Terça-feira, 20 de Maio de 2008

Um texto de João Belchior Nunes sobre o caso Geldorf

Não li nem ouvi a conferência que o Senhor Geldorf proferiu em Lisboa. Estava no Médio Oriente e quando cheguei a Lisboa, já só apanhei os cacos da conferência. Não sei quanto custou a dita conferência e ignoro quanto é que o Senhor Geldorf cobrou, a título de honorários, pela sua apresentação. Se cobrou caro, começo por pôr em dúvida a bondade da sua intervenção a não ser que me demonstrem que das suas receitas, uma parte significativa vai para doações a populações carenciadas do planeta..



Sei que o Senhor Geldorf é um estudioso e profundo conhecedor dos problemas de África e não me espantou que tivesse utilizado uma linguagem agressiva em relação ao poder e classes dominantes nos mais diversos países pobres do Mundo. Se o fez em relação a Angola, fê-lo certamente com conhecimento de causa e porque sabe que a força das palavras é uma forma de chamar à atenção para os problemas. Contudo, esse comportamento das classes dominantes, nos países pobres, só é mais notório porque a incorrecta distribuição da riqueza, deixa uma parte significativa da população na miséria. Isto é, por outras palavras a incorrecta distribuição da riqueza também acontece nas sociedades dos países mais ou menos ricos e também entre estes e os países pobres.



Tudo isto é uma questão de patamar onde cada um se encontra e de educação. A qualidade das classes dominantes e dos políticos que acabam por, em larga maioria, mais tarde ou mais cedo, pensarem e agirem como parte da classe dominante, depende da qualidade da educação existente no país e que se reflecte na sociedade nacional como um todo.



Não sou ingénuo e como tal reconheço que não existem sociedades perfeitas. Contudo vejo que os países nórdicos conseguiram criar sociedades com um nível superior de qualidade. Considerar a sociedade americana como um exemplo a copiar é um erro. Na Europa temos melhor.



Para explicar melhor o meu raciocínio, vou repetir algo que já disse e escrevi, no passado, quando alguém critica o que se passa em Angola ou na Nigéria, países africanos ricos em petróleo: - Façamos um pouco de esforço e imaginemos o que aconteceria na sociedade portuguesa actual se de um momento para o outro Portugal passasse a produzir, diariamente, dois milhões de barris de petróleo. Não acredito que acontecesse algo semelhante ao que acontece em Angola ou na Nigéria mas também estou certo que ficaríamos muito aquém do que acontece na Noruega.



Conheço muito bem Angola, país onde me desloquei mais de cem vezes ao longo de vinte e três anos e onde conheci muita gente e tenho alguns amigos, alguns deles fazem parte dessa classe dominante que censuro e que gostaria que pudesse mudar rapidamente. Não obstante, as mentalidades que definem o comportamento gerado pelas estruturas sociais do subdesenvolvimento só muito lentamente se modificarão, independentemente de sabermos que hoje tudo se passa muito rapidamente.



Em patamares de desenvolvimento diferentes e com outros envolvimentos e roupagens, acabamos por encontrar, no mundo desenvolvido, comportamentos não muito diferentes dos de África. A diferença mais notória é que, na África, esses comportamentos geram miséria e fome e nos países desenvolvidos do hemisfério norte, gera má distribuição da riqueza, pobreza e exclusão, algo menos chocante do que a miséria, a fome e a doença que predomina, principalmente, em muitos países da África e da Ásia.



Para acabar, lembro-me, a título de exemplo, que há dias ao passar por uma pobre aldeia da Síria, vi dois autênticos palácios que me foram identificados como propriedade da família Menem, ex Presidente da Argentina, de ascendência síria.”





João Belchior Nunes
publicado por JoffreJustino às 12:36
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