Terça-feira, 2 de Setembro de 2008

E Quem Raio É Que É Dude?

Generaliza-se, definitivamente, a ideia do fim do mundo Unipolar herdado da Queda do Muro de Berlim. A invasão russa sobre a Geórgia deixa assim de ser vista como um acto de um tresloucado, (ainda que quando vejo Putin me sinta sempre inquieto…), para passar a ser estudada como um acto inserido numa estratégia e num plano.

Sinto-me, pois, melhor, porque acompanhado, (e em geral bem), o que é tipicamente humano, diga-se.

(Mas, caramba, gastar 14% das páginas de uma revista, que eu compro, o que implica um esforço meu, a escrever sobre Dude…quem raio é que pode ter tal ideia, mesmo quando não tem mais nada para apresentar?).

Quando li o texto de Joschka Fischer, um dos (ou ex) leaderes dos Verdes Alemães e membro do Governo maioritariamente socialdemocrata alemão, saído no Publico de Domingo, “É Preciso Realismo nas Relações com a Rússia”), ou o texto do ex-neocon, Francis Fukuyama, “Democracia e Poder, Os Rufias de Todo o Mundo Estão a Abusar da Sua Força”, saído no mesmo jornal, achei que devia partilhar convosco mais uma reflexão…

Abusando, enfim…

Mas tratam-se, com estes dois autores, de duas visões para este Novo Mundo onde já nos encontramos e isso merece reflexão.

Fukuyama tem-nos trazido, recentemente, algumas das mais interessantes reflexões do novo pensamento de Direita, em política e em economia, mostrando o quanto a Direita se pode Reformar, sendo-a. Fischer há-de ser sempre, ou por muito tempo pelo menos, um cidadão que tem o meu respeito, pela forma como geriu um, difícil, relacionamento na Esquerda, com honra.

Fischer entende defender um principio essencial – a Europa “não tolera o seu (da Rússia), regresso a comportamentos de potencia imperial” – e ainda deixar um essencial aviso – “é esta, (da União Europeia), inacção que está na origem da fraqueza europeia e da aparente força russa”.

Tratam-se de dois pensamento fundamentais para este novo Futuro onde já estamos. Alguns, muitos, (dos) políticos europeus estão enredados em teias de interesses que os travam na visão do Futuro e Fischer deixa-nos uma reflexão e um aviso a ter em conta.

Concordo com Fischer quando diz que não estamos em tempo de guerra fria, assim como quando acentua os dois tabuleiros da Rússia, a política energética e o alargamento das suas fronteiras, (politicas não de facto), para autodefesa.

Mas, aos 5 pontos que apresenta – a) aproximação à Turquia, b) travar o dividir para reinar da Rússia, e estabelecer uma politica europeia energética, c) fortalecer a capacidade de defesa da União, d) envolver a Ucrânia na UE, dar maior liberdade de circulação a todos os cidadãos do países vizinhos da União – acrescentaria um outro ponto, e) endurecer a politica da União em defesa dos Direitos Humanos e da Democracia no Mundo, isto é de uma real politica externa europeia, nas suas componentes económicas, sociais, politicas e de Valores.


Dou um exemplo com alguém que detesto, mas que teve um bom, mas incompleto, gesto. Berlusconi, pagou a divida que a Itália tinha com a Líbia, pelos danos do passado colonial com um acordo no valor de cinco mil milhões de dólares, o que foi bom, mas esqueceu-se de referir a necessidade de Democracia, de Direitos Humanos e de liberdade religiosa, no país de Muammar Kadhafi, (cada vez mais me espanto com a capacidade deste leader líbio…), o que só pode corresponder a Berlusconi.

Já Fukuyama, que recorda a necessidade de distinguir os autocratas fortes, como Putin, dos autocratas débeis, como Mugabe, distinção sem dúvida útil, assim como recorda a vitória ideológica da Democracia e das ideias liberais sobre o comunismo, tem uma frase lapidar, “ Se os autocratas de hoje aceitam inclinar-se perante a democracia, aceitam rastejar em frente do capitalismo”, acentuando a submissão dos leaderes russos e chineses ao “capitalismo”, um mote central deste seu texto.

Ora este conceito, o capitalismo, é, cada vez mais o mostra ser, um conceito limitado, inserido em um outro, esse que nos une, enquanto o anterior nos divide, o de economia de mercado.

Mas, antes de desenvolvermos a ideia acima, anotemos uma curiosidade – Fukuyama, no seu texto, refere 16 vezes a China, (com esta palavra ou equivalente), 11 vezes a Rússia, (com esta palavra ou equivalente), 6 vezes os EUA, (com esta palavra ou equivalente) e, veja-se, uma, (1), única vez a União Europeia, e sob a denominação Europa…

(Que raio, em vez do Dude que ninguém conhece, porque não ocupar uma das 8 páginas sobre Dude relatando esta discrepância no texto de Fukuyama?)

Sem abusar, penso que a utilização das palavras, ou dos conceitos, denota a preocupação central do autor sobre as ideias que apresenta. E, no caso de Fukuyama, a União Europeia ainda não é um conceito autónomo, uma preocupação enfim, dos EUA, pelo menos dele e Fukuyama é mesmo um opinion maker.

Não é que tal me preocupe por demais – a ideia de “Ocidente” nunca me afectou particularmente, e o assumir-me como angolano, nunca me pôs em oposição ao assumir-me como ocidental….pelo contrário. Desta forma o que me preocupa não é a não preocupação de Fukuyama sobre a União Europeia, no contexto deste texto, é o facto de sobre ela não sentir necessidade de reflectir.

E, voltando a Fischer, a importância que ele dá à politica de defesa da União Europeia é um bom colocar de um dedo na ferida…ainda que tenha esquecido outro membro tão importante quanto o da Defesa – o da política externa – razão certamente do desinteresse de Fukuyama.

Mas regressemos a este último. Para ele, o capitalismo deixou de estar em jogo, pois os adversários da Democracia já se curvaram ao mesmo.

Enfim, para Fukuyama, cumpriu-se parte importante da História…

Trata-se somente de reforçar, então a Democracia no Mundo, sendo que, no campo da economia, é somente importante saber se “…os lucros da produtividade económica vão acompanhar a procura global de produtos básicos como combustíveis, comida e água”, ou não, pois se não acompanharem cairemos na situação maltusiana de o ganho de um país ser a perda de outro.

Resta no entanto saber se estamos no bom caminho quanto aos produtos básicos. Na verdade, nos mesmos as incertezas são ainda demasiado grandes para saber os caminhos que teremos de percorrer… e por isso mesmo, vale a pena reflectir sobre o conceito de capitalismo e recordar que mesmo esta componente da História não está ainda completa...

Celso Furtado, (e não só…) acentua várias vezes as múltiplas formas possíveis de capitalismo e, apresentando-se de facto o mesmo de formas tão dispares, urge começar a aceitar que o conceito em si pouco diz sobre o tipo de sistema onde nos inserimos.

Por isso, prefiro distinguir a economia de mercado das economias capitalistas, onde elas, todas, se inserem, desde a de Mugabe à José Eduardo dos Santos, até à de Putin e Hu Jintao, ou ainda às de Sócrates, Brown e, noutro campo, Berlusconi…ou às de Bush e Obama, (caso este ganhe).

(Mas quem pode achar aceitável que se gastem 14% de uma revista, que se compra, onde despendemos portanto o nosso esforço e a nossa poupança, com o Dude?)

Admiro enormemente o forte sentido pátrio de Fukuyama que o leva a acentuar a supremacia americana, indiscutível, sem temer referir que “…o domínio dos Estados Unidos sobre o sistema mundial está em derrapagem”, uma verdade bushiana indesmentível, por consequência dos próprios erros deste leader americano.

Mas, na verdade, estando nós confrontados com tantos “capitalismos”, urge que reclarifiquemos os conceitos, por forma a que nos situemos adequadamente neste novo mundo, outra vez Bi(multi)polar.

Ora são as fragilidades ainda vividas nestes tempos de transição, energética, alimentar, de confrontos de interesses e projectos nacionais, e de ideias, mesmo que não de ideologias, (ainda que nada impeça o “regresso à Historia”, como Fukuyama não deixa de recordar, isto é, ou aos comunismos, aos fascismos…), que permitem acentuar a tese da guerra….

Não entendo que se possa, assim, assumir, (a não ser por razões de campanha eleitoral americana), que o inimigo central da Democracia sejam os desventurados dos islâmicos, do Irão ou outros, por fanáticos que sejam. São, sem dúvida, geradores de incertezas, de inseguranças, mas pobre do Irão na sua incompetência e inoperante inconsistência religiosa!

A tese da guerra vem, sim, sempre veio, dos ímpetos de potencia única dos autoritários com poder, como o próprio Fukuyama acentua neste texto, e, nestes, só pode vir, no momento, da Federação Russa, dado o seu passado de potencia bipolar, com ânsias falhadas a unipolar, pois alia a estas ânsias, o potencial tecnológico, insuficiente, mas existente.

E, aqui, uma nota de orgulho pessoal, pois sendo “pró americano” para muitos dos meus amigos, dá-me algum prazer verificar que é bem mais difícil, mesmo quando geram guerras inúteis, os EUA gerarem guerras definitivas, isto é, serem capazes de originar o fim de todos ou parte importante da Humanidade…ou, sobretudo, não assumirem as mudanças do Mundo.

Não será para já, estamos em fase somente de explicitação fronteiriça, nem creio que cheguemos, para já, a tal, (a URSS e o seu fim, são prova do bom senso estratégico e do sentido de Humanidade, de parte essencial da elite russa), mas é uma possibilidade muito forte esta.

Quanto à China temos outro aspecto de reflexão que Fukuyama não abordou, mas que é essencial para a compreensão desta potencia e até do que Fukuyama reflecte. Ela representa já, não o esqueçamos, mais de um quarto da população mundial a alimentar, a vestir e a habitar e tem-se mostrado mais interessada em continuar este caminho, (que, goste-se ou não Mao traçou), que em expandir, (apesar de ser, neste momento, a única potencia ainda comunista e não democrática, no mundo), o que a trava certamente nos intuitos dos caminhos da guerra.

Por isso, e apesar de ser citada 16 vezes neste artigo de Fukuyama, não é nunca apresentada enquanto potencia, para já, alternativa aos EUA.

(Imaginem que a China entra na Democracia. Algum de vocês acredita que o um quarto da população mundial, chinesa, aceitará, enquanto consumidores, que se gastem 14% de uma revista, com o Dude? Uma população fortemente habituada, milenarmente, à poupança forçada? Não valerá a pena, então, começar a ser mais bipolar, pensando nos consumidores, na comunicação social?).




Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 16:24
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