Terça-feira, 27 de Maio de 2008

O Maio 68 e John Locke

"É por isso que se o rei demonstrar

ódio não só contra certas pessoas

em particular, mas contra o corpo

inteiro da comunidade política da

qual ele é chefe, e se maltratar de

forma intolerável e cruelmente

tiranizar o conjunto dos seus súbditos

ou um número considerável deles,

nesse caso o povo tem o direito de

resistir e de se defender da injúria;

mas sujeito a esta condição, que se

limitará a defender-se, mas não atacará

o seu príncipe"

(in John Locke, Da Dissolução do Governo,

Segundo Tratado, Dois Tratados do

Governo Civil, pág. 385, Ed. 70,

Outubro 2006)







Nota de Abertura



Temos visto surgirem, por aí, (como alguém já o disse), textos vários, como o de JC Espada, analisando negativamente o impacto do Maio de 68, baseando-se em textos filosóficos de clássicos do Liberalismo político.



Por isso achei divertido ir a John Locke, um clássico do Liberalismo, 1632/1704 e, da sua obra, começar por retirar a citação acima, que o autor imputa a um tal Barclay, "esse grande campeão do poder dos reis e do seu carácter sagrado", (pág. 383), para iniciar esta minha segunda volta através dos Mitos do Maio 68.



Note-se que John Locke terá sido, enquanto Liberal que foi, um revolucionário sui generis já que sendo herdeiro de uma tradição republicana e cromweliana, conviveu bem com o rei Carlos II até se revelar como evidente a ascensão do "assumidamente católico duque de Iorque ao trono", (pág. IX, Introdução ao livro citado), altura em que, tendo visto o seu patrono ser afastado do cargo que tinha, Lord Chancellor, se viu forçado a exilar-se para a Holanda e lá ter assumido um empenhamento político activo.



Sendo revolucionário, porque era Liberal, foi, sobretudo, segundo o autor da Introdução deste livro, alguém que percebeu que a Revolução de 1688, (onde ele participou activamente, enquanto intelectual claro), era "um claro triunfo da liberdade sobre a tirania, e, portanto, claramente benéfica,…" ainda que tenha representado também, "uma "oportunidade" perdida", ( citações de pág. XI).



Na verdade, John Locke foi um combatente intelectual e por isso se opôs a teorias vivenciadas e dominantes na sua época, com a sua visão o Liberalismo, que, nesse combate se foi reforçando. Como é referido na já citada Introdução, "Locke permite-nos perceber que a teoria política liberal se estruturou na consciência de que tinha rivais, de que havia alternativas muito sérias à sua proposta de organização da vida política e moral", (in Introdução à obra citada, pág. XIII).



Enfim, os Liberais combateram, e foram, contra os monárquicos absolutistas e autoritários, revolucionários sendo que, contra eles, reflectiram sobre uma forma de organizar a vida, as pessoas, o mundo, alternativa.









O Maio de 68



Cohen Bendit farta-se de acentuar, em múltiplas declarações que tem vindo a fazer, que para a geração em que ele foi um dos leaderes, para o Maio de 68 enfim, a revolução feita por jovens estudantes, não tinha como objectivo a tomada do Poder. O próprio Krivine, trotskista "nascido" com o Maio de 68 e ainda hoje leader trotskista francês, releva essa realidade relatando as manifestações que passavam ao lado da Assembleia Nacional Francesa, protegida por um ou dois polícias, sem se preocuparem em a "tomar" como sucedeu em Portugal em 1975….(não sei bem se JC Espada esteve nessa "tomada da Bastilha", eu não, estava do outro lado da barricada, mas, na época suponho que JC Espada terá defendido essa "tomada da Bastilha", enquanto acto revolucionariamente essencial…).



O Maio de 68 foi pois uma revolução onde os revolucionários se preocuparam sobretudo com a revolução das mentalidades. Assim, os estudantes ocuparam os espaços de saber, fizeram da rua espaços de debate, mais que de barricadas, associaram-se aos operários em nome da Igualdade e da Justiça, levantaram nos espaços de debate temas então tabu, como o sexo, a igualdade de género e o direito dos povos à autodeterminação.



E quando De Gaulle defendeu o Poder, com um referendo, (perdidas as tentativas expressamente repressivas), os dirigentes desta revolução específica – foram para a praia!



Por isso entendi que a citação mais adequada a fazer, para introduzir este texto, era a citação que Locke fez de um absolutista, a que acima refiro, pois nela fica patente a evidente necessidade da relação, em qualquer regime, entre o poder e o povo, assim como o direito de revolta por parte deste ultimo.



Trotskistas, maoístas, internacional situacionistas, anarquistas, até socialistas e comunistas pró soviéticos, todos procuraram tirar vantagem desta Revolução, uns com boas e outros com más intenções, em todos os campos ideológicos acima referidos.



Mas, na verdade, o que os estudantes e os seus leaderes fizeram foi seguir o conselho de Barclay perante um governo que os desprezava e amesquinhava – revoltaram-se.



Atacaram o príncipe? Sim, claro, na rua, e nas áreas que sentiam a opressão. Mataram o príncipe? Não, deixaram-no a gemer nos corredores do poder e a ter que se adaptar a este novo mundo que entrava pelas portas a dentro das Famílias, das Escolas, das Empresas, dos Sindicatos e dos Partidos Políticos e que, inexoravelmente varria as antigas concepções, formalmente obrigatórias, para os caixotes dos lixo de cada uma das Famílias que nas suas casas, espaços organizacionais, se confrontavam com o seu Maio 68.



Enfim, sinto que posso garantir que John Locke estaria ao lado de Cohen Bendit naquele ano de 68. Excepto no que se refere à passagem ao lado do poder…



A Insurreição



De qualquer forma o Maio de 68 foi uma das componentes de um movimento à escala internacional, de mudança, radical muitas vezes, perdedora no momento a maior parte das vezes, e, também na maior parte das suas componentes, preocupada com o Poder.



Talvez por isso, por não se terem preocupado com o poder, que o Maio 68 e o Movimento Hippie sejam duas das componentes desse movimento que se assumiram ganhadoras, enquanto que as restantes, não tenham podido dizer o mesmo, como sucedeu com o vivido na ocupação checa pelos tanques soviéticos, e vietnamita pelos marines americanos.



Nestes dois casos John Locke não se coíbe de assumir que, perante uma ocupação estrangeira a exigência dissolução do governo é sem dúvida natural.



Mas esqueçamos estes casos extremos e vejamos outros mais complexos. Enfim quando, "…o príncipe inibe a legislatura de se reunir no devido tempo ou de agir livremente na prossecução dos fins em vista dos quais foi constituída", ou ainda quando "…o detentor do poder executivo supremo negligencia e abandona essa tarefa ao ponto da execução das leis existentes se tornar impossível", (obra citada pág. 373 e pág. 375), Jonh Locke entende inevitável ou certa a ideia da dissolução do governo.



Ora quando não se dá a renovação das elites no poder a tendência é a sustentação de uma situação de crescente impasse entre a forma como o poder vê a sociedade e o povo e a forma com esta e este evolui no seu dia a dia.



Foi o que sucedeu no Maio de 68, em França e um pouco por toda a parte. Os poderes patriarcais múltiplos de então inibiam, com a força da sua influencia, da sua autoridade, da repressão, da corrupção, a actividade das legislaturas em favor do povo.



E uma parte deste revoltou-se.



Ora, como diz John Locke, "Neste como noutros casos semelhantes em que o governo é dissolvido, o povo tem a liberdade de cuidar de si mesmo instaurando um novo poder legislativo, diferente do anterior no que diz respeito aos seus titulares, à forma ou ambas as coisas em simultâneo, segundo o que lhe parecer melhor para garantir a sua segurança e o seu bem.", (pág. 375).



E assim foi o Maio de 68.



Poder-se-ia dizer mais, mas por ora chega….





Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 09:24
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