Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

DE VENEZA A GAZA…(OU…DE COMO QUEM ANDA À CHUVA SE MOLHA…)

Não esperava que, chegado a Lisboa, fosse dos acusados de ser dos que endividam o país, adquirindo pacotes turísticos.

Na verdade, sou dos que acreditam que a economia é uma sistemática permuta, onde o ganha-ganha é essencial para que todos possamos sustentar de forma positiva a mesma.



Daí que entenda que não só não é um erro adquirir pacotes turísticos, como é, pelo contrário, positivo que os de expressão portuguesa o façam – no mínimo estão também a lembrar que Portugal e os Países de Expressão Portuguesa existem enquanto destino turístico.



Estivemos, eu e a minha mulher, pois, com prazer, em Veneza, neste fim de ano.



Turistando…



Se não tivesse ido não saberia, tão em cima do acontecimento, que, aqui ao lado, em Espanha, o salário mínimo já está nos 624 euros…com um aumento de 4% para uma inflação prevista para 2009 de 2%.



Mais, o salário médio em Espanha é de 1692 euros, para os cerca de 800 euros em Portugal, e o ratio salário médio/smn é em Espanha de 2,7 em Espanha para 1,8 em Portugal.



E a diferença seria ainda maior se atendêssemos ao impacto do SMN em Espanha e em Portugal.



Note-se que em Veneza comi, em restaurantes, óptimas refeições por valores entre os 8 e os 9 euros por pessoa, com vinho e sobremesa incluídos, andei em óptimos comboios por cerca de 1,5 euros por uma viagem do género Lisboa/Amadora e comprei um jornal diário que me custou 1 euro cada.



O problema, lamento dizê-lo, não está no nosso endividamento.



Está na crescente fragilidade da economia portuguesa, com um tecido empresarial esse sim seriamente endividado (a uma banca em geral depredadora) e em forte tendência falencial.



Um exemplo de como o Turismo é aproveitado em Veneza – passeávamo-nos, eu e a Paula pela Praça de São Marcos, enregelados diga-se, mas satisfeitos por termos tido a oportunidade de vermos uma exposição colectiva com Picasso Chagall e Dali, quando somos simpaticamente abordados por um italiano que nos diz que a autarquia de Murano nos oferecia um bilhete a cada um, para visitarmos a ilha e os seus famosos trabalhos em vidro.



Iríamos na mesma a Murano, claro, a Marinha Grande de Itália. Mas estávamos a ser, a) convidados pela autarquia; b) a poupar com tal 6 euros cada; c) a sentirmo-nos importantes.



Claro que nos maravilhámos com as peças de Murano, na fábrica artesanal que visitámos e claro que não tivemos orçamento para comprarmos as peças em vidro com trabalhos de Dali que vimos, entre muitas outras obras espectaculares.

Mas claro que comprámos as peças que cabiam no nosso orçamento.



Enquanto nos entristecíamos com o que sucedera à Marinha Grande, (e ainda não sabíamos que a Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, das Caldas da Rainha, ameaçava fechar), admirávamos o empenhamento autárquico na defesa do seu património, e a forma como orientavam os turistas para a sustentação das fábricas artesanais locais.



É o que faltou em Portugal anos a fio – maior cruzamento e empenhamento público na actividade privada, maior cruzamento no privado/privado, menos neoliberalismo inconsequente e caduco, maior noção da riqueza que é alimentar o que na economia nos pode distinguir, enquanto povos de cultura própria feitos. O problema não está nos 700 000 funcionários públicos, está sim na sua falta de mobilidade, na sua baixa qualificação e no seu corporativismo salazarento.



Alguns exemplos de como o Turismo não é aproveitado em Portugal – a forma como a Feira da Ladra, uma feira que poderá ter cerca de 600 anos, é sustentada somente pelos feirantes, sem quaisquer apoios, nem privados nem públicos, (para além da campanha que a EPAR, Escola Profissional Almirante Reis ora faz, em favor da sua requalificação); a forma como aceitamos que o Convento de Cristo esteja em ruínas; a forma como desprezamos 1/3 do património UNESCO em Portugal, em vez de o utilizarmos para rentabilizarmos o Turismo; a forma como negamos as nossas relações históricas, consanguíneas e culturais com o espaço de expressão portuguesa.



O Turismo é, sem dúvida, a actividade que mais faz cruzar os povos do mundo. Se o Hamas, em vez de ter andado a enviar nos últimos 3 meses rockets diários sobre Israel, tivesse incentivado o Turismo a Gaza, teria hoje os apoios que não tem e não teria tido esta semana de diários bombardeamentos.



Além de ter a seu lado uma população satisfeita e um Israel bem mais disponível para o enriquecimento de Gaza, que passaria a ser um enriquecimento seu também…



(Na verdade, vivi esta maravilhosa semana em Veneza cercado de noticias sobre uma Gaza em processo de autodestruição, pelo que não deixar posso de me situar perante este conflito, também aqui…)



O povo árabe está em fase de mudança. Vejam como exemplo o canal de televisão Aljazeera…



Uma parte do mesmo entende-se parte do processo evolutivo da comunidade mundial e procura, também no Turismo, as receitas que o apoiem para o desenvolvimento.



Vi tal em Marrocos, entre marroquinos que se orgulhavam, saudavelmente, do seu passado e gostavam de o mostrar. Até das Cruzadas e dos Templários comigo falaram…



No entanto, outra parte vive ainda os tempos das cruzadas, (nem imaginando o quanto enriqueceriam se em vez de grupos terroristas criassem actividades de promoção, histórico cultural das suas vitórias ao tempo das mesmas…), referindo-se permanentemente à necessidade de destruição de tudo o que for diferente da sua “cultura” (a xenófoba e agressiva) que hoje alimentam e onde delapidam as poucas esmolas que os países árabes petrolíferos lhes dão, para os calarem e manietarem em caminhos suicidários.



O Hamas é um dos exemplos desta vivencia suicidária.



E como quem anda à chuva se molha só me espanto que após estes dias todos de violência sobre ele, o Hamas não se tenha virado contra quem devia – não falando já de todos os seus “irmãos” árabes, recordo no mínimo, os seus “irmãos” iranianos, agora tão em tão grande silêncio. Onde se situa agora o fanatismo iraniano? Assobia para o lado, depois das armas vendidas a bom preço?



Coimo me espanto que em ambiente de guerra, (pois o Hamas recusou manter o cessar fogo obtido) uma ongd que me tratou de terrorista por ser dirigente da UNITA e apoiou as sanções que me puseram em estado de falência financeira, (estive 3 anos sem poder ser, em Portugal, remunerado, por imposição da ONU, da UE e do Estado Português), considere possível dizer-se que os policias, totalitários e antidemocráticos, do Hamas, não sejam alvo militar.



Quem anda à chuva molha-se, disse-mo por outras palavras a minha mãe, sempre que me meti, voluntariamente, em conflitos. E dizia-o amorosamente, não deixando de o dizer.



Pois é o que é necessário que o Hamas entenda.



Brincou com o fogo, com rockets, com fanáticos suicidas.



Queixa-se agora por se ter queimado? E porque a queimadura dói?



Que olhe para Marrocos e que aprenda.



Enquanto que em Portugal (e no espaço de expressão portuguesa), devamos olhar bem mais atentamente para as Venezas do Mundo e aprender com elas, com as suas autarquias, com apoio que dão às actividade privadas, geradoras locais de emprego e riqueza.



Tendo em conta os seus Patrimónios.





Joffre Justino

Director Pedagógico

www.epar.pt
publicado por JoffreJustino às 16:36
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2 comentários:
De AYRES GUERRA AZANCOT DE MENEZES a 21 de Julho de 2009 às 18:32
O MPLA COMO MARCA


O MPLA como Marca representa um poder permanente em função de mais do que a sua história e multiplicidade de histórias e perpetuações das suas tradições.
Um dos factores qualitativos de recriação da sua força consiste na lealdade da corrente regeneradora dos seus aliados.
Os seus atributos, qualidade e expectativas criadas e uma amálgama de resultados e sua funcionalidade reforçam uma narrativa que impulsiona a sua existência.
Não há dúvida de que as crenças sagradas, criações, metas e seu prestígio, sua visão e missão, capacidade de inovação reforçam o seu posicionamento.
A sua suposta notoriedade e fidelização em constante construção criando boas ligações emocionais melhorarão consideravelmente essa marca.
Sendo assim será que a marca MPLA é um sistema propulsor e fonte de criação de valor?
Será que a notoriedade do MPLA continua a ser evocada de forma espontânea?
Para que a marca MPLA se perpetue será necessário que as atitudes das pessoas correspondam a avaliações globais favoráveis.
Não há dúvida que a força da marca MPLA quase se confundirá a um culto descentralizado e de interacções e laços fortes e experiências partilhadas que criam várias identidades verbais e simbólicas.
Para falar da antiguidade da Marca MPLA teremos que falar forçosamente do seu núcleo fundador de Conacry dos anos 60.
A marca MPLA se perpetua pelo seu prestígio devido as associações intangíveis, pelo seu simbolismo popularizado incontornável e grandes compromissos com o passado.
O MPLA como marca, alem de possuir narrativas de sobrevivência, inclui testemunhos que dão a história, significados mais profundos e grande carácter de emocionalidade.
A história do nacionalismo e luta de libertação pelos actores de renome a partir da fundação do MPLA em Conacry pelos seis fundadores bem personalizados, como Viriato da Cruz, Mário Pinto de Andrade, Hugo José Azancot de Menezes, Lúcio Lara, Eduardo Macedo dos Santos e Matias Migueis perpetuarão essa marca de forma reflectida.
Poderemos então afirmar que os fundadores de Conacry foram os agentes prioritários e fundamentais da verdadeira autenticidade da marca MPLA.
A dinâmica da história e a construção de identidades pressupõem estados liminares, pelo afastamento constante de identidades anteriores.
Desenvolver a cultura da marca MPLA exigirá um constante planeamento e estratégias que permitirão reunir e sentir esta marca global.
Para terminar apelaria que nas verdadeiras reflexões que a lenda da marca não obscurecesse a lenda dos fundadores verdadeiros artífices.
Escrito Por:
AYRES GUERRA AZANCOT DE MENEZES


De Ariane Morais-Abreu a 6 de Janeiro de 2009 às 18:00
Bom dia e boas entradas!!

O "grand écart" géographique entre essas duas cidades me parece um pouco artificial porque a vista so atinge o Hamas, acusado de "terrorismo". Sera que o maior terrorista nesta tragedia é realmente aquele que todos acusam e negam? Pois o governo israeliano preenche claramente a definiçao de terrorista. Sera que em situaçao cronica de conflito armado e de "genocidio" programado a defesa legitima passa pelo terrorismo?! Outrora e em outras latitudes falariamos de resistência !! dos Palestinianos contra actos de grande barbaridade e ilegalidade no que diz respeito aos Direitos humanos e a Historia. Tera legitimidade o tal governo "sionista" em roubar todo o direito do povo palestiniano de existir e usufruir da sua terra?

O assunto é complexo tanto de um lado da parede de béton armado como do outro lado que afinal criou o imperio britanico (ainda ele!) desde de 1948. Inventaram os "bem intencionados" europeus a guerra perpetual entre dois povos tao proximos, tao irmaos, tao similares que historiadores de renome como o Slomo Sand tentam reconciliar, pour ainsi dire, com a veracidade historica. Mas a mentira, a cupidez, o egoismo sao os piores inimigos que alimentam esta guerra. Nao parece ter espaço nesses territorios devastados e afogados para a evasao turistica e a justa valorizaçao de si mesmo.

Esta ultima demonstraçao de força bruta de Israel é mais um passo para a propria falência deste pais edificado sobre roubos e mentiras que todos pagam caros, fora os que sempre se aproveitam das guerras. Portanto nao podemos sucumbir a facil dicotomia do bem e do mal porque a natureza humana prohibe tal reduçao, e nao deixamos de pensar na estrondosa perda para os dois povos. Mas aceitar a desmedida injustiça e diferença de tratamento entre um Palestiniano e um Israeliano é crime que infelizmente se perpetua tranquilamente em nome daquele que mais possui, e com a bençao dos "poderosos" sempre subjectivos.

Mais uma vez também ridiculiza-se o meu Presidente francês que vai soprar sobre tempestade!! Gaza é para ele como a grande maioria dos outros da sua categoria um pretexto assim como esta viagem veneziana foi um bom pretexto para sair dos proprios constrangimentos e ver como se vive a existência algures... Muito gostaria eu ver aquela terra torturada e mitica do Proche-Orient que os colonialismos ocidentais, as fobias caseiras e todas as derivas "neo" nao deixam em paz. Gostaria sentir aquela terra que muito tem a ver connoscos...

Obrigada pela partilha de ideias!



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