Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009

Um texto de Rui Albino do Semanário Angolense e comentado por Anibal Russo e eu proprio

Caro Senhor

A opinião que tenho sobre esta história que me enviou é, efectivamente, de pura descrença.
Até pela data em que a “testemunha” situa a cena.
Por tudo o que conheço, nessa altura, no norte de Angola, os colonos, bem como os “contratados” Umbundos, estavam confinados, em posição de auto defesa.
Outra coisa que não creio, até porque vivi nessa zona, entre Maquela do Zombo e o Uige, nos fins da decada de 50 é a existência dos tais “assimilados”, que não eram assim tantos e, mesmo estes, encontravam-se “ligados” às missões metodistas existentes, que se sabe terem tido um papel importante nessa altura.
500 “assimilados”, em 61/63, não sei se se poderiam juntar na povoação do Uige, a capital, quanto mais num pequeno povoado . . .
Nessa altura, as populações adrentes à revolta é que se moviam à vontade, nessa zona norte e continuo a dizer que, nem entre os mais velhos combatentes do ELNA, ouvi citar nada disto.
Efectivamente, todos fomos vitimas e peões, de lutas que se decidiam, em salões, muito longe das nossas fronteiras . . ., antes e depois de Abril de 74.
A riqueza do solo angolano tem servido a todos, menos ao povo, que infelizmente, continua a não ter acesso a um minimo de dignidade.
Cumprimentos, Salutations
Aníbal J. Russo
Caro Senhor

Em relação a esta "estoria" abaixo descrita, há mais factos que "não colam" . . .
Alem do facto de o nome de MPLA não ser muito conhecido nessa altura, naquela zona do norte, ainda menos seria conhecido, nem sequer com os nomes que ostentou antes da fusão que levou ao aparecimento dessa sigla.
O meu pai, até meados de 1960, viveu alguns anos a norte do Uige, tendo até testemunhado acções de propaganda independentista e nunca referiu essa sigla.
Não me lembra nunca, nem nessa altura nem dentro da FNLA, ter ouvido qualquer menção a tal facto.
Sempre se falou e muito, do acontecido na Baixa do Kassange e se este tivesse acontecido, também seria referido.
Conheci, pessoalmente, alguns sobreviventes da Baixa do Kassange e do levantamento de 15 de Março. Nunca tal se constou!
Acontece que a data referida, também pouca credibilidade lhe dará.
24 de Abril de 1961
Nesta data, cerca de um mês depois do levantamento de 15 de Março, nem tropa havia para acudir a quem a solicitava quanto mais para esta "cilada"?
O "famoso" discurso de Salazar, o "para Angola e em força", tenho ideia que foi proferido a 13 de Abril de 1961 . . .
Nessa altura, nessa zona, tanto a norte como a sul do Uige e quase até às portas de Luanda, segundo me recordo, até por ter familiares a viver numa fazenda de cultivo de café, nos Dembos, que foram evacuados para Luanda, como muitos outros, as acções eram defensivas e era voz corrente, que quem ficou nas localidades, se barricou à espera de ajuda externa.
Este senhor deve estar a tentar candidatar-se a algum tipo de apoio como herdeiro de "vitima de guerra" ou similar . . . ou a tentar criar mais um "herói", como outros que se conhecem, também do MPLA, fabricados nos gabinetes . . .
Quando é conhecido que a maior parte dos ex-militares dos movimentos que se opuseram ao partido do governo, alguns deles com grande relevo na luta pela independência, ainda não foram reconhecidos pelo "Estado Angolano", vivendo muitos na miséria, que esperar desta estorieta?
Cá para mim não passa de invenção deste camarada com fins pouco claros.
Cumprimentos, Salutations
Aníbal J. Russo
O esquecido Massacre de Quimalundo
Alguns subsídios para a História de Angola, que corre o risco de ficar
altamente desvirtuada, se casos desses não forem recolhidos a tempo

Rui Albino

(Nota Pessoal. 1º Esclarecimento - Desconheço este caso, é certo. No entanto, todos os que viveram em Angola neste período conviveram com histórias afins, contadas nos silêncio das noites angolanas, (sem televisão para incomodar os diálogos), onde se relatavam mortes terríveis, de ambos os lados, portugueses e ou luso angolanos e angolanos; 2º Esclarecimento, o autor do texto abaixo, publicado no Semanário Angolense, erra quase garantidamente em um pormenor – em 1961, no Uíje o MPLA não tinha qualquer impacto, sobretudo no norte de Angola, mas sim a UPA liderada por Holden Roberto. Assim, ou a historia relatada, esta em concreto, não é verdadeira, ou a sigla que terá servido para agregar as populações só pode ter sido a da UPA. Já o Massacre da Baixa do Kassanje esse sim conheci-o porque em 1962 estive com a minha família na Baixa do Kassanje e convivi com um branco que estava visivelmente doente do ponto de vista emocional, por ter participado no sucedido. Divulgo o texto porque me parece essencial homenagear todos os que sofreram naqueles horríveis anos de 61 a 63 em Angola e todos os que participaram no 4 de Fevereiro de 1961, que em breve comemoraremos mais uma vez. Joffre Justino)


O país voltou a recordar há dias o Massacre da Baixa de Kassanje, ocorrido
a 4 de Janeiro de 1961, nessa região que fazia parte do antigo distrito de Malanje, quando mais de 20 mil angolanos foram abatidos por bombas de napalm lançadas por aviões da força aérea colonial, na sequência de uma revolta protagonizada por camponeses da zona, em reacção à exploração feroz de que eram vítimas nas plantações de algodão, um dos esteios do início da luta de libertação nacional que se viria a dar a 4 de Fevereiro daquele mesmo ano. Porém, ao contrário do que a história ofi cial regista, o massacre da Baixa de Kassanje teve uma espécie de «réplica» pouco tempo depois, já que as autoridades coloniais portuguesas voltaram a chacinar populações indefesas em grande escala no então distrito vizinho do Uíje, acontecimento do qual, incompreensivelmente, nunca se fez qualquer menção ao longo destes anos todos.
Segundo soube o Semanário Angolense de boa fonte, em alegada perseguição aos «terroristas» que sobreviveram a Kassanje, as tropas coloniais portuguesas chegaram ao Uíje, que por sinal já era um outro grande foco da estalada resistência armada ao regime fascista de Oliveira Salazar. Chegadas aqui, deram-se conta que a sua penetração estaria a ser dificultada por activistas locais dos movimentos de contestação ao poder colonial, que, segundo os depoimentos recolhidos por este jornal, eram sobretudo negros assimilados, «gente que já sabia ler e escrever, entre os quais constavam professores, enfermeiros e outros funcionários públicos.
Com ajuda de padres católicos, as tropas coloniais portuguesas introduziram agentes seus entre a população uijense, para descobrirem quem eram estes tais «negros assimilados» que se estavam a opor aos seus intentos. Vai daí, urdiram uma cilada, da qual resultaria a morte de mais de 500 cidadãos angolanos negros, uns por via de bombardeamentos aéreos e outros à pancada e à baioneta por tropas de infantaria, naquilo que entre os sobreviventes ficou conhecido como o Massacre de Quimalundo. Aconteceu
a 24 de Abril de 1961. A cilada consistiu no seguinte:
as autoridades coloniais emitiram convocatórias às populações locais para uma reunião que teria lugar em Quimalundo, a 80 quilómetros a norte da cidade do Uíje, no agora município do Puri, a partir das 09 horas daquele dia, na qual se transmitiria o resultado de supostos acordos havidos entre
representantes do «MPLA», que era o movimento de contestação que mais se falava então, e o governo ocupante, para se pôr um fim à crise política (e militar) que se instalara em várias regiões da colónia, em que já se falava de independência, coisas e tal. O local escolhido foi um descampado que servia para o pasto do gado.
Para tranquilizarem as presas, as autoridades coloniais anunciaram que chegaria um avião com os ditos representantes do «MPLA». E com efeito,
um avião foi visto a sobrevoar a área, o que levou os populares a caírem na conversa dos colonos de que lá estavam os esperados negociadores do «MPLA».Só que, afi nal, era um avião de reconhecimento militar, que
confirmou a presença da enganada multidão, para o massacre planeado pelos colonos. Quando os populares se deram conta do logro, já um outro avião passava pela multidão a lançar bombas, dando início à carnificina.
Contam os sobreviventes que muitos que não caíram pela saraivada de bombas acabaram por ser mortos à pancada e à baioneta por tropas de infantaria que já estavam próximas do local da «reunião» preparadas
para a chacina. Cerca de 500 pessoas foram barbaramente
assassinadas.
Ao que se soube mais tarde,a operação havia sido arquitectada pela PIDE-DGS, a famigerada polícia política do regime fascista português de então. E os negros que se diz terem sido vistos no primeiro avião para servirem de isco eram colaboradores ou bufos ao seu serviço.
Felizmente para a história, ainda há pessoas vivas com alguma ligação a este massacre, que podem fornecer subsídios mais precisos sobre ele, mas a
grande inquietação dos populares que sabem deste episódio
macabro é que ele nunca foi lembrado ao longo destes anos todos, nem mesmo a nível provincial, como se nada se tivesse passado, o que é lamentável.
Domingos Adão, 46 anos, é filho de um então sobrevivente do massacre. Ele não entende as razões que estarão por detrás deste esquecimento algo criminoso de um episódio tão sangrento que devia figurar nos registos da repressão colonial que se abateu particularmente sobre os angolanos naquele tumultuoso ano de 1961.
Ele garante que ainda há sobreviventes dessa chacina, alguns dos quais residem mesmo já em Luanda, bem como viúvas e outros órfãos, sobretudo na própria localidade onde se registou o massacre, isto é, em Quimalundo, município do Puri, província do Uíje.
Segundo Domingos Adão, há um dado curioso a reter: as
tropas coloniais que vieram exterminar os feridos que haviam escapado aos bombardeamentos não tocavam nas mulheres.
Exactamente porquê, é que não se sabe. É serviço para os historiadores.
publicado por JoffreJustino às 14:23
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.posts recentes

. Primárias - Uma Otima Pro...

. O 11 de Setembro e eu pr...

. Um recado a Henrique Mont...

. Na Capital Mais Cara do M...

. Há Asneiras A Não Repetir...

. “36 Milhões de Pessoas Mo...

. Ah Esta Mentalidade de Ca...

. A Tolice dos Subserviente...

. A Típica Violência Que Ta...

. Entre Cerveira e a Crise ...

.arquivos

. Julho 2012

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Agosto 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds