Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Da Bela Vista à Esquerda que Quero….

Dez por cento de Desemprego em Setúbal, mais de 20% entre os moradores do Bairro da Bela Vista, li algures, por entre as noticias desta Crise violenta em que o Bairro está envolvido.
Será esta a razão central da violência que caracteriza o bairro?
Não me parece, mais permitam-me que duvide.
Em 2000,não vivia Portugal a Crise que hoje tem, embora o momento já apontasse para a crise que afectou o país entre 2002 e 2004, e já o Bairro da Bela Vista ficou famoso com os assaltos na CREL, feitos por jovens aí moradores.
E, agora, a crise advém do facto de um jovem da Bela Vista ter sido baleado e morto, em Portimão, durante um assalto. Desta morte nasceu a revolta dos jovens do Bairro, como vimos na televisão.
Que tipo de revolta?
Passeatas com motos e carros, nada baratos, também vimos tal na TV, em clara provocação à Policia…
Que tem esta revolta a ver com as revoltas das minorias étnicas em França, ou a dos Jovens na Grécia?
Vão-me perdoar mas muito pouco.
Em França e na Grécia a revolta centra-se em Jovens em dificuldades, com índices de desemprego bem maiores que os da Bela Vista, (e estes já são bem significativos…), enquanto que o visível, pelo menos, da revolta na Bela Vista se centrou no que chamaria os meninos da fortuna incerta.
Isto é, até pela forma de vestir e estar, na televisão, estávamos perante jovens que acentuavam vestes nada baratas para quem vive em dificuldades, indiciando uma proximidade à apropriação de rendimentos aceitável/boa, pouco adequada aos mais de 20% de desemprego do Bairro…
A Bela Vista terá, é duvidoso que não o seja, para além de uma camada social em dificuldades, uma componente, minoritária provavelmente, que vive bem de rendimentos obtidos irregularmente pelo menos.
Conhecemos, todos, esse modelo das favelas brasileiras…
E essa foi a que vimos na televisão.
Provavelmente será mesmo essa a que lidera a contestação e a violência que cai sobre a Policia.
Há, no entanto, um outro factor que acentua e justifica a revolta nestes Jovens – eles são, visivelmente também, de uma minoria étnica, negra e mestiça, que se sente marginalizada no seu direito a uma evolução social.
Reafirmo o que já escrevi dezenas de vezes – com, uma população onde pelo menos 10% da mesma é composta por negros e mestiços, esta componente só se consegue rever em minorias em percentagens bem inferiores, nos cargos de peso político, social, cultural e económico em Portugal. Por outro lado, para além do pouco peso na influencia no país, a sua evolução nas carreiras onde o peso do conhecimento é significativo é, continua a ser, por demais diminuto e, pior, travado.
Costumo, aliás, solicitar às pessoas que me digam quantos mestiços de negros e quantos negros temos no Parlamento, nas Vereações Municipais, nas listas que vão desde o BE, ao PCP, ao PS, ao PSD e ao CDS, (que é aliás o que melhores índices de aceitação da diferença, racial/étnica, apresenta), etc. … para defender que, neste campo, Portugal leva um atraso por demais significativo, escandaloso diria, em comparação com os restantes países da União Europeia.
O país Portugal, que nasceu do Império Portugal, neste campo tem-se portado, desde o 25 de Abril, sempre, mal e tem procurado, envergonhadamente, esconder que é na verdade um país mestiço e mestiço de muito sangue negro.
Daí que entenda porque é que esta revolta da Bela Vista se centra nos meninos da fortuna incerta e não nos meninos pobres do Bairro.
São na verdade Jovens que desejam, por demais, ser como os restantes de uma classe média a que anseiam chegar depressa. Para o serem, pouco mais lhes tem restado que obterem rendimentos em vias ilegais e ou irregulares canalizando a sua agressividade e revolta para caminhos não de contestação social e politica, mas sim de marginalidade social.
Ainda que falem de revoluções fazem mais lembrar o que Marx citava também como os marginais que apoiavam as “revoluções” populistas dos bonapartistas…
É certo que só podem estar nestes caminhos porque a maioria dos restantes lhes estão vedados. As direcções políticas à Esquerda usam-nos por razões eleitorais, mas nunca valorizaram adequadamente esse uso permitindo-lhes o acesso a cargos de intervenção com significado e as direcções políticas à Direita se, no caso particular do CDS os valoriza, é certo que tem uma influência e uma capacidade de distribuição de cargos por demais insuficiente para ser um catalisador de consensos sociais, as restantes continuam na senda da busca do esquecimento do Império que ainda acham que as traiu...
Sendo pois verdade que a Bela Vista não é somente um caso de polícia, o certo é que parte substancial do erro dominante, a marginalização em que os jovens da Bela Vista se encontram, se sucede num Bairro de um município que foi, por demasiados anos, e o é agora, comunista, para que o PCP se possa descartar da situação, com o argumento da crise e da culpabilização do Governo e para que se procure esquecer que também é um caso de polícia.
De qualquer forma, tanto no BE, como no PCP, como no PS, a tendência para a marginalização das minorias étnicas é, infelizmente, ainda, dominante.
Ora essa não é, nunca foi, a Esquerda que eu quero, por muitas razões, éticas, culturais, filosóficas ideológicas, mas por uma bem pragmática e que muito prezo – é que no meu país, Angola, eu sou parte integrante de uma minoria étnica, a Branca, que em Portugal é maioritária, mas que em Angola não o é.
Ora em Angola, a Vice-presidência da Assembleia Nacional já foi de um Branco, da UNITA e não foram poucos os Brancos que foram ministros, pelo MPLA. E, em Angola, todos o dizem, seremos, os Brancos, menos de 2% da população…
Uma Esquerda que só se entende no contexto da etnia dominante do seu país é uma esquerda que, nesse campo tem um enfoque conservador, e gerador de conflito social e político, em vez de ser gerador de consensualização e de luta pelos direitos mínimos socialmente obrigatórios.
Tal tem, sabemo-lo, forte impacto na capacidade de melhoria dos rendimentos das famílias e de ascensão social das pessoas. Hoje, todos o reconhecemos, as minorias étnicas têm, para funções idênticas, remunerações inferiores às da maioria étnica em Portugal e de tal os sindicatos bem pouco falam…
Como tende e delimitar as relações comunitárias no interior de cada comunidade étnica, o que é, sabemo-lo, gerador de mais e mais marginalização e de tensões sociais múltiplas.
Por outro lado, se é certo que a Bela Vista não é somente um caso de polícia, também o é. Foi porque parte da esquerda brasileira se ter deixado influenciar pela rejeição da necessidade de estabilização e de segurança das pessoas e dos bens, que as favelas se transformaram em centros riquíssimos de gangs das múltiplas formas de droga, de violência, e de marginalização.
Mais ainda, tem sido visível haver, até ao momento, um comportamento positivo das forças policiais presentes no Bairro, como tem sido visível, ou de tal não se ter falado, também o ter faltado a presença e o diálogo com os representantes das forças sociais presentes no bairro e de se ter notado em demasia o silêncio, a não presença, do município durante todo este conflito.
É esta componente, que não compete em particular à Policia de desenvolver, a do diálogo social e a do diálogo com os envolvidos, que não se tem mostrado existir.
Prova, sinceramente o digo, que a Esquerda de demitiu, no bairro da Bela Vista, de o ser.
Mas e para terminar, o que ficou mais uma vez evidente, é que esta noção católica de ver a mudança da marginalização para a Inserção, como algo possível centrado estritamente no interior da comunidade afectada, falhou rotundamente.
A Inserção de uma comunidade fechada não se resolve no interior da mesma.
Só se resolve implicando a comunidade com a envolvente externa, incentivando-a a sair do seu interior e a conviver com as restantes comunidades envolventes.
O que, visivelmente, não tem sucedido.
A não ser para a prática de actos de revolta, marginal, como assaltos, e cenas de pancadaria.
Urge repensar, em Portugal, a forma de inserir as comunidades, de as integrar o mais harmoniosamente possível.
Como urge que os poderes políticos reflictam nos custos económicos e sociais dos conflitos, sociais e políticos e os saibam prevenir, apoiando, na comunidade, quem procura solucioná-los.
Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 09:23
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