Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

(7) Enquanto Laico e Republicano, …E morre um “rei caçador”…

“Affonso Costa, que, devido ao processo Djalme,
se afastára dos trabalhos revolucionários, com a
prisão de António José d’Almeida, faz o impossível;
ele que ignorava tudo, consegue com o auxílio de
Marinha de Campos lançar mão de alguns elementos,
cerzi-los á pressa e, em dois dias, atirar com a revolução
para a rua.”
(in, A Revolução Portuguesa, 1907-1910, de Machado dos Santos)


A agitação republicana, reforçada com a revolta do 31 de Janeiro de 1891, ainda assim considerada “…uma revolta de caserna” por Machado dos Santos, e todas as actividades organizativas centradas na Carbonária e em Luz Almeida, assim como todos os comícios e toda a actividade jornalística e parlamentar desenvolvida pelos Republicanos, não deixavam de se confrontar com um país que até estes revolucionários consideravam “um Paiz morto”.

Segundo Francisco Carromeu, em uma Conferencia da Associação República e Laicidade, associação que bastante respeitamos pela sua actividade em prol do republicanismo, o Partido Republicano “transformara-se num partido de regime, disputava os actos eleitorais como um pequeno partido,…” e, também segundo ele, até a Carbonária que se lançara na “criação de milícias civis que pudessem ser a base armada de uma revolução republicana, definhavam nas sucessivas Altas Vendas…”.

Entretanto, a insegurança no regime era suficiente para que o rei Carlos sentisse a necessidade de impor a ditadura sob a alçada de João Franco.

E vale a pena citar um pouco do livro de Luis Vaz, As Mortes que Mataram a Monarquia, que, de forma romanceada, mas historicamente bem rigorosa, relata o Regicídio,

“Espetado sobre a erva verdejante e coberto das copas abundantes da vegetação, o Rei caçador, rejubilava de contentamento, bem estampado nas suas longas bochechas, cobertas por lustroso bigode e onde se reflectiam os rais solares de uma manhã mi9lagrosamente primaveril.
-Acabamos com as gazelas sua alteza entoou uma voz vinda do matagal.
-Não. Fechem-se no cativeiro da discórdia. Deportem-se para fora do território nacional. Lacrem, as portas dos jornais para que não hajam noticias de tanta ousadia!
E assim se cumpriu!
Três meses após a abertura da caça, as portas da discussão foram encerradas e o Rei Caçador deu plenos poderes ao Francanote para, sem prestar contas a quem quer que fosse, pôr todos os animais sob a sua pata.
Estávamos em 1907, no mês da virgem, e todas as patas de todas as cores começaram a disparar coices contra o Rei Caçador e contra o Francanote.”

A 28 de Janeiro de 1908 a direcção do Partido Republicano tenta uma primeira investida contra a Ditadura de João Franco. Mais uma vez Machado dos Santos é arrazador no seu relato, “A essa hora sigo a receber ordens do almirante (Candido dos Reis), e com elle me conservo até ás 11h da noite, juntamente com o comandante Serejo. Andréa estava emboscado n’uma casa da rua do Arco do Bandeira, prompto a assaltar o Arsenal, conforme o combinado. O signal não appareceu. Os regimentos já estavam de prevenção. Candido dos Reis ordena-me que vá dar a contra ordem ao corpo de marinheiros, e separamo-nos chorando, dos braços uns dos outros, sem sabermos o que seria para nós o dia seguinte.

O almirante dera ordem para que a manobra se repetisse nos outros dias, mas os officiaes eclipsaram-se: o almirante viu-se só”.

Os desaires das revoluções e dos revolucionários.

Que, no entanto, não desanimam quem vive de um Sonho, de uma Esperança de Mudança, perante um país no pântano.

Segundo um tal Malaquias de Lemos, citado de O Regicídio de Maria Alice Samara e de Rui Tavares, que era então comandante da Guarda Municipal, o 28 de Janeiro foi “a tal borracheira que eu previa e esta noite deram-se graves acontecimentos abafados ainda assim à nascença, de que resultou a morte de um pobre polícia, a prisão de 120 indivíduos e entre eles, Egas Moniz, (mais tarde como sabemos Prémio Nobel), Afonso Costa e Visconde Ribeira Brava, (ascendente de Isabel Herédia, hoje esposa de Duarte duque de Bragança)…os 120 foram para Caxias, (onde também estive,…larguíssimos anos depois)…”

A 31 de Janeiro sai um decreto, sobre o qual surgiram já várias leituras, que permite a expulsão do país ou o reencaminhamento para as colónias aos que estivessem envolvidos em actos revolucionários….uma dessas leituras refere que o rei Carlos terá dito que com tal estava a assinar a sentença de morte, outra refere que o príncipe Manuel terá tentado, a todo o custo travar a aposição da assinatura do pai em tal decreto. Verdade ou não

Perante as prisões havidas, os boatos, e nem sempre como se verá somente boatos espalhavam-se por toda a Lisboa. Assim, de novo seguindo o livro O Regicidio, Tomás de Melo Breyner, terá escrito no seu diário, a 31 de Janeiro de 1908, “Vai mau tempo para a polícia. Fui avisado pelo meu empregado Roberto, do Hospital, de que uma grande desgraça se prepara. Querem matar o meu querido Rei, tão bom para todos. Que horror!”.

A revolta republicana, aliada a algum desespero perante o fracasso, certamente, prenunciava maus momentos…

De relevar que a casa real estava em momento de grande baixa de popularidade. De facto, em 12 de Abril de 1907, o rei Carlos ordenara o encerramento de ambas as Câmaras, e a ditadura de João Franco terá permitido que o difícil caso das dívidas da casa real ao Estado fosse resolvido, sem debate público, transferindo-se para a posse do Estado, sobrevalorizados escandalosamente, os palácios as casas e o iate Amélia, da casa real, sendo que esta continuava a usufruir das mesmas, enquanto que cabia ao Estado pagar a sua manutenção, quando na verdade, todos estes bens já eram pertença do Estado que já cuidava da sua manutenção, tendo-se assistido sim a um abuso de autoridade com um perdão da dívida!

A 26 de Agosto aliás, segundo o autor já citado, o então leader do Partido Regenerador, monárquico, disse, na sessão do Conselho de Estado e à frente do rei, que, “Isto termina fatalmente por um crime ou por uma revolução”,mostrando como todo o regime estava abalado pelo perdão da dívida e pela ditadura de João Franco, apoiada pelo rei Carlos.

O autor já citado, Francisco Carromeu, recorda-nos que, “Segundo Aquilino Ribeiro, nesse mesmo dia 28 de Janeiro, Marinha de Campos é abordado por Alfredo Costa”, a insistir na revolução e que Marinha de Campos terá retorquido, “A tropa nega-se a sair enquanto João Franco andar à solta…Neutralizem de qualquer modo João Franco e a revolução está na rua”.

Estava Marinha de Campos, assim, a incentivar a Carbonária e, ao que parece, não somente ela…pois, segundo alguns, estiveram neste movimento do Regicídio, também, anarquistas motivados pelo visconde da Ribeira Brava, ele próprio anarquista.

Aquilino Ribeiro, segundo o autor que acompanhamos, relata o como Alfredo Costa e depois, possivelmente incentivado pelo primeiro, Buiça, tomaram em mãos a missão de eliminar João Franco, sendo certo que não são poucos os autores que apresentam esta tese – o assassinado deveria ter sido João Franco e não o rei Carlos e seu filho. É certo que João Franco procura descartar-se da ideia de ter tido conhecimento do atentado que contra ele se preparava, e cito, de O Regicídio, “O regicídio fulminou a todos de surpresa, embora depois dele não faltassem os profetas do dia seguinte, tão videntes ou informados do que ia suceder, que a ninguém deram parte dos seus receios…”.

O autor que acompanhamos, mas não só ele, diz que Alfredo Costa, perante o impasse gerado com o não aparecimento de João Franco e perante a oportunidade que surgia com a carruagem real terá dito, “E agora?... se liquidássemos a cambada?”.

Verdade é que, “Buiça vem pela retaguarda, abre as abas do capote, tira a Winchester, (fornecida pelo Visconde Ribeira da Brava e por anarquistas espanhóis, segundo alguns), aponta a atira. Costa vindo das “Arcadas” aproxima-se do landau, põe o pé no estribo e dispara a pistola Browning”, conforme o que nos é relatado no livro O Regicídio, que nos diz também que a rainha Amélia terá sido Buiça a matar o rei e o príncipe.

No Terreiro do Paço ficam, mortos à cutilada e a tiro, Buiça e Alfredo Costa, na carruagem o rei Carlos e o príncipe Luis, ficando ferido no braço o príncipe Manuel.

Não deixaremos, claro, este assunto somente com este pequeno relato, mas, por ora…

Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 13:44
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