Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

Unir a Esquerda, Debater a Esquerda, Praticar a Esquerda, Mudar a Esquerda

1. Não é verdade que Marx tenha sido um estatista. Marx era, de raiz filosófica, cultural e política anti estatista e tal é muito claro em muitos dos seus documentos, onde defende a necessidade de destruir o Estado, usando-o somente temporariamente, em outra política que não a liberalista selvagem de então na Grã Bretanha
2. Marx era defensor do papel das elites na Mudança dos processos económicos sociais e políticos. Daí o Manifesto Comunista, que ele sabia não espelhar o pensamento da larga maioria proletária
3. Lenine sim, era estatista. Mas é verdade que rápido se arrependeu de tal e não tivesse morrido teria sido eliminado, como Trotsky, por Estaline, se recordarmos os seus textos dos anos 20
4. O estatismo keynesiano não é visto no plano dos princípios, mas somente no plano instrumental
5. O estatismo enquanto principio é a raiz filosófica da Internacional de Estaline e dos partidos comunistas do seu tempo. No entanto, desde a década de 60 que esta raiz foi contestada até de dentro dos partidos comunistas no poder nos países de leste, dados os fracassos evidentes sentidos desde finais dessa década, onde a Checoslováquia e a invasão soviética são a prova do mesmo fracasso
6. A Esquerda estatista tem vindo a fracassar em todo o lado, lamento recordá-lo.
7. Por isso, desde os anos 80, muitos intelectuais de esquerda procuraram seguir as reflexões de outros como Michel Roccard e a sua raiz autogestionária, estudando as características da economia de mercado e vendo-a tanto na sua componente capitalista selvagem, como na capitalista estatista, como na versão que lentamente nela cresce, de democracia participativa nas organizações, de defesa dos princípios éticos e de responsabilidade social nas mesmas, de desenvolvimento sustentado, local e planetário, de assunção das possíveis múltiplas formas de posse da propriedade, associativa, cooperativa, comunitária
8. Em Portugal o peso do estatismo na esquerda tem conduzido a mesma a impasses sistemáticos, pois temo-nos recusado, quase que por principio, a alimentar e reforçar uma cultura de intervenção também no económico, com modelos de gestão alternativos aos privatistas tradicionais
9. As clivagens pró/anti soviético, dos anos 60/80, mantêm-se ainda hoje em muitos dos nossos discursos e posicionamentos, em planos que hoje se tornam cada vez mais ridículos e nos afastam das Pessoas que, definitivamente, já nem nos entendem
10. Daí também a sustentação de discursos, vazios de consequências, um antipoder, vazio de resultados e de reforço de ânimos e aspirações, outro de estrita racionalização da gestão governativa, sem impacto na estruturação de mudanças na sociedade, nas comunidades, nas Pessoas e que, na verdade, se limita a alimentar a dependência da Esquerda face ao Estado, mesmo quando se diz contra ele
11. Os vazios existentes conduzem muitos de nós na Esquerda a olhar ansiosos para todo o tipo de revoltas como se delas viessem revoluções sociais, esquecendo o como Marx, para os Marxistas, se exasperava com as revoltas populistas do seu tempo.
12. Daí encontrarmos boa gente de Esquerda a apoiar forças políticas fascistas, como o Hamas, ou boa gente de Esquerda a exasperar-se com os populismos latino americanos sem procurar, antes do mais analisá-los nos seus impactos sociais e políticos
13. O Fascismo só é gerador de ditadura e terrorismo, enquanto que o populismo pode gerar movimentações sociais com forte impacto social e politico positivo para a mudança das mentalidades
14. Mas, no espaço de expressão portuguesa, o dominante não é nem uma nem outra versão. Entre nós domina o debate, hoje surdo e se impacto, em volta da estatização da sociedade
15. Em Portugal esse debate crispou vontades e limita dramaticamente as possibilidades de mudança, sendo de todo urgente pôr fim a esta crispação
16. Mais ainda se crisparam os estados de espírito com a recusa em aceitarmos que vivemos dramáticos momentos, de profunda e grave crise internacional, e que os vivemos em estrita lógica de ricochete, perante uma economia globalizada e gerida selvaticamente pelos neoliberais que dominam os grandes interesses financeiros e estando nós numa economia frágil e dependente
17. Os estatistas erram em manterem a lógica antipoder e a restante esquerda erra em não incentivar alternativas comunitárias no tecido económico e social, limitando-se à estrita racionalização da governação
18. No entanto, que fique claro, perante a crise e os bons exemplos desta governação socialista, prefiro apoiar este campo, mesmo com os erros cometidos, a ficar no vazio do antipoder, porque só não erra quem não faz
19. Daí defender a urgente necessidade de se reforçarem as experiencias de gestão conjunto de movimentos, de processos, de organizações, no plano local e comunitário
20. Daí defender a necessidade da Esquerda se entender na organização de listas conjuntas para Juntas de Freguesia, Câmaras Municipais e organizações económicas e sociais de base.
21. Daí defender a concretização de tal nas próximas eleições autárquicas, para Lisboa e não só
22. Já o escrevi e volto a fazê-lo na certeza de que não terei quaisquer resultados, mas com a convicção de que estarei certo no que digo
23. De facto estas experiencias permitiriam, no debate das práticas comuns, sobretudo, a superação destas crispações, a percepção de que os pensamentos não nos diferenciam assim tanto e de que poderíamos fazer pequenas coisas que muito e muitos mudariam
24. De qualquer forma, boa sorte aos que acreditam diferentemente de mim

Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 10:19
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