concretas, (basta ter lido alguns dos relatórios de escolas sobre o tema, distribuídos profusamente na Internet, para o perceber), como se recusar na prática a aceitar que a Avaliação de Desempenho é, sobretudo na sua Profissão, para a sua boa imagem, essencial!



No entanto, é mesmo verdade que os Docentes têm razões para se sentirem incomodados, mesmo zangados. Eles lidam directamente com os 10 problemas que deixei acima, (e mais outros tantos) e, ao mesmo tempo, eles não são, repito, não são nem podem ser, a solução única para os mesmos!



Até porque não têm condições, nem lhas são dadas, para poderem ser a solução.



Alias, este Modelo está esgotado.





A Agência Nacional para a Qualificação foi um passo essencial na Mudança para um Modelo adequado, para a Inserção, ao procurar integrar os esforços do Ministério da Educação com o Ministério do Trabalho, nesta componente.



Eu teria sido mais Radical e teria eliminado os dois Ministérios para criar o Ministério para a Qualificação.



Doa a quem doer, sou dos que cansei quanto às “boas vontades”, até porque, por azar certamente, é raro caírem para mim…e por isso temos, todos, de nos adaptar a um modelo de sociedade de grande competitividade.



Onde os Modelos de Avaliação de Desempenho são instrumentos Centrais.



Mas se este actual Modelo está esgotado, o próximo Modelo não pode ser construído com base em baixas remunerações para os Docentes, em procedimentos altamente burocratizados a caírem sobre os Docentes, em pensar-se que os Docentes são os evidentes substitutos dos Papás e Mamãs, para escamotear a falta de equipamentos sociais de apoio às Famílias, em “rankings” feitos a partir da nota deste ou daquele “exame”, para escamotear a falta de filosofia de Inserção, ou em qualificações de Docentes, feitas por Docentes, (alimentando, só por isso os erros do Modelo), ou em manter os baixos custos hora/aluno do sistema, para alimentar as empresas, cotadas na Bolsa de NY, de obras publicas e construção civil.



O caminho definido, na minha humilde opinião, é correcto. Mas está incompleto.



Olhemos para as Pessoas, em cada sector. E, nas Pessoas deste sector, olhemos para os Docentes. Mas olhemos por cima da partidarite, do aparelhismo, do eleitoralismo.



Mais uma vez os meus Cumprimentos e os meus Parabéns à senhora Ministra.



Ao mesmo tempo, tenho de o dizer, o meus Parabéns Docentes, pela Zanga.



Mas afinem a pontaria e olhem para o alvo certo – não apontem para a defesa do corporativismo fácil.



Enfim – há realmente Famílias Disfuncionais em Portugal.



Mas o que há, sobretudo, é um Modelo Disfuncional Global, a mudar rapidamente. É para aí que temos de apontar, se queremos ver Portugal como espaço de vivência saudável, como local de harmonia, como cultura de Bem-Estar.



Não é assim hoje. Mas, para o ser, temos de pensar como J.F. Kennedy – o que posso fazer para dar ao País o que ele necessita e não esperar somente que tem de ser o País a dar-me o que necessito.



Um questão de Cidadania enfim, eis o cerne deste problema que é a Construção de um Modelo de Inserção das Crianças no contexto onde as Famílias já não são o que eram, mas ainda não são somente Famílias Disfuncionais.





Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 13:16
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