Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008

PARTINDO DO ALJUBE, DO TARRAFAL, DE CAXIAS E PENICHE….

O texto que vos envio, abaixo, distribui-o no sabado passado a alguns deputados da Assembleia da Republica, tendo recebido a resposta que vos deixo, aqui também, do grupo parlamentar do PCP e que, desde aqui, agradeço publicamente, pois entendo que o tema, a Pensão Antifascista de Luis Cartaxo merece a máxima divulgação.

Joffre Justino

"Lisboa, 29 de Setembro de 2008
Encarrega-me o Presidente do Grupo Parlamentar de acusar a recepção e agradecer o envio do seu e-mail, de cujo conteúdo mereceu a sua melhor atenção.
Com os melhores cumprimentos,
Anabela Cunha
Secretária do Presidente do Grupo Parlamentar do PCP
N/Ref. nº 26546-67AC/08"


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PARTINDO DO ALJUBE, DO TARRAFAL, DE CAXIAS E PENICHE….





Já por várias vezes escrevi sobre este tema que tem, até, contornos, para mim dolorosos, por variadas razões… Fui, algumas vezes, preso antes do 25 de Abril, sendo que estive 11 meses preso em Caxias de Abril de 1973 a Março de 1974.



Não sou nem me considerei nenhuma vez, herói de nada e sempre considerei que me limitei a cumprir um dever de Cidadania no decurso de toda a minha actividade política contra o regime de Salazar e Caetano.



Tendo experimentado as cadeias do regime fascista de Salazar/Caetano anos depois experimentei as cadeias comunistas do regime de Luanda, em 1992, pois estive preso uma semana aquando da visita de João Paulo II a Angola.



Serei pois dos poucos que teve essa experiência, a par com Justino Pinto de Andrade e Vicente Pinto de Andrade, que cito por serem meus amigos, presos que estiveram no Tarrafal por defenderem a Independência de Angola e em Luanda por defenderem a Democracia em Angola e aos quais poderia juntar uns tantos mais.



No entanto, sempre me chocou o agraciar-se, em Portugal, os Combatentes do Ultramar com pensões e medalhas e o esquecer-se, em Portugal também, os Combatentes da Comunidade Lusófona…



Não que me faça confusão agraciar-se os Combatentes do Ultramar, representam uma parte deste país e deste espaço de expressão portuguesa, mas sim porque me revolta o esquecer-se os Combatentes da Comunidade Lusófona, que só nasceu porque houve quem lutou pela Independência de Angola, de Cabo Verde, da Guiné Bissau, de Moçambique, de Timor e de S. Tomé e Príncipe, contra, precisamente, os que defendiam o Ultramar, isto é uma forma de ver a Comunidade Lusófona, em lógica de Império, com uma capital, Lisboa.



A visão da Comunidade Lusófona em lógica imperial permanece ainda, em Portugal e nos restantes países da Comunidade e está presente em toda a maledicência, e na forma envergonhada como, nestes países, se trata a CPLP, ou ainda na forma como alguns consideram escandalosa a tomada de posições da SONANGOL em cada vez mais grandes empresas portuguesas em vez de em tal ver o renascer do espaço de expressão portuguesa.



Combati, com orgulho, contra a visão imperial do espaço de expressão portuguesa, como, também com orgulho, combati pela Democracia, ( e pela Independência), em Angola.



E, note-se, ao contrário dos Combatentes do Ultramar, ganhei as duas guerras, (ainda que tenha perdido muitas batalhas…) - a CPLP aí está à vista de todos e a Democracia está, agora, presente em todos os países de expressão portuguesa, com Angola rendida, finalmente, à Democracia, que o dr Jonas Savimbi para ela sonhou…









Com este contexto, não é de espantar que tenha ficado extremamente chocado com um parecer de um tal Conselho Consultivo da Procuradoria Geral da Republica que, felizmente, teve o voto, pelo menos esse, vencido, do Procurador Geral da República, Pinto Monteiro, (e mais 3 conselheiros), sobre a atribuição de pensões por méritos excepcionais na defesa da Liberdade e da Democracia em Portugal, (e cito não expressamente o EXPRESSO), perante a atribuição possível de uma pensão social a um militante do PCP, Luís Cartaxo, de 79 anos de idade.



A história de Luís Cartaxo, (que não me parece que conheça pessoalmente), não é a história de um dirigente importante dos Combatentes da Liberdade, ou dos Combatentes da Comunidade Lusófona. Mas é a história de um entre muitos dos que se opuseram ao regime de Salazar e Caetano, passaram pelas prisões políticas, mantiveram anos a fio a Resistência contra a Ditadura.



Os conselheiros que votaram contra consideraram que Luís Cartaxo terá participado em iniciativas “de efeitos e projecção limitados”… e, assim, votaram contra a atribuição da referida pensão.



Faz, esta apreciação, lembrar bastante a definição, em cenário de guerra de “danos colaterais” que, não deixando de ser verdadeira não deixa de ter o seu quê de cínica, de ridícula.



Faz, ainda, lembrar os anos a fio que o Estado português, (grávido de “conselheiros” deste calibre), levou a aceitar, e muito limitadamente, o stress traumático de guerra, doença que afecta largos dos milhares dos Combatentes do Ultramar…



Pois então e porque não fui Combatente do Ultramar, mas sim Combatente da Comunidade Lusófona, vou recordar um pouco…



Experimentem ficar 63 dias fechados numa sala, sem comunicar com ninguém, a não ser uma vez por semana para ir ao barbeiro, uma vez por semana, para ir ao parlatório e estar com a família, (no caso a minha mãe, por vezes o meu tio Alexandre, ou a minha irmã, Helena Justino e uma vez o meu irmão, Fernando que esteve preso uns meses, quando ele fez anos) e, claro, o carcereiro que abria e fechava a porta para dar o pequeno almoço, para me conduzir ao “recreio”, (solitário), para me dar o almoço e o jantar, (note-se que durante os primeiros 11 dias nem direito a visitas tive…).



Experimentem os interrogatórios.



Experimentem a dor verificada perante acusações que me eram apresentadas visivelmente porque os meus companheiros tinham, por múltiplas razões, nenhuma delas saudável, relatado factos da minha e da deles, vida, politica e não só.



Experimentem as noites, 11 meses de noites, encostado ás grades, a pensar no desastre da prisão, no fracasso de um projecto politico, na experimentação das limitações pessoais perante a violência, física e psicológica, do poder.









Experimentem as manifestações contra o Fascismo, contra a Guerra Colonial, contra a prepotência, dentro da Cadeia política, dentro de Caxias, as correrias à frente da janela, de gente armada, e nos corredores, também de gente armada, contra nós virados, porque estávamos a exprimir o que defendíamos.



Experimentem o medo que sentíamos das armas que se poderiam contra nós virar.



Experimentem uma greve da fome de 6 dias, as portas da cela mal amanhadamente barricadas, também com gente armada à frente das janelas e nos corredores, contra nós virados.



Experimentem de novo o medo das armas que se podiam contra nós virar.



Experimentem, claro, também, andar, de madrugada, a distribuir panfletos, aos que, de madrugada, se dirigiam para os seus locais de trabalho, ou manifestarem-se contra o Fascismo e a Guerra, nas ruas de Lisboa, e do Porto, e de Luanda, com a policia de choque aos calcanhares…



Experimentem sentir a dor da noticia dos que iam sendo presos…



Experimentem depois as noites mal dormidas, a pensar nas derrotas sofridas durante os tempos de Combate, mesmo depois do 25 de Abril, nos passeios nocturnos, revendo e revendo o vivido, e tentando perceber os rumos, pessoais e grupais.



Porque, na verdade, ainda que se queira não assumir, o Portugal Imperial viveu, durante os tais 48 anos de Fascismo, no que a estes Combatentes diz respeito, em estado de latente guerra civil…sem armas a maior parte das vezes, mas com violência, terror e dor sobre os que Combatiam.



Experimentem ainda viver uma semana numa prisão/esquadra de Luanda, nunca sabendo quando poderia ser agredido, ou mesmo morto. Experimentem, neste caso, viver uma semana a mais de 35º sem água para tomar banho, sem casa de banho para fazer as necessidades.



Luís Cartaxo viveu o seu Combate. Não foi, evidentemente, nem Álvaro Cunhal, nem Mário Soares, como eu também não fui.



Mas viveu o seu Combate pela Liberdade.



Há por aí uma lei que à qual me tenho recusado a recorrer, que estabelece direitos aos Combatentes pela Liberdade.



Mas parece que essa lei passa, nos seus resultados, por uns conselheiros que, beneficiando dos Combates dos Combatentes pela Liberdade, e dos Combates dos Combatentes da Comunidade Lusófona, (pois devem os cargos que têm e o estatuto que têm, precisamente a Luís Cartaxo e a outros como ele), e por tal se arrogam no direito de adjectivar e decidir quem tem direito à referida pensão social.





E que estabelecem, de forma não escrita, critérios que todos, excepto eles, desconhecem.



Como já disse não faço a mínima ideia de quem é Luís Cartaxo.



Ao que parece é comunista.



E depois?



Eu não sou.



Mas já fui, e tenho prazer em recordá-lo, maoista. Nos tempos a seguir ao 25 de Abril fui dos que fui perseguido pelos militantes comunistas, por ser maoista. Contra eles tive também Combates, nos quais aprendi a respeitar Mário Soares.



Na altura, os militantes do PCP diziam de nós que éramos agentes da CIA, por sermos, no contexto do combate internacional, antisoviéticos e pró americanos, coisa de que, note-se, me orgulho.



Curiosamente a Republica Popular da China mantém uma parte do seu sistema económico e político em um modelo comunista, mesmo que, felizmente, uma outra parte, a que funciona, se encontre em modelo de economia de mercado, enquanto que a URSS desapareceu do mapa enquanto sistema económico e politico dando lugar ao capitalismo mais selvagem de sempre o da Federação Russa de Putin.



Esse é outro Combate, que me distingue dos neo liberais, dos neocons, pois me situo na Esquerda Democrática, apesar de ter estado ao lado dos FreedomFigthers.



Mas nesse Combate, neste campo dos Direitos Humanos, considero um abuso aos mesmos o que estão a fazer a Luís Cartaxo.



Eu não solicitei a referida pensão, porque a considero vergonhosa.



Um Estado, (melhor um grupo de funcionários desse Estado), que se envergonha de uma parte da sua verdade - os Combatentes da Liberdade e os Combatentes da Comunidade Lusófona - e que estabelece leis, já de si minimalistas, desrespeitadoras de Combates Democráticos, que não atenta aos impactos psíquicos e físicos das prisões politicas e dos Combates antifascistas e pela Democracia, deixa-me envergonhado e conduz-me a este principio – o de recusar aceitar tal pensão, pois ela surge mais como esmola que como medalha e, para esmola, se tal for necessário, prefiro o acto de arrumar carros nas ruas de Lisboa.



No entanto, Luís Cartaxo tem toda a razão.



Orgulho-me do Combate que ele travou, orgulho-me dos anos em que estivemos, relativamente, juntos nas trincheiras do Combate Antifascista e Contra a Guerra Colonial.







Orgulho-me sim e recordo que a Espanha vizinha, (que matava os seus opositores a garrote), trata hoje os seus Combatentes de forma decente, que é o que se aceita.



É certo que é por isso que o Tarrafal, que hoje deveria ser um Museu da Liberdade da CPLP, continua ao abandono.



É certo que é por isso que o Tarrafal que deveria ser uma fonte, turística, de receitas, se encontra no lixo, que o edifício da PIDE/DGS, na António Maria Cardoso, em Lisboa, que deveria ser, a par com Caxias, com o Forte de Peniche, com o Aljube, Museus da Liberdade e fontes, turísticas, de receitas, são escoadouros de despesas,…ou espaços para “investimentos imobiliários”….



Porque, na verdade, estes funcionários, e as suas decisões, são, por principio, por si, uma despesa, inútil, e que já deveriam ter sido anulados do Orçamento de Estado…



Vingativos, ainda olham para o salazarismo serôdio, gerador de analfabetismo, atraso económico e social, e de destruição do espaço de expressão portuguesa, como algo de bom.



Mas, garanto, bom, bom, é mesmo Luís Cartaxo.



E eles não são mais que “poderosos” sem força, exemplos de iniquidade, do que de pior existe no espaço de expressão portuguesa e que o tem mantido impotente e incapaz de se reforçar neste contexto planetário



Joffre Justino



Email : jjustino@epar.pt
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Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

Ah Esta Angola!

Ah Esta Angola!


Está terminada mais uma fase do processo Angolano – a realização de eleições para a Assembleia Nacional de Angola decorreram como era de esperar, com aspectos graves de controlo dos eleitores, com potenciais fraudes nas contagens de votos, e de controlo das mesas de voto.

No entanto, as mesmas decorreram bem no plano geral – houve campanha, houve troca de opiniões, houve apresentação de programas politico partidários e houve a defesa da divergência de forma clara.

É evidente que os silêncios de alguns dos Observadores e o facto de os Observadores europeus se terem recusado a considerar as eleições como justas relevaram o que as acusações que ficaram no ar de vários partidos da Oposição, como a UNITA e a FpD, já anunciavam – terão havido abusos de poder e terão havido fraudes na contagem de votos.

De qualquer forma até ao momento nenhum partido da Oposição Angolana assumiu senão a existência desses mesmos abusos e não, como em 1992, a existência de uma Fraude generalizada.

Eu desta vez estava em Portugal, pelo que só me posso reger, para exprimir a minha opinião, pela apreciação do que me vão relatando e pelas queixas dos participantes no processo eleitoral.

Sou dos que acreditam nas capacidades dos Angolanos e por isso não sou dos que acreditam que os Angolanos, por serem Africanos, gerem mal, originando por esse erro, situações de impasse como os das mesas que não abriram, etc,…

Por isso dificilmente aceito que tudo tenha corrido na perfeição, dificilmente aceito que os resultados eleitorais apresentados sejam os reais.

Ainda que reconheça que seria difícil ao MPLA não ganhar estas eleições.


. As razões da vitória do MPLA


A primeira razão residiu no facto de a UNITA, estando no GURN, não ter assumido que era uma parte do GURN, que era governo portanto e que era parte importante da razão dos bons resultados do Governo nestes anos, 6, de governação.

A actual direcção da UNITA preferiu assumir que era uma parte, “emprestada”, no GURN, sendo mais Oposição que Governo.

Ao fazê-lo, distanciou-se, erradamente, dos bons resultados da governação destes últimos anos, passando a beneficiar sobretudo a Oposição restante por tal, dando crédito à mesma.

Mas como as melhorias eram crescentemente evidentes, a UNITA e a Oposição, acantonaram-se na critica negativa, o que nunca dá bons resultados eleitorais.

Por outro lado, como a restante Oposição se encontra fortemente dividida e limitada pela pressão de um Estado/Partido exageradamente presente, nunca saberemos até onde a mesma Oposição foi derrotada…

Em segundo lugar, a UNITA perdeu múltiplas oportunidades de se afirmar mesmo junto do eleitorado do MPLA. Recordo um texto saído na Comunicação Social Angolana, em Setembro de 2002, estava eu em Luanda, em que Lopo de Nascimento assumiu que poderia ser uma alternativa eleitoral, presidencial, se tivesse apoios para tal.

Perante este texto a UNITA preferiu o silencio ao apoio entusiástico que eu sugeri…perdendo assim a oportunidade de dividir o eleitorado e a elite MPLA.

Em terceiro lugar, a UNITA cometeu um grave erro a reaproximar-se dos EUA do Partido Republicano, do sr Bush, quando o MPLA assumiu uma aproximação à Republica Popular da China quando esta disponibilizou um espantoso empréstimo a Angola, para a sua recuperação económica, sobretudo infraestrutural.

Com esta posição a UNITA afastou-se de um instrumento que se veio a mostrar essencial para a recuperação dos danos resultantes de uma Guerra Civil onde ela tinha sido, com razão, na minha opinião, parte, quando era já visível que da famosa “Comunidade Internacional” e dos EUA pouco ou nada chegava do famoso apoio à recuperação de Angola presente no Protocolo de Lusaka.

Em quarto lugar, e aqui recordo um texto recente de um militante empenhado da UNITA, Carlos Lopes, “Porque razão, é que os delegados da UNITA, os fiscais, até os observadores, não apresentam provas do que aconteceu em sede própria e conforme a lei?! – Porquê que as Actas não mencionam a falta dos cadernos eleitorais, de boletins de votos, de aberturas tardias etc, etc, etc?! – Porquê é que a CNE aprova por unanimidade um instrutivo que o eleitor podia votar fora da residência, que esse voto ia para uma urna especial e cuja contagem seria feita noutro local, sem qualquer contestação dos Comissários da UNITA na CNE?! – O próprio mandatário da UNITA teve no centro de escrutínio antes do acto eleitoral, onde não estariam representantes dos partidos nem observadores, e não houve contestação nenhuma. Porque razão não aparecem dados sobre a abstenção e a UNITA nada diz sobre este assunto. Ou seja, houve a oportunidade de contestar, reclamar formalmente, denunciar situações com que a UNITA não concordava a partida,… mas que no momento próprio, não fez uso das prerrogativas legais!”,

A UNITA não preparou, como se viu acima, adequadamente, os seus militantes para o acto eleitoral nos seus aspectos de acompanhamento do mesmo e de contestação dos erros havidos…

Pode ser verdade a Fraude, (eu até acho que poderão ter existido fraudes pontuais…), só que não aparecem os factos comprovativos da mesma, por impreparação dos representantes da UNITA nas mesas de voto.

No entanto a UNITA tinha a experiência de 1992 para justificar uma preparação atenta dos seus representantes nas actuais mesas de voto e impor com os seus representantes, uma contagem de votos mais transparente do que a que terá havido…

Não o fez.

E o MPLA ganhou as eleições com os resultados que apresentou.


. Interessa mesmo é o Futuro


Perante o descrito acima, prefiro preocupar-me mais com o Futuro.

A UNITA deverá, internamente, estudar os erros que cometeu, que a conduzem para um impasse interno bem grave, pois deixou de apoiar tanto quanto o fazia o seu eleitorado militante, e preparar-se para os próximos actos eleitorais que a possam recompor.

Na minha opinião o candidato presidencial da UNITA deverá ser, reafirmo-o, uma personalidade do Regime do MPLA e não um membro da UNITA. Tal reforçará no eleitorado a ideia essencial de que a UNITA acabou com a fase da guerra civil, de vez.

Mas onde a UNITA deve concentrar todos os seus esforços é na realização de Eleições Locais, urgentes. O Estado Angolano deve assumir a Constituição, devendo assumir assim a descentralização feita esta democraticamente, isto é pelo voto Local. Já o defendi várias vezes e já vi por demais vezes a direcção da UNITA rejeitar esta opção, para acreditar que ela aconteça. Mas nunca é demais insistir.

Nestas eleições locais, deverá a UNITA fazer o maior nº possível de coligações interpartidárias para reforçar o papel da Oposição no país.

Finalmente, a UNITA deve purgar-se internamente de vez afastando todos aqueles que nunca estiveram, com ela ou com a Oposição, desde 1998.

Como deve também reequacionar a sua equipe directiva e os princípios direitistas que assumiu e que so a penalizaram.

Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 10:11
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Terça-feira, 2 de Setembro de 2008

E Quem Raio É Que É Dude?

Generaliza-se, definitivamente, a ideia do fim do mundo Unipolar herdado da Queda do Muro de Berlim. A invasão russa sobre a Geórgia deixa assim de ser vista como um acto de um tresloucado, (ainda que quando vejo Putin me sinta sempre inquieto…), para passar a ser estudada como um acto inserido numa estratégia e num plano.

Sinto-me, pois, melhor, porque acompanhado, (e em geral bem), o que é tipicamente humano, diga-se.

(Mas, caramba, gastar 14% das páginas de uma revista, que eu compro, o que implica um esforço meu, a escrever sobre Dude…quem raio é que pode ter tal ideia, mesmo quando não tem mais nada para apresentar?).

Quando li o texto de Joschka Fischer, um dos (ou ex) leaderes dos Verdes Alemães e membro do Governo maioritariamente socialdemocrata alemão, saído no Publico de Domingo, “É Preciso Realismo nas Relações com a Rússia”), ou o texto do ex-neocon, Francis Fukuyama, “Democracia e Poder, Os Rufias de Todo o Mundo Estão a Abusar da Sua Força”, saído no mesmo jornal, achei que devia partilhar convosco mais uma reflexão…

Abusando, enfim…

Mas tratam-se, com estes dois autores, de duas visões para este Novo Mundo onde já nos encontramos e isso merece reflexão.

Fukuyama tem-nos trazido, recentemente, algumas das mais interessantes reflexões do novo pensamento de Direita, em política e em economia, mostrando o quanto a Direita se pode Reformar, sendo-a. Fischer há-de ser sempre, ou por muito tempo pelo menos, um cidadão que tem o meu respeito, pela forma como geriu um, difícil, relacionamento na Esquerda, com honra.

Fischer entende defender um principio essencial – a Europa “não tolera o seu (da Rússia), regresso a comportamentos de potencia imperial” – e ainda deixar um essencial aviso – “é esta, (da União Europeia), inacção que está na origem da fraqueza europeia e da aparente força russa”.

Tratam-se de dois pensamento fundamentais para este novo Futuro onde já estamos. Alguns, muitos, (dos) políticos europeus estão enredados em teias de interesses que os travam na visão do Futuro e Fischer deixa-nos uma reflexão e um aviso a ter em conta.

Concordo com Fischer quando diz que não estamos em tempo de guerra fria, assim como quando acentua os dois tabuleiros da Rússia, a política energética e o alargamento das suas fronteiras, (politicas não de facto), para autodefesa.

Mas, aos 5 pontos que apresenta – a) aproximação à Turquia, b) travar o dividir para reinar da Rússia, e estabelecer uma politica europeia energética, c) fortalecer a capacidade de defesa da União, d) envolver a Ucrânia na UE, dar maior liberdade de circulação a todos os cidadãos do países vizinhos da União – acrescentaria um outro ponto, e) endurecer a politica da União em defesa dos Direitos Humanos e da Democracia no Mundo, isto é de uma real politica externa europeia, nas suas componentes económicas, sociais, politicas e de Valores.


Dou um exemplo com alguém que detesto, mas que teve um bom, mas incompleto, gesto. Berlusconi, pagou a divida que a Itália tinha com a Líbia, pelos danos do passado colonial com um acordo no valor de cinco mil milhões de dólares, o que foi bom, mas esqueceu-se de referir a necessidade de Democracia, de Direitos Humanos e de liberdade religiosa, no país de Muammar Kadhafi, (cada vez mais me espanto com a capacidade deste leader líbio…), o que só pode corresponder a Berlusconi.

Já Fukuyama, que recorda a necessidade de distinguir os autocratas fortes, como Putin, dos autocratas débeis, como Mugabe, distinção sem dúvida útil, assim como recorda a vitória ideológica da Democracia e das ideias liberais sobre o comunismo, tem uma frase lapidar, “ Se os autocratas de hoje aceitam inclinar-se perante a democracia, aceitam rastejar em frente do capitalismo”, acentuando a submissão dos leaderes russos e chineses ao “capitalismo”, um mote central deste seu texto.

Ora este conceito, o capitalismo, é, cada vez mais o mostra ser, um conceito limitado, inserido em um outro, esse que nos une, enquanto o anterior nos divide, o de economia de mercado.

Mas, antes de desenvolvermos a ideia acima, anotemos uma curiosidade – Fukuyama, no seu texto, refere 16 vezes a China, (com esta palavra ou equivalente), 11 vezes a Rússia, (com esta palavra ou equivalente), 6 vezes os EUA, (com esta palavra ou equivalente) e, veja-se, uma, (1), única vez a União Europeia, e sob a denominação Europa…

(Que raio, em vez do Dude que ninguém conhece, porque não ocupar uma das 8 páginas sobre Dude relatando esta discrepância no texto de Fukuyama?)

Sem abusar, penso que a utilização das palavras, ou dos conceitos, denota a preocupação central do autor sobre as ideias que apresenta. E, no caso de Fukuyama, a União Europeia ainda não é um conceito autónomo, uma preocupação enfim, dos EUA, pelo menos dele e Fukuyama é mesmo um opinion maker.

Não é que tal me preocupe por demais – a ideia de “Ocidente” nunca me afectou particularmente, e o assumir-me como angolano, nunca me pôs em oposição ao assumir-me como ocidental….pelo contrário. Desta forma o que me preocupa não é a não preocupação de Fukuyama sobre a União Europeia, no contexto deste texto, é o facto de sobre ela não sentir necessidade de reflectir.

E, voltando a Fischer, a importância que ele dá à politica de defesa da União Europeia é um bom colocar de um dedo na ferida…ainda que tenha esquecido outro membro tão importante quanto o da Defesa – o da política externa – razão certamente do desinteresse de Fukuyama.

Mas regressemos a este último. Para ele, o capitalismo deixou de estar em jogo, pois os adversários da Democracia já se curvaram ao mesmo.

Enfim, para Fukuyama, cumpriu-se parte importante da História…

Trata-se somente de reforçar, então a Democracia no Mundo, sendo que, no campo da economia, é somente importante saber se “…os lucros da produtividade económica vão acompanhar a procura global de produtos básicos como combustíveis, comida e água”, ou não, pois se não acompanharem cairemos na situação maltusiana de o ganho de um país ser a perda de outro.

Resta no entanto saber se estamos no bom caminho quanto aos produtos básicos. Na verdade, nos mesmos as incertezas são ainda demasiado grandes para saber os caminhos que teremos de percorrer… e por isso mesmo, vale a pena reflectir sobre o conceito de capitalismo e recordar que mesmo esta componente da História não está ainda completa...

Celso Furtado, (e não só…) acentua várias vezes as múltiplas formas possíveis de capitalismo e, apresentando-se de facto o mesmo de formas tão dispares, urge começar a aceitar que o conceito em si pouco diz sobre o tipo de sistema onde nos inserimos.

Por isso, prefiro distinguir a economia de mercado das economias capitalistas, onde elas, todas, se inserem, desde a de Mugabe à José Eduardo dos Santos, até à de Putin e Hu Jintao, ou ainda às de Sócrates, Brown e, noutro campo, Berlusconi…ou às de Bush e Obama, (caso este ganhe).

(Mas quem pode achar aceitável que se gastem 14% de uma revista, que se compra, onde despendemos portanto o nosso esforço e a nossa poupança, com o Dude?)

Admiro enormemente o forte sentido pátrio de Fukuyama que o leva a acentuar a supremacia americana, indiscutível, sem temer referir que “…o domínio dos Estados Unidos sobre o sistema mundial está em derrapagem”, uma verdade bushiana indesmentível, por consequência dos próprios erros deste leader americano.

Mas, na verdade, estando nós confrontados com tantos “capitalismos”, urge que reclarifiquemos os conceitos, por forma a que nos situemos adequadamente neste novo mundo, outra vez Bi(multi)polar.

Ora são as fragilidades ainda vividas nestes tempos de transição, energética, alimentar, de confrontos de interesses e projectos nacionais, e de ideias, mesmo que não de ideologias, (ainda que nada impeça o “regresso à Historia”, como Fukuyama não deixa de recordar, isto é, ou aos comunismos, aos fascismos…), que permitem acentuar a tese da guerra….

Não entendo que se possa, assim, assumir, (a não ser por razões de campanha eleitoral americana), que o inimigo central da Democracia sejam os desventurados dos islâmicos, do Irão ou outros, por fanáticos que sejam. São, sem dúvida, geradores de incertezas, de inseguranças, mas pobre do Irão na sua incompetência e inoperante inconsistência religiosa!

A tese da guerra vem, sim, sempre veio, dos ímpetos de potencia única dos autoritários com poder, como o próprio Fukuyama acentua neste texto, e, nestes, só pode vir, no momento, da Federação Russa, dado o seu passado de potencia bipolar, com ânsias falhadas a unipolar, pois alia a estas ânsias, o potencial tecnológico, insuficiente, mas existente.

E, aqui, uma nota de orgulho pessoal, pois sendo “pró americano” para muitos dos meus amigos, dá-me algum prazer verificar que é bem mais difícil, mesmo quando geram guerras inúteis, os EUA gerarem guerras definitivas, isto é, serem capazes de originar o fim de todos ou parte importante da Humanidade…ou, sobretudo, não assumirem as mudanças do Mundo.

Não será para já, estamos em fase somente de explicitação fronteiriça, nem creio que cheguemos, para já, a tal, (a URSS e o seu fim, são prova do bom senso estratégico e do sentido de Humanidade, de parte essencial da elite russa), mas é uma possibilidade muito forte esta.

Quanto à China temos outro aspecto de reflexão que Fukuyama não abordou, mas que é essencial para a compreensão desta potencia e até do que Fukuyama reflecte. Ela representa já, não o esqueçamos, mais de um quarto da população mundial a alimentar, a vestir e a habitar e tem-se mostrado mais interessada em continuar este caminho, (que, goste-se ou não Mao traçou), que em expandir, (apesar de ser, neste momento, a única potencia ainda comunista e não democrática, no mundo), o que a trava certamente nos intuitos dos caminhos da guerra.

Por isso, e apesar de ser citada 16 vezes neste artigo de Fukuyama, não é nunca apresentada enquanto potencia, para já, alternativa aos EUA.

(Imaginem que a China entra na Democracia. Algum de vocês acredita que o um quarto da população mundial, chinesa, aceitará, enquanto consumidores, que se gastem 14% de uma revista, com o Dude? Uma população fortemente habituada, milenarmente, à poupança forçada? Não valerá a pena, então, começar a ser mais bipolar, pensando nos consumidores, na comunicação social?).




Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 16:24
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