Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

1968 : Toda a Esperança e todo o Medo entre Kennedy, LBJonhson e Salazar

"Eu não temo nada!

Eu não temo nenhum Homem!

Os meus olhos viram a Glória do Regresso do Senhor!

(3 de Abril de 1968, discurso de Martin Luther King, no Templo

Maçónico em Memphis, na noite anterior ao seu assassinato)









Dias antes, a 31 de Março, LB Johnson anunciava a sua não candidatura à Presidência americana, em estado de total desilusão e abandono, deixando Robert Kennedy como o potencial verdadeiro único candidato Democrata.



E se a 4 de Abril de 1968 Martin Luther King era assassinado o mundo explodia um pouco por toda a parte, excepto, aparentemente, no espaço de expressão portuguesa, onde Salazar calçava ainda os seus efeminados, e por vezes maltratados, botins, em S. Bento, Lisboa.



Maio de 68 era, para o Portugal oficial, o findar do Mês e ano das comemorações do cinquentenário das aparições de Fátima, iniciado em Maio de 1967, com inaugurações da estatua de Paulo VI a 12 desse mês e com uma edição especial de dez milhões de selos, de um escudo, desenhados pelo pintor José Pedro Roque e impressos, claro, na Casa da Moeda.



Tudo em Portugal parecia calmo, dominado, autocensurado, nada havendo a considerar senão as cerradas criticas da comunicação social dominada pelo regime de então, sempre ridicularizando o fracasso das Democracias patente na radicalização social vivida com o Maio de 68, muito próxima da linha das posições soviéticas diga-se…Em Angola, entretanto, oficialmente, nesse mês de Maio de 1968, a excitação era o IX Circuito da Fortaleza, sendo favorito o Porsche 904 GTS de Ahrens de Novais, na época o melhor carro que corria na assim apresentada Província Ultramarina de Angola…



Na verdade, no ano anterior, em Maio de 1967, vivera a oposição preocupada e em desalento uma vaga de prisões de dirigentes comunistas, centrada sobretudo na margem Sul do Tejo e em toda a zona Sul, onde são detidos cerca de uma dezena de funcionários do PCP e nascem, entre cisões várias no seio dos CMLP, os Núcleos O Comunista, em 1968, enquanto que Mário Soares fora desterrado para S. Tomé, em Março de 1968.



Estava pois tudo bem, a tal ponto que ainda hoje se escreve, em não poucos documentos e livros, por não poucas mãos, que, por exemplo, Angola era vista, pelos Americanos, como, "uma mera extensão do território português, ou como parte de um cenário mais complexo do confronto Este/Oeste", (in, EUA e Angola: A Diplomacia Económica do Petróleo, Ana Paula Fernandes, pág.39)…



Mas nada verdade nada foi assim, ainda que aquele ano, aquele brilhante ano como alguém já o definiu, que foi 1968, em Portugal, nada tenha tido de brilhante, bem pelo contrário, tendo-se pautado, em geral, pela mediocridade habitual daqueles 46 anos salazaristas, aqui e ali apimentado por toques "globalizantes", apesar de se sucederem 2 ou 3 casos "interessantes" e geradores de alguma expectativa.



De qualquer forma vale bem a pena recordar, 40 anos depois esse ano, até no contexto do conflito Portugal/ ex Colónias/EUA, porque, de facto, ele pauta um inicio de Mudança…









Com os Kennedy em cena




John F. Kennedy surge num contexto de rotura com uma década fortemente conservadora, nos EUA, onde predominavam, no Poder, os anticomunismos doentios , mcartistas. E essa ideia de rotura manteve-se, como se verá, por toda a década de 60, mantida também pela imagem deste Presidente dos EUA.



Mas, anotemos, se a década de 50 foi, nos EUA, o que acima referimos, na Europa sucedeu algo diferente, em especial em parte, no inicio dessa década, pois ela ainda foi o tempo das Frentes Populares, como foi o tempo da expansão comunista nos países do leste europeu e, claro, também, de Salazar e de Franco, gerando outro tipo de enquistamentos sociais e políticos.



No entanto, houve algo de comum em ambos os continentes – a crescente influência, política e económica, da anglofonia no mundo, a par de uma crescente influência desta "cultura" nas culturas nacionais, regionais e mesmo locais.



E, nessa matéria, quer a música, quer a tecnologia de massificação nela centrada foram essenciais para o peso que hoje é dominante da anglofonia. A vulgarização do rocknroll, dos blues, das baladas, ou do jazz, tenderam a criar uma forma aproximada de ver o mundo entre os jovens dos países do chamado Ocidente, e que se alargou a todo o ambiente juvenil mundial.



E tanto John F Kennedy, como Robert Kennedy, surgem na cena política mundial com esta imagem moderna, liberal, democrática, universalista e antiracista – enfim em tudo ao contrário dos conservadores de então, europeus ou americanos e mesmo de muitos dos liberais de então…



Na verdade, nem John F Kennedy, nem Robert Kennedy lideraram movimentos cívicos/sociais. Mas foram, ambos, quem escancarou as portas do Poder, na altura pouco habituado a tal, e quem lhes deu as ruas para se manifestarem.



O odor a bafio existente nos espaços de Poder, com tal escancarar de portas, modificou-se o suficiente para se tornar respirável e que mostrou como era evidente, mais até necessário, o incentivo destes movimentos cívicos/sociais, o que, na Europa deu origem ao aparecimento, entre outros, de forças sindicais novas, já não alinhadas com as tradições anarquistas, comunistas, trabalhistas e católicas.



E assim, se o Plano Marshall foi, ao mesmo tempo, a hipótese de recuperação económica, e de mercado face às consequências da II Guerra Mundial, na Europa foi também um elo/prisão da Europa aos EUA, sempre com a oposição da França de De Gaulle, tal como o ambiente Kennedy foi a demonstração da possibilidade de um relacionamento mais próximo aos entre iguais, no chamado modelo ocidental.



Os direitos cívicos, em particular o combate ao segregacionismo dos negors, incentivado pelos Kennedy, veio afirmar essa oportunidade de direitos e deveres iguais, também sem dúvida porque leaderes como Martin Luther King conduziram esse combate não só com significativa coragem, mas sobretudo com esta dupla percepção – a dos direitos e deveres em paralelo.



Por outro lado, rebentadas que foram as amarras dos indivíduos às relações tradicionais – as classes sociais, os sindicatos tradicionais, os partidos de classe – estes alimentaram outras expectativas que Maio de 68 fizeram explodir e que passam sobretudo pela importância da individualidade na Comunidade/Sociedade.





2) Portugal, Angola e os Kennedy





John Kenneth Galbraith terá dito algures, mas enquanto embaixador dos EUA na Índia, um país de ponta da linha da Mudança internacional, em 1961, que " O Império Português sobreviveu não por mérito especial, mas através de uma combinação de razões intimamente ligadas a atrasos, tenacidade e mero acaso", o que, manifestamente só pode ser entendido como uma frase de circunstância e realmente pouco verdadeira, goste-se ou não do Império Português.



No entanto a frase acima mostra bem o caldo cultural e politico da governação de John F Kennedy e o seu posicionamento face a Salazar, à sua ditadura e às ex-colónias portuguesas.



Como se disse já, John F Kennedy não era um activista cívico/social, não estava tanto assim relacionado com esses movimentos americanos de então. No entanto, já em 1957, a 27 de Julho, fizera um discurso, no Senado americano, onde, atacou a política externa de Eisenhower, então Presidente dos EUA, de "neutralidade cautelosa" face aos nacionalismos nascentes da década de 50, em África.



Tal valeu-lhe o direito de encabeçar o SubComité sobre África, no âmbito do Comité de Relações com o Estrangeiro, do Senado, já em 1959 e, assim ter tido a oportunidade de conhecer, pessoalmente, Holden Roberto, tal como o leader trabalhista queniano Tom Mboya, entre outros dirigentes africanos.



Esta contradição africana entre Eisenhower e John F Kennedy passava ainda pela forte ligação do primeiro a Salazar e ao seu regime, que o levou a que, em 1955, Eisenhower integrasse Portugal num pacote de 15 países a serem aceites na ONU, num acordo com a URSS, e ainda em tivesse aceite, já em 1951, a que Portugal pudesse utilizar equipamento militar da NATO nas ex- colónias portuguesas, no contexto do Acordo que manteve a abertura da Base das Lajes aos EUA e à NATO, o que tinha a oposição de John F Kennedy.



Aliás John F Kennedy iniciou bem o seu mandato, instando particularmente Salazar, em consequência do assalto ao paquete Santa Maria, a 22 de Janeiro de 1961.



De facto, numa acção liderada por Henrique Galvão, este ex capitão do exército português mais 11 portugueses e 11 espanhóis, agregados no Directório Revolucionário Ibérico de Libertação, DRIL, toma este paquete português de luxo e John F Kennedy quando questionado perante o acto, lamentando embora o facto de haverem vidas americanas em risco assim como o facto da bandeira do Sta Maria ser de "um país com o qual os EUA tem relações de amizade", afirmou que não dera ordens para abordar o referido paquete assaltado.



O regime ditatorial viveu aliás tempos de enorme tensão com este assalto, já que corria rumores insistentes e credíveis de que o Sta Maria acostaria em Luanda para a tomar e aí ser declarada a Independência de Angola.



Na verdade, tanto uma parte importante dos republicanos em Luanda, como o prestigiado dr Eugénio Ferreira, como a Oposição mais radical lisboeta, manteve fortes expectativas com esta acção, tendo havido inclusive contactos entre os mesmos e a UPA, União dos Povos de Angola, de Monsenhor Alves das Neves, e esta com a UPA de Holden Roberto, (no sentido de angariar armamento), tendo tudo falhado porque Holden Roberto recusou esta aliança com a facção democrática portuguesa em nome da independência do seu movimento nacionalista.



Em Lisboa, entre Janeiro e Março de 1961, surge o Programa para a Democratização da República, um documento que relança a Oposição Republicana ao regime de Salazar, onde as questão colonial é muito cuidadosamente tratada diga-se, e inspirado por Jaime Cortesão e Mário de Azevedo Gomes, sendo que desta iniciativa resulta a prisão de Mário Soares, Acácio Gouveia e de Gustavo Soromenho um oposicionista bastante ligado a Angola.



Mas, Salazar assume como essencial sobretudo a posição da Administração Americana de John F Kennedy reagindo violentamente à mesma, com manifestações de rua de "desagravo" e uma agressiva diplomacia centrada na sua arma principal –a Base das Lajes.



Esta será a sua arma de arremesso dominante desde então – a recusa em negociar a utilização desta base militar por parte da NATO e das Forças Americanas, naquilo que hoje se chamaria de aliança objectiva com a URSS.



Mas ainda não acabara o regime salazarista de respirar fundo, perante o caso Sta Maria e logo outro caso nasce – o 4 de Fevereiro de 1961 – que viria a fazer ressaltar o conflito EUA/ Portugal.



Depois dos bombardeamentos, a napalm, da Baixa do Kassange, como resposta, (civilizada como se vê…), a uma greve de camponeses produtores de algodão, perante a exploração que sentiam na pele e na vivência das suas famílias, a UPA de Luanda decidiu antecipar-se ao ataque, previsto para Março, ao poder português e ataca uma prisão de Luanda, onde estavam largas dezenas de presos políticos angolanos.



Rechaçado o ataque pelas forças coloniais portuguesas, a resposta que se segue, em Luanda, foi violenta, com ataques dos civis portugueses, apoiados pelas forças policiais, aos musseques de Luanda, gerando largo nº de mortos e de presos.



De imediato, nas Nações Unidas, George Padmore, embaixador da Libéria, e que passou a ser particularmente citado e ridicularizado na comunicação social oficial do regime salazarista, solicitou uma reunião urgente do Conselho de Segurança, onde pretendia que se lidasse com a questão Angolana com forte veemência.



Esta posição foi de imediato apoiada por Adlai Stevenson, embaixador americano nas Nações Unidas, com o consentimento formal de John F Kennedy. Também autorizado por John F Kennedy, o embaixador americano em Portugal, Elbrick, informava formalmente Lisboa que os EUA não apoiariam o regime salazarista nos debates do Conselho de Segurança sobre Angola.



E para tornar a questão ainda mais preocupante, para Salazar, a administração americana aconselhava Portugal a iniciar "acções graduais…para a autodeterminação com um calendário realista".



Assim, a 15 de Março de 1961, Adlai Stevenson votou a favor da Resolução sobre Angola, apoiada pela Libéria, pelo Ceilão e pela República Árabe Unida, medida que foi vista pelo NYTimes como uma nova Declaração de Independência e que foi reforçada a 20 de Abril com uma votação na Assembleia Geral das Nações Unidas onde se pedia a Portugal para caminhar no sentido da autodeterminação das suas colónias de então.



Se a primeira Resolução foi, no Conselho de Segurança, derrotada, já a Resolução apresentada na Assembleia Geral da ONU foi aprovada, relevando o que se foi acentuando progressivamente – a clivagem entre os poderosos do Mundo e os países do Terceiro Mundo, mas num processo onde em crescendo se foi assistindo ao isolamento de Portugal, no plano internacional.





3) Os Açores como Arma de Pressão sobre os EUA e a NATO



No dia em que a AG da ONU votava a favor da autodeterminação de Angola, a UPA de Holden Roberto iniciava a sua Luta Armada no Norte de Angola, colocando esta colónia em autêntico estado de caos social e militar.



Tal caos gerou repercussões em Lisboa, implicando movimentações de Botelho Moniz, então ministro da Defesa, no sentido de derrubar Salazar, tentativa que veio a concretizar-se a 12 de Abril de 1961 e que falhou devido a traições dos seus pares militares. De facto, Botelho Moniz sentira-se incentivado para este golpe antisalazarista tanto na sequência das posições das altas patentes (17 em 18) no Conselho Superior Militar, como na sequência de diálogos que tinha tido com o embaixador Elbrick.



De facto, este último apelara junto de Botelho Moniz para a necessidade de reformas políticas em Portugal, que seria bem vistas, se acontecessem, pela Administração Americana, assim como para a necessidade da aceitação do principio da autodeterminação para as suas então colónias, a exemplo da Commonwealth. Por outro lado, numa reunião do conselho Superior Militar chegara a sair uma carta a Salazar assumida por 17 dos 18 oficiais generais presentes, onde se assumia que a situação em Angola e nas restantes colónias não teriam solução militar pelo que se pedia a Salazar medidas sérias que passassem por reformas políticas e pela aceitação de medidas pacificadoras para as mesmas colónias, onde o principio da autodeterminação estava presente.



Salazar, apoiado pelo então Presidente da República, Américo Tomaz e por Kaulza de Arriaga e Santos Costa, militares da chamada linha ultra, domina pois facilmente este golpe palaciano e empurra com as "reformas", já não políticas mas de pessoas na sua governação, Portugal, para 14 anos de uma guerra, aberta, em 3 Frentes e presencial nas restantes colónias, que terminará com o 25 de Abril de 1974, num estado de cansaço total das forças militares portuguesas, suficiente para pôr um triste fim ao Império Português e à Ditadura de Salazar e Caetano.



Firme mais uma vez no Poder Salazar centra a sua estratégia, política e diplomática, essencialmente em dois elementos – a) O combate ao comunismo em ascensão exige a interdependência de todos os países do Ocidente na manutenção das então colónias portuguesas e, b) A Base das Lages só poderia ser espaço de manobra, americano e da NATO, por troca do apoio de ambos à política colonial portuguesa.



Pensara inicialmente o regime salazarista que a Nota Diplomática assinada pela administração americana de então, 1943, peça, para ele, central do Acordo para a utilização por parte dos Aliados, da Base das Lages e onde os EUA se comprometiam a respeitar "a soberania portuguesa em todas as colónias portuguesas" seria suficiente para ligar de vez este país aos interesses coloniais portugueses?



Não se apercebera o regime das mudanças possíveis com decorrer dos resultados da II Guerra Mundial? E com as possíveis alterações das posições americanas perante naturais mudanças de Administração em um regime democrático?



É duvidoso que tenha sido assim. É mais natural que o regime salazarista se tenha mantido aprisionado a um discurso feito a partir do pressuposto de que Portugal seria sempre um Império e não somente uma nação com colónias, que poderiam ser libertadas/erradicadas sem consequências sobre a nação de base.



Na verdade, convém recordar o general Norton de Matos, ou o dr Cunha leal, republicanos e anti salazaristas, para entender que a noção de Império e da importância da sua sustentação ia para além do regime salazarista, pois tanto o primeiro, quanto o segundo, eram tão imperiais quanto Salazar.



Na verdade, Norton de Matos defendeu, por escrito inclusive, que a capital de Portugal deveria passar a sediar-se em Angola, segundo alguns em e Cunha Leal, (e não poucos republicanos…) defenderam a necessidade de se defender Angola do terrorismo.



E, na verdade, a questão da Base das Lages sobretudo, mas também a problemática do combate ao comunismo em ascensão, foram as pedras de toque para travar a facção "africanista" que acompanhava John F Kennedy e que de certa forma ainda continuou com L B Jhonson e que assumia explicitamente a defesa da autodeterminação das então colónias portuguesas, para bem do próprio Ocidente.



Assim, apesar de todo o empenho de Adlai Stevenson, ao tempo de John F Kennnedy, que, nas Nações Unidas, se esforçou por relacionar a ploítica externa americana à defesa das Independências em África e ao combate ao apartheid, a questão da base das Lages foi, crescentemente, atabalhoando a política americana face ás colónias portuguesas e a Portugal



Limitados portanto pela Base das Lages, as administrações tanto de John F kennedy quanto a de LB Jonhson acabaram por se encerrar em divisões internas, com um grupo dito "europeu" e "pragmático" a relevar a importância da Base das Lages e a assumir um peso crescente nas decisões americanas.



Ainda assim e neste confronto, quer interno quer com o regime salazarista, esta Base acabou por passar, a partir de 31.12.1961, a uma gestão e ocupação de dia a dia, sendo sempre a arma de arremesso portuguesa e o entrave a outras opções nos EUA.



É neste período que surgem vários planos, sempre muito cautelosamente apresentados a Salazar e à sua equipa, Franco Nogueira à frente, no sentido do incentivo à autodeterminação de Angola e das restantes colónias, com prazos para a autodeterminação que iam a 8 anos e com apoios financeiros prometidos a Portugal na ordem dos 500 milhões de euros, (relevemos que em 1970 Portugal gastaria 400 milhões de dólares, 45% do orçamento anual, na Defesa e na Segurança…).









4) As mortes dos Kennedy e a radicalização do Mundo, ( e em Portugal…)





A década de 60 surgiu e aparentou ser sobretudo europeia. Foi na Europa que se assistiu a uma significativa estabilização social e a um explicito crescimento económico, Foi na Europa que se viveu um processo, pacifico de integração económica alargada, com a Comunidade Económica Europeia e a EFTA, foi na Europa que ganharam peso novas filosofias, como o existencialismo e as múltiplas correntes marxistas e neokeynesianas, ou os múltiplos movimentos sindicais, e, ainda, foi na Europa que surgiram e se comentaram correntes, literárias, ou de expressão artística cinematográfica, como o neorealismo e foi na Europa que surgiram os Beatles, ou os Rolling Stones.



África fervilhava com os nacionalismos nascentes, com crescente influência na arena internacional, mas surgia com elementos de clivagem interna complexos e que a limitaram, como as roturas com as expressões económicas do colonialismo, erradicando partes da sua população ligadas ao mesmo colonialismo.



A Ásia fervilhava com Mao Tse Tung e Chu En Lai, ou Ho Chi Mhin, mas debatia-se ainda com a dificuldade de integração do seu enorme excedente populacional, na economia e na vivência social e política.



A América fervilhava como já vimos com o impacto dos Kennedy e dos movimentos cívicos, nos EUA, mas debatia-se, por todo o Continente, com a dificuldade da integração da diferença no seu próprio seio, racial/étnica, de distribuição da Riqueza, com roturas que iam desde a linguística, franco/inglês no Canadá, rácio/étnico, AfroNegro/Caucasiano nos EUA, ou no Brasil, Índio/Caucasiano também no Brasil, mas alargado a quase todo o Sul do Continente Americano e Muito Ricos/Muito Pobres em quase todo o Continente.



Assim, o peso europeu, depois de uma década de 50 absolutamente medíocre, e do desastre que fora a década de 40, a Europa, devido a personagens como De Gaulle, Jean Monnet e Wilson, e apesar de Franco e Salazar, parecia renascer a toda a linha.



Em pouco mais de meia dúzia de anos a ideia, reducionista, alimentada à Direita e entre os Comunistas, dos compagnons de route, esvai-se e, até dado o conflito sinosoviético nascido na mesma década de 60, nascem novos pólos e novas opções à Esquerda. De tal forma que, mesmo os impactos de elementos potencialmente bloqueadores, como o IRA na Irlanda, não impedem o nascimento de novas famílias políticas e sociais geradoras de dinâmicas económicas e sociais fundamentais para o reforça da imagem internacional da Europa.



Pelo contrário, as mortes de John F Kennedy, e depois de Martin Luther King e Robert Kennedy, ao potenciarem a radicalização dos movimentos cívicos americanos, sem lideranças fortes, dando relevo a movimentos como os Panteras Negras, ou as ditaduras latino americanas, neutralizam as dinâmicas sociais americanas.



Já em Portugal o conflito sinosoviético e a guerra colonial originam uma das primeiras importantes roturas sociopolíticas prenunciadoras do 25 de Abril – o aparecimento do CMLP, Comité Marxista Leninista Português e da FAP, Frente de Acção Popular, de Francisco Rodrigues Martins, Polido Valente e Rui d'Epinay – que tiveram forte impacto nos meios intelectuais portugueses, apesar, ou se calhar por causa da, enorme vaga de prisões havida em consequência do nascimento desta força política, com o intuito de travar esta onda social de contestação, na classe média portuguesa.



É neste ambiente, de uma enorme fervilhar de opções, que nasce o MPLA, em 1960, mais na Europa que em Tunes, (onde surgiu a meio de uma Conferência Africana, e por pressão externa aos Angolanos), ou que em Angola, como alternativa, comunista/frentista, a UPA de Holden Roberto.





5) Entre o Maio 68 e a Guerra Colonial





LB Johnson sentir-se-á um homem abandonado pelos seus e acabará por recusar uma segunda candidatura presidencial, abrindo, aparentemente as portas a uma vitória, forte, de Robert Kennedy.



Estamos em 1968, Paris parece ser ainda Gaulista, Moscovo era já não de Nikita Krushchov, mas de Leonid Brejnev, Londres continua a ser de Harold Wilson, Lisboa é sem dúvida Salazarista, Madrid Franquista, mas o Mundo está em marcha apesar das aparências.



Assim, a 5 Janeiro de 1968, Alexander Dubcek é nomeado para líder do partido único checoslovaco e a 30 de Março Svoboda é nomeado presidente da república, Svoboda, e destas nomeações surge a Primavera de Praga, uma primeira tentativa de democratização no bloco comunista de Leste. Com estas mudanças é suprimida a censura e são reabilitados as vítimas do estalinismo neste país, a 30 de Junho, e a Europa rejubila com estas mudanças a Leste.



Mas a 21 de Agosto tudo está terminado. As forças militares do Pacto de Varsóvia, por ordem de Brejnev, invadem a Checoslováquia e tudo regressa, a leste, à normalidade, ficando, no entanto, a germinar, a semente da Liberdade.



É evidente que, este movimento de mudança teve a explicita rejeição do PCP e de Álvaro Cunhal, o que originará a saída do PCP de um nº não pequeno de intelectuais.



Em Março, 22, entretanto, a Faculdade de Nanterre inicia mas movimentações que darão origem ao Maio de 68, exigindo a Liberdade de Discussão Política nas Univesdidades, e nelas surge Daniel Cohn-Bendit, Dany Le Rouge, e leader do Movimento 22 de Março.



Acusado de anarquista pequeno burgês pelo Pravda, atacado pelo Le Fígaro, ele assume a contestação total do sistema burguês, nos planos políticos, sociais, culturais e vivenciais e torna-se a figura incontornável do Maio 68.



E enquanto que Pompidou, primeiro ministro, tenta o diálogo, De Gaulle comete o erro de preferir o confronto, desde as tentativas de prisão dos leaderes do movimento estudantil, à repressão nas ruas: Só que, nas ruas, estão também, já, os operários e os estudantes aproximam-se deste movimento social tradicional, contestando também o poder autocrático nas fábricas e na actividade económica em geral.

O mundo está de facto a mudar, e a 13 de Maio de 1968, se em Lisboa o poder se preocupa com o cinquentenário de Fátima, e a enviar o general Spínola para a Guiné-Bissau, para tentar travar o PAIGC, em Teerão a Conferência Internacional dos Direitos do Homem, das Nações Unidas, assume que os direitos do Homem e as liberdades fundamentais são indivisíveis, sendo assim impossível gozar completamente de direitos civis e políticos sem gozar de direitos económicos, sociais e culturais, abrindo novos campos de clivagem nos meios políticos mas também de reforço da posições no individuo nas sociedades.

No EUA, a 13 de Maio de 1968 também, o New York Times inicia a publicação de uma série de reportagens, baseadas num estudo de 7 mil páginas e 2,5 milhões de palavras, do Pentágono, ordenado pelo secretário da Defesa de LB Johnson, Robert McNamara, verdadeiramente demolidor quanto à presença americana no Vietnam, os famosos "Documentos do Pentágono", os The Pentagon Papers, dando razão a toda a contestação, generalizada em todo o mundo e não só nos EUA, e uma pedra de toque da radicalização da juventude e também do Maio 68, a esta presença.

Caracterizando um ambiente internacional recordemos que já em Fevereiro de 1968, a Universidade de Roma se revoltara e tinha sido violentamente assaltada pelas forças policiais, que também em Março os estudantes polacos, (mas também os operários), se tinham revoltado com a politica antisemita do seu governo, sendo os judeus, e os dirigentes estudantis em geral, expulsos do partido operário unificado polaco, no poder, e também os estudantes japoneses em Tóquio tinham iniciado uma contestação que durará até 1970.

O chamado mundo ocidental borbulhava de desejo de mudança por todo o lado e os dirigentes estudantis, transformados em portavozes da mesma, passeavam-se, pela Europa e não só, a motivarem a contestação que era divulgada por toda a comunicação social mundial.

E se tudo parecia ser vivido em festa, e em solidariedade, Maria Lamas, por exemplo, com mais de 70 anos de idade, em Paris, distribuía água aos estudantes contestatários que combatiam nas ruas a policia, a morte ia aparecendo aqui e ali. Para além dos inúmeros feridos e presos, um pouco por toda a parte, como por exemplo ao momento da Convenção do Partido Democrático em Chicago entre 22 e 30 de Agosto de 1968, três estudantes americanos morrem na Carolina do Sul em manifestações pelos direitos cívicos, Dutschke, dirigente estudantil alemão é gravemente ferido em Berlim a 11 de Abril, e a violência é quase absurda em Dublin, a 5 de Outubro, numa Marcha pelos Direitos Cívicos na Irlanda do Norte.

E no resto do Mundo a mudança acontecia também, umas vezes em bom caminhos outras não. No Iraque o partido Baas, onde ascendia Saddam Hussein toma o poder e nacionaliza a indústria petrolífera, o general Franco dá a Independência, num regime totalitário, à Guiné Equaterial, o Reino da Suazilândia assume a Independência, assim como as Maurícias, e, no Mali, cai o marxista leninista Modibo Keita.

Esta onda avassaladora toma conta das ruas, dos cafés, dos bairros estudantis, das Universidades e liceus da Europa e extravasa, ou acompanha as fábricas e as suas movimentações mais tradicionais e reivindicativas, iniciando uma ideia de contestação social interclassista e não estritamente economicista e de poder, um pouco por todo o lado.

Paris, Berlim, Londres, Roma, Amsterdam, Tóquio, Nova Iorque, as grandes cidades e capitais do mundo são apanhadas por esta forte contestação juvenil. Mas também em Lisboa e em Luanda o Maio de 68 borbulha, (em Luanda uma passeata folclórica, de fim de ano lectivo, vive momentos de rejeição da guerra colonial, ouvindo-se pela primeira vez nas ruas gritos de Não à Guerra…).

Velhos hábitos, vivências, formas de vestir, de comunicar, são, por toda a parte postos em causa e se De Gaulle perde a França, também a Esquerda francesa se vê forçada a mudar e a relação de forças na esquerda se modifica com o crescendo de influência das socialistas e a perca de poder dos comunistas, ou com o afastamento dos comunistas, como em Itália, do seu centro clássico – Moscovo.

Mas Lisboa ainda se entendia uma capital de Império, totalitária, gerindo o seu orgulho isolacionista com criticas cerradas à perca de valores no Ocidente e saboreando o verdadeiro prato de lentilhas que era Base das Lajes como se de prato de lagosta se tratasse.



Na verdade, Portugal fora aceite na EFTA, recebera dos EUA, entre 1963 e 1968, com LB Johnson, perto de 33 milhões de dólares em auxilio militar e ainda perto de 55 milhões de dólares em auxílios económicos vários, mantendo ainda assim a ameaça de, com a França, abandonar a NATO…

De repente, a 6 de Setembro de 1968, Salazar viu o seu sofá escaqueirar-se, (prova de que a avareza não é uma virtude cristã, bem pelo contrário…) e, em resultado de uma hemorragia cerebral e não de um golpe de estado, abandona a cadeira do poder, em mais uma originalidade portuguesa.

E será só a 22 de Setembro que Salazar será substituído por Marcelo Caetano, estando pois o regime sem leader, (o almirante Américo Tomás nunca o fora…), o tempo suficiente para que, num outro qualquer país, se sucedessem golpes palacianos, deixando no ar a ideia de que no Poder de então já poucos acreditavam no mesmo a pontos de apostarem nele com veemência…

De qualquer forma a aparência que se vivia dava, em 1968, a vantagem ao regime salazarista, ainda que já sem ele – em Moçambique Eduardo Mondlane era fortemente contestando pelos africanos radicais e mesmo dentro da FRELIMO, por ser alegadamente um agente da CIA, mantendo-se isolado a pontos de ser assassinado em princípios de 1969, 3 de Fevereiro, por ditos dissidentes da FRELIMO, mas, segundo outros, por uma conjugação de interesses que juntava a PIDE, mas também o KGB, pouco interessado na liderança de um pró americano, aparentemente já então infiltrado nos serviços secretos militares portugueses, que teriam aliciado Betty King, secretaria de Janet Mondlane, esposa de Mondlane ; em Angola, tirando as actividades de Daniel Chipenda no MPLA e de Jonas Savimbi, já com a UNITA, ambos a Leste de Angola, nada mais acontecia em todo o seu imenso território; já a Guiné era a única preocupação militar pois o território estava, a perto de 50%, ocupado pelo PAIGC de Amílcar Cabral e daí o envio do general Spínola para esta Região Militar.

E só depois de 68 o Maio deste ano entrou em Portugal, fazendo explodir o Movimento Estudantil e bem mais tarde as Forças Armadas Portuguesas…alguns dizem agora que nada tem a ver com nada e que o Maio de 68 em nada influenciou este país à beira mar plantado.

Ou a memoria é curta, ou não se "lembram" dos Plenários estudantis da Cidade Universitária, do IST, da agitação estudantil em Económicas, ou nos Liceus ….





Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 09:11
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