Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009

….Bandos de Pardais à solta…Os Gangs!

Quando era puto andávamos, todos nós, os putos, cada um em seu bando.
E, note-se, não éramos fáceis de assoar.
Lembro-me das guerras, à pedrada, morro abaixo, morro acima, na mata do Liceu, entre os putos do Liceu e os putos da Industrial, que chegaram a ser paredes meias, em Luanda. Já não me lembro quantas vezes perdemos nem quantas ganhámos, mas lembro-me bem das cabeças partidas e do sangue a jorrar…
Depois, a pouco e pouco, com o nosso crescimento, os bandos foram-se “civilizando”, concentrando-se por bairro, por tipo de interesse, e até por motivação política, cada um em seu café.
Cada bando tinha o seu grupo de “chefes”, ou o seu “chefe”, informalmente, sem regra. Quase todos crescemos assim, sendo bem distinta a cultura dos Adultos da cultura dos putos, da miudagem.
Uma vez por outra éramos apanhados numa ou noutra “maldade” pela policia, e lá entravam os pais, em estado de choque e de vergonha, na resolução do problema, que terminava, sempre, em casa, entre, pelo menos, e no mínimo, uns bons tabefes…
Hoje os Gangs serão os mesmos, terão as mesmas motivações?
De certa forma sim. A aprendizagem gregária faz-se em família, mas também nestes bandos de putos, já tantas vezes cantados. As regras primárias, de solidariedade, de amizade, de respeito entre diferentes, passam, muito, por esta fase e nela aprendemos bastante do que seremos mais tarde.
O que distingue então os bandos dos gangs?
Quase nada.
No entanto, a expressão da autoridade era outra.
A presença do Adulto, distante é certo, era expressa de muitas e suficientes formas – do pai e da mãe mais próximos, pois os locais de trabalho não eram em geral assim tão distantes dos locais de vivência da família; dos vizinhos que interferiam sempre que necessário; dos professores; e, claro, da policia.
Era um sistema em geral bastante autoritário, presente, afirmativo.
Os putos saltitavam de um para outro subsistema, sempre enquadrados
Hoje vivemos dentro de um sistema relaxado, distante, neutro.
Penso que a distinção essencial passa por aqui.
Daí também a crescente vaga de conflitos nas escolas, como sucedeu recentemente em Vila Franca de Xira, na Escola Secundária Gago de Coutinho, em Alverca e que já levou a Presidente da Câmara a intervir na situação e que faz da Região de Lisboa o topo da conflitualidade e da violência nas escolas, segundo a Procuradoria-geral da República.
Retomando o tema e antes do mais, um sistema permissivo não é o mesmo que um sistema relaxado. Neste último a autoridade deixou de existir, as referências não são a auto responsabilização mas sim a desresponsabilização.
Um sistema distante, por outro lado, é, mesmo, as antípodas de um sistema presente. No primeiro nada de protector, de aconchegante, de vigilante, e de força moral, está ali ao virar da esquina e, ao virar de cada esquina passamos a encontrar, outra vez o risco, o medo, a violência desmedida, sempre e mais uma vez sempre, pelo que passa a predominar somente o instinto de sobrevivência e não de aprendizagem.
Um sistema neutro, não é revelador. Não incentiva os valores, as regras, o sentido de comunidade alargada.
E é neste contexto que, muito facilmente, o bando se transforma em gang.
Ora é neste contexto que, cada vez mais, vivemos.
E vimos as consequências um pouco por todas as escolas deste país.
Ora, a escola é o local onde o puto passa a maior parte do seu tempo, organiza o seu bando/gang, ainda que centrado em espaços de proximidade.
Estivemos, este ano mais, a perder um enorme tempo, porque uma parte importante dos professores optaram pelo caminho do puro egoísmo, fazendo-nos perder demasiado tempo a discutir o que era obviamente necessário mas, também obviamente insuficiente – o modelo de avaliação de desempenho, a carreira profissional.
Este tempo perdido, deveria ter sido ocupado a discutir – a escola.
Hoje, na escola, não bastam professores, administrativos, auxiliares educativos, urge recriar as funções profissionais na escola de forma a dar-lhe capacidade de intervenção e de resposta aos novos problemas gerados pela distância, pelos tempos de trabalho, pelas famílias reduzidas (pais/locais de trabalho/locais de vivência; falta de vizinhança; falta de espaços de ocupação de tempos livres; falta da presença do irmão/ã).
Hoje, na escola, convivem demasiadas formas de viver, geradoras de instabilidade entre os putos, que vão desde a religiosidade extrema à antireligiosidade, do consumismo exacerbado, à impossibilidade de consumir, do equilíbrio familiar à inexistência de família, do etnicismo variável à xenofobia e a escola abrirá falência de não a recriarmos a tempo.
Da sala de aulas ao intervalo, do intervalo aos tempos livres, ou a escola ocupa dinamiza incentiva outras vivencias para os nossos putos, ou do bando passaremos ao gang generalizado, cercada que está a escola de prazeres inesgotáveis e quase sempre inatingíveis pelo que a família pode dar, mas que o gang permite atingir.
Mas, claro, o importante hoje é desvalorizar o Magalhães, demitir a Ministra da Educação, mesmo que com tal se crie – o estúpido caos.
Penso ainda que os actuais parceiros da escola se mostram cada vez mais insuficientes para a urgente reforma da mesma.
Estão, em geral, desautorizados e, pior, desmotivados.
Por isso começo a entender que hoje deveriam ser as empresas a começarem a preocupar-se, seriamente, com este estado de coisas.
Na verdade, se elas não se preocuparem, estarão, elas também, a prazo, a suicidarem-se, pois não há produtividade sem Pessoas formadas, escolar, profissional e civicamente.
As famílias têm desestruturações evidentes e graves. Os professores estão em boa parte, desautorizados, a escola está, significativamente, transformada em armazém de refugo. As igrejas perderam a capacidade agregadora. A polícia perdeu a autoridade.
Quereremos nós continuar assim?
Se não queremos então tenhamos a coragem de introduzir no sistema quem dele vive também e onde, apesar de tudo se mantém, uma forte complexidade organizacional, mas que se autosustenta, alguma lógica de autoridade, mas que se contém, alguma busca de valores, mas que respeita o diferente, alguma procura de empenhamento social, e que nos socializa – a empresa.
A complexidade da empresa, o equilíbrio que demonstra ter, transposta para a escola, mostrará a todos os seus participantes que a escola não pode continuar a ser um mero espaço de transmissão, seca, neutra, frágil, de saberes.
Na EPAR, Escola Profissional Almirante Reis, onde sou director pedagógico, temos vindo a reflectir sobre estes temas e estamos a procurar definir um modelo de prevenção da violência na escola, que iremos promover.
Mas não queria deixar de participar, para já, neste essencial debate.
E, em conjunto, em parceria, procuremos reconstruir a escola.

Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 10:30
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