Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

Lamento, Mas Tem de Haver Culpados….

Vasco Polido Valente, historiador e reputado liberal, insurgiu-se contra José Saramago, romancista e reputado comunista.

A razão é simples de relatar, José Saramago escreveu” Não estou a exagerar. Crimes contra a Humanidade não são somente os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassínios selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as poluições maciças, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas. Crime contra a Humanidade é o que os poderes financeiros e económicos dos Estados Unidos, com a cumplicidade efectiva ou tácita do seu governo, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o dinheiro que ainda lhes resta….” (in, Crime Contra a Humanidade, EXPRESSO de 181008).

E, no dia seguinte, domingo, 191008, no PUBLICO, Vasco Polido Valente escreveu, “Basta perceber que na cabeça deste pensador não há diferença entre Auschwitz e o subprime ou entre o Goulag e a falência de um Banco em Nova Iorque. E como não há diferença, o homem quer castigos….para satisfação da “boa gente” que sofre”, in Saramago e a Crise, PUBLICO 191008).


Ora, procurando analisar este conflito de ideias, e para que se entenda que não foi somente um comunista a sentir-se incomodado com esta historieta dos subprimes, a 041008, António de Almeida escrevera no EXPRESSO, “No caso ENRON, houve responsáveis condenados com dura penas de cadeia. Relativamente aos padrastos do actual desastre do casino financeiro, veremos. Nos EUA, alguns acabarão fardados de reclusos”. Recordo ainda um texto meu, da semana passada, onde saudei o Ministro das Finanças, Português, por ter exigido a intervenção célere da Justiça neste caso também.

Repare-se que António de Almeida, e bem, não classifica de outra forma a situação, que não seja de “desastre do casino financeiro”. E que Saramago escreve ainda, “Os criminosos são conhecidos. Têm nomes e apelidos, …”, apontando sem dúvida para aqueles que anos a fio receberam, dos seus accionistas fortunas incomensuráveis pelas suas actividades, pelo que merecem, perante este generalizado fracasso, serem chamados à pedra.


Recordo, ainda, um economista, Prémio Nobel da Economia, Joseph E. Stiglitz, que lembra as questão de principio nesta divergência abissal entre Vasco Polido Valente e Saramago, “Mas como, do ponto de vista do fundamentalismo do Mercado – segundo o qual os mercados funcionam perfeitamente e a procura deve igualar a oferta tanto para o emprego como para qualquer outro produto ou factor – não pode haver desemprego, o problema não pode estar nos mercados”, (in Globalização – A Grande Desilusão, pág. 74). De facto a questão de principio está nesta errada visão da economia de mercado onde tudo seria perfeito e equilibrado.


Só que não o é.


E Stiglitz tem primazia nesta negação pois ganhou o Prémio Nobel por rejeitar esta tese, não deixando de ser um liberal, defensor da Economia de Mercado e, ainda, defensor da regularização, pelo Estado, devido à forma como, comprovadamente estudou e demonstrou os caminhos enviesados do Mercado.


Hoje, sobre assuntos deste cariz, é sempre uma perca de tempo relembrar Estaline.


Vale mais recordar Stiglitz que nos diz que, “…demos conferencias para incentivar o FMI e o Banco Mundial a repensarem os problemas da liberalização do mercado financeiro em países fortemente subdesenvolvidos e as consequências da imposição desnecessária de uma austeridade orçamental em países pobres dependentes da ajuda externa, como a Etiópia”, (in idem acima pág. 71).


Como diz ainda, “A liberalização não trouxe o crescimento económico prometido e aumentou a miséria”, (in idem acima pág. 55), ou ainda “O resultado líquido das políticas definidas pelo Consenso de Washington beneficiou frequentemente poucos à custa de muitos, os ricos à custa dos pobres. Em muitos casos, os interesses e os valores comerciais sobrepuseram-se às preocupações ambientais, à democracia, aos direitos humanos, e à justiça social”, (in idem acima pág. 58).


Em outro momento, Stiglitz refere também, “ Se a globalização não conseguiu reduzir a pobreza, também não conseguiu garantir a estabilidade…A globalização e a introdução de uma economia de mercado não produziram os resultados prometidos nem na Rússia nem na maior parte das outras economias que transitaram do comunismo para o mercado….” (in obra citada pág. 42), sendo que podemos ainda citar, “Depois da crise asiática de 1997, as políticas do FMI agravaram as crises na Indonésia e na Tailândia. Na América Latina…o resto do Continente ainda não se refez dos dez anos de crescimento perdido…”, (in idem acima pág. 55).


Saramago pode ser um comunista.


Um estalinista ainda até.


No entanto o que fez foi levantar uma lebre, voltar a fazê-la correr, porque tendo ela estado na corrida, não pode agora esconder-se por entre as luzes que nos vão cegando das ribaltas múltiplas que a comunicação social nos aponta.


Os administradores que foram determinantes gestores em entidades que viveram baseadas “em fundos de pensões, em fundos imobiliários, em fundos de fundos, em estruturados, e noutras criativas formas de criar riqueza virtual e pobreza real”, (recordando outra vez o artigo já citado de António Almeida), não podem ser protegidos, nem quando sobre eles caiam anátemas sem dúvida exagerados, mas que não deixam de ter algum fundo de realidade.


Na verdade existem 1,2 biliões de pessoas que vivem com menos de 1 dólar por dia, no mundo e 2,8 biliões com menos de dois dólares por dia…


Não, a teoria económica ganhou nos últimos 15 anos maturidade suficiente para poder passar à vontade sem estes fundamentalistas do mercado, que não são senão depredadores do mesmo mercado, em especial aqueles que se sediam no sector financeiro, onde existe a mais completa explicitação da Globalização, com a mais Livre Circulação de Capitais de sempre.


Por isso mesmo Bush esteve à vontade, e bem, para anunciar uma intervenção do Estado perante a Crise vivenciada nos EUA.


Mas, para que a crise seja ultrapassada sem que haja efectiva perca de confiança no Mercado, no caso o financeiro, os responsáveis terão, forçosamente de pagar pela gravidade dos erros cometidos.


Com a cadeia.

E, para que se entenda ainda mais adequadamente a minha reflexão, cito para terminar Stuart Mill, reputado economista do século XIX, liberal insigne, em Ensaio Sobre a Liberdade, texto de 1851, (edit. Arcádia, pág. 191), “ Aquele que não tem pelos interesses e sentimentos alheios a consideração que lhes é devida, sem que a isso seja levado por algum dever mais imperioso, ou justificado por lícita preferência própria, incorre na reprovação moral por essa falta…. De igual modo, quando uma pessoa se torna incapaz, por uma conduta puramente sua, de cumprir algum dever definido para com o publico, é culpada de ofensa social…Sempre que, enfim, haja um dano determinado ou risco determinado de dano, quer feito a um individuo, quer ao público, o caso sai da esfera da liberdade, e entra na da liberdade e da lei”.

Reparemos como, já no século XIX, o principio da Responsabilidade Social era tão perfeitamente assumido pelos Liberais de então…



Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 10:38
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