Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2005

Um Discurso de Esperança?

Todos sabemos, todos, aliás o dizemos, que Portugal, de 1985 a 2005, nos últimos 20 anos portanto, caminhou mal.

Nestes 20 anos, durante os quais beneficiámos de Financiamentos Comunitários à Modernização de Portugal, facto que nunca sucedera em Portugal, (não beneficiámos do Plano Marshall…à custa do dr Oliveira Salazar), teve o País 15 anos de Governos PSD, ou de maioria PSD, 6 anos de Governo PS e participou ainda no Governo, em 3 anos, o CDS/PP.

Estamos para iniciar, em breve, um novo Ciclo, durante o qual, tenderemos, nós os vibentes em Portugal, a deixar de ser beneficiários directos da UE, passando ao estatuto de crescentes Pagadores.

É neste contexto, de um novo Ciclo, que estas Eleições Presidenciais têm de ser ponderadas, na minha humilde opinião de cidadão lusoangolano, mais preocupado com Angola e a CPLP restante não Portugal, que com Portugal, mas atento ao País onde residi a maior parte do meu tempo desde 1969.

Nestes 20 anos houve mudanças, sem dúvidas.

O País encheu-se de Obras Públicas, dinamizou-se a formação profissional como nunca antes acontecera em Portugal, modernizaram-se alguns sectores de actividade, como sucedeu nas Telecomunicações e na Banca, a rede de transportes terrestres foi largamente reforçada, o saneamento básico acompanhou as alterações de ocupação espacial interna havidas, houve melhorias na Saúde e na Educação.

Perante este conjunto de procedimentos de uma certa inovação, tudo indicaria, em 1986, que o país estaria, em 2007, mais próximo da média europeia, o que, manifestamente, não sucedeu.

Ao contrário, Portugal continua na cauda da Europa e em posição cada vez mais distante esta mesma média….

Poderão ser apontadas inúmeras causas para que tal suceda e, delas, vou ater-me às que considero determinantes, no contexto destas próximas eleições presidenciais.


1. Portugal Caminha Sem Rumo


1.1 A CEE/UE


A Economia, é urgente repeti-lo até à exaustão, não são números, são Pessoas, são Mercados, (que são compostos de Pessoas), são empresas/organizações, ( compostas por Pessoas também), são utentes/Consumidores, Pessoas de novo.

As Pessoas agrupam-se em Comunidades, em Organizações, em Famílias, em Localidades.

Por tal, passam, até por simplificação, a parecerem-se com n.ºs - mas continuam a ser Pessoas.

Na verdade, as Pessoas, ao agruparem-se, necessitam capacidade de adaptação às organizações em causa, e de capacidade, da parte de alguém, de liderança capaz de estabelecer um Rumo, explicito, sentido, desejado e motivados.

Portugal teve lideranças, várias, na Governação, nestes 20 anos – Cavaco Silva, António Guterres, Durão Barroso, Santana Lopes e está a ter a liderança, recente, de José Sócrates.

Mas teve, Portugal, um Rumo?

Não.

Nunca foi claro para ninguém qual o Rumo que Portugal seguia.

Em 1976/7 Mário Soares mobilizou o País para um Rumo – a adesão à CEE. Entre 1976 e 1986 este Rumo mobilizou o País e ele extravasava as bandeiras, partidárias ou Comunitário/grupais e, por esse Rumo vitorioso, (aliado às suas extraordinárias capacidades de motivação), Mário Soares foi um vencedor nas Presidenciais de 1986.

Portugal aderiu à CEE.

A suceder tal, atingido o objectivo, Portugal deixava de ter um Rumo, pois o estar na CEE não establece um Rumo para qualquer País.

Estar num espaço, numa comunidade, não é definir um Rumo.

O que fazer nesse espaço, nessa comunidade, isso sim, é definir um Rumo.

1.2 Portugal é um País?

Portugal durante 5 século não foi um País, foi um Império, goste-se ou não.

E, entretanto, quando os outros países andavam, nos séc. XVII/XIX, com base nas suas recentes ou ainda em construção, nacionalidades, como a França, o RU, ou os EUA, a tentarem construir Impérios, depararam-se com o Português, que esbracejou o quanto pôde, para defender o Império que era, nunca se assumindo nem enquanto Nação e muito menos enquanto Nação Europeia.

Nesse percurso Portugal desgastou-se e perdeu até uma parte muito importante da sua elite.

Falo, em particular, da Construção do Brasil, feita com base nos 17 / 25 000 membros da elite portuguesa que abandonou Portugal com as Invasões Francesas e para cá so foram regressando, em parte minoritária, a partir de 1822.

Nesse percurso imperial, é certo, Portugal modificou-se e enriqueceu-se. Novos genes, novas culturas, novas formas de estar, inseriram-se em Portugal, reforçando-o…mas, ao mesmo tempo, esgotou-se e, na verdade, perdeu-se enquanto país.

Inopinadamente, após 1926, um Salazar, Velho do Restelo, como lhes chamaria certamente Camões, caiu num erro ainda maior que foi o pensar que era possível confundir um Estado, um aparelho de estado, com uma Nacionalidade… e perdido entre este marasmo de 34 anos, Portugal Império perdeu-se definitivamente nos seguintes 14 anos de uma Guerra desesperada, infindável, porque também já sem Rumo, feita sobretudo contra um Planeta inteiro que mudava aceleradamente desde 1945.


Passado o ano de todas as crises, 1974/5, Portugal reaparece com 89 000 km2, 10 milhões de habitantes, numa dita larga maioria caucasiana.

E toda essa larga maioria acreditou que tal era verdade.

Mas será que tal é mesmo verdade?


1.3 A CPLP que não foi Rumo


Mário Soares, Freitas do Amaral, Sá Carneiro e Álvaro Cunhal, foram, entre 1974 e 1986, os refundadores deste novo Portugal.

Dos 4, dois aderiram ao Rumo motivador que Mário Soares liderou e um manteve-se de fora deste Rumo, mas sempre em diálogo aberto com os restantes, diálogo duro, crítico, mas motivador, empenhado e, por tal, é sem dúvida um dos Refundadores de Portugal. É tal que justifica a forma como os Portugueses souberam despedir-se dele, à sua partida para o Oriente Eterno.

Terminado o tempo de um Rumo definido Portugal, as suas lideranças, deveriam ter redefinido um novo Rumo para este jovem país que Portugal era. Na verdade, o Portugal refundado tinha então, 12/11 anos.

Tal não sucedeu.

E a mãe de todos os consensos foi sendo o estar na CEE, depois UE, de forma, ainda por cima não debatida, não sentida, não motivadora para os 10 milhões de portugueses, que se foram, também eles, perdendo, individualmente….

Portugal perdeu-se, desorientou-se, dividiu-se, na Guerra Civil de Angola e de Moçambique, Portugal perdeu-se, desorientou-se, em todas as Guerras Civis da Guiné Bissau, so se encontrou pontualmente com Timor.

A Queda do Bloco Comunista iniciou-se em 1989. Preparou-se Portugal para tal? Analisou Portugal o seu impacto no Mundo e no que a Portugal dizia respeito?

Não.

Nascida a União Europeia era de todo o bom senso que Portugal soubesse que posicionamento deveria ter perante o evidente conflito nascente UE/EUA.

Portugal analisou, preparou-se, para este conflito?

Não.

Enfim, há já demasiados nãos neste texto como diria Camilo Castelo Branco…

Pior, dentro da UE foi alinhando crescentemente com o bloco anti UE representado pelo Reino Unido sem que tal fosse, sequer debatido.

Entretanto, recordemos que a Língua Portuguesa tem 280 milhoes de falantes, ( ou quase falantes segundo amigos meus…)

Portugal soube, em qualquer circunstância, dinamizar, desenvolver, este potencial Mercado, Social, Cultural, (editorial até…)?

Mais uma vez não….

A CPLP foi, tem sido, uma PME com um Orçamento de 500 000 euros…desmotivada, desligada das sociedades civis, alimentada por meros representantes de cada Estado respectivo… a CPLP nem sequer, até hoje, soube fazer da Língua Portuguesa uma Língua Oficial nas Nações Unidas…

A CPLP está, quase definitivamente, dolarizada, pois até o alinhamento francês da Guiné Bissau passa pelos dólares das Nações Unidas….eis o resultado do desinteresse de Portugal na CPLP.

Esta larga comunidade, intercontinental, poderia ter sido a mola motivadora da presença de Portugal na União Europeia, o seu elemento distintivo, definidor de um Posicionamento próprio nesta União.

Portugal acantonou-se nos financiamentos comunitários, fechou-se no espaço continental desta UE cada vez mais somente uma Europa caucasiana e isolou-se das suas raízes de 5 séculos.

2. Estas Presidenciais


2.1 Um Intróito….

Hoje discute-se, com nºs e mais nºs, de novo, a fragilidade estrutural portuguesa, o seu, ( e dos portugueses…), endividamento crescente, as dificuldades orçamentais, as ordens dos burocratas da União sobre o mesmo, a incapacidade de retoma da economia, (com mais e mais nºs,…sempre revistos…sempre em baixa).

Mas, nesta campanha Presidencial, excepto Mário Soares, ninguém se recorda que a Economia são as Pessoas e que para haver retoma estas mesmas Pessoas precisam de algo simples e difícil ao mesmo tempo – precisam de acreditar.

A Economia, ela própria, essa ideia abstracta, para se sentir sã, tem de se sentir liderada e encaminhada para um Rumo.

Nos últimos 20 anos nem Cavaco Silva nem António Guterres deram alguma vez mostra de terem Rumo Para Portugal.

Em ambas as Governações Portugal perdeu porque se perdeu, como se perdeu com Durão Barroso, ( que hoje, alegremente perde e se perde na União Europeia…)…

Felizmente, nas Governações de Cavaco Silva houve ainda o bom senso, a capacidade motivadora de Mario Soares. De tal forma isto é verdade que a segunda vitória Presidencial de Mário Soares se transformou em um passeio quase unânime.

Mário Soares foi tentando dar Rumo a Portugal, realinhar grupos e comunidades, entre erros crassos de estratégia.

António Guterres, nascido da demonstração dessa necessidade de um Rumo, foi, de 1995 a 2001, um falhanço precisamente porque se limitou a repetir a esperança que os nºs tudo fariam….desleixando a linha que o conduziu à vitória em 1995, a busca de um Rumo para Portugal.

Daí, certamente, o seu cansaço, a sua desilusão, a sua fuga.

Tal como terá sucedido o mesmo com Durão Barroso.


2.2 A sensação e a constatação do Desastre


Homem de geração que sou, acredito que quer João Soares, quer Ferro Rodrigues, com opções diversas talvez, se tivessem tido o apoio à época do eleitorado, ( e do PS…), teriam procurado garantir uma governação com um Rumo, uma linha de conduta, preconizada por Mário Soares.

Não sucedeu tal e o país esteve em roda livre por dois anos, (apesar de mais e mais debates à volta de mais e mais nºs…), agravando-se a crise, a orçamental, mas, sobretudo a de confiança, a de crença em Portugal, em si próprio, aguardando todos o resultado da governação Sócrates, infelizmente, cada vez mais com mais descrença.

E, de forma curiosa, vamos alimentando na comunicação social esta terrível sensação, esta dolorosa constatação, de um caminho certo para um desastre previsível.

2.3 Portugal ( e a CPLP), Precisam de Mário Soares

O Rumo de Portugal, na minha opinião, decorrente do que atrás referi, passa por ser a interligação da CPLP restante com a União Europeia.

Para que esse Rumo aconteça Portugal e a CPLP restante necessitam de um dos Refundadores de Portugal, deste novo Portugal, o já não Império, por forma a que seja o já não Império sem traumas, sem complexos de inferioridade, assumidos ou escamoteados, como vimos voltar a surgir na boca, inclusive, de um governante e, claramente ao arrepio quer de Mário Soares quer do MNE, Freitas do Amaral, outro dos Refundadores deste País novo.

Reassumo que sem os 4 Refundadores, Mário Soares, Freitas do Amaral, Sá Carneiro e Álvaro Cunhal, duvidosamente Portugal existiria, e, muito possivelmente, mesmo esta União Europeia onde Portugal se insere, seria bem diversa.

Na verdade, a Europa esteve no limite de viver momentos de elevada convulsão, resultante de uma muito possível Guerra Civil neste rectângulo à beira mar plantado.

Muitos não se lembrarão, outros tantos fazem por o esquecer, ou, mesmo ridicularizar, mas o 25 de Novembro existiu, valeu a pena vivê-lo em defesa da Democracia e vale a pena recordá-lo.

É neste contexto e vivendo o momento que ora este País vive, que não fôra a candidatura de Mário Soares e eu, cidadão de Esquerda, votaria mais facilmente em Freitas do Amaral, pelas razões que aduzi, que em qualquer outro candidato ora perfilado.

Precisamente porque, distanciado que me sinto da vivência partidária activa, preocupado que vivo com a crise ora vivida, de emoções, de valores, afirmo a premência de uma Presidência exercida por um dos 4 Refundadores deste Portugal renascido, já que cá vivo e que cá voto.

Realço ainda que não é certamente por acaso assistirmos a esta convergência de práticas entre os 2 Refundadores vivos, Mário Soares e Freitas do Amaral.

Ambos são europeístas convictos, tão convictos que não se limitam ao discurso do pró Europa, vão até à critica cerrada, publica, explicita, aos que na UE, com responsabilidades na UE, a boicotam activamente como faz o sr Blair, com a sua governação pró Bush.

Ambos assumem uma União Europeia separada, autonoma, libertada, dos EUA.

Ambos sabem a importância, a determinância mesmo, da Política Internacional e da necessária, (e que estamos a viver…), recomposição dos Blocos Internacionais.

Ambos, um à Esquerda e outro mais à Direita, pensam independentemente e agem independentemente.

Ambos sabem o papel da CPLP restante na União Europeia e sabem como este papel é determinante para este Portugal novo ora com 89 000 km2. Como refere Mário Soares, “fazer de Portugal um país de referência, na Península Ibérica, em cujo mercado estamos integrados, na Europa, no Atlântico, com destaque para o Brasil, nos países lusófonos e no vasto espaço da Lusofonia.”

Ambos sabem que a Economia é feita por muito mais que pelos nºs, é feita por Pessoas e para Pessoas, agregadas em famílias, comunidades, e não por Mercados abstractos de moedas abrstractas e de nºs vazios, (ambos leram enfim, Adam Smith e Ricardo…).

Felizmente só temos, de entre os Refundadores, um candidato, Mário Soares.

Tal facilita a opção, apesar da candidatura ser de Esquerda e de Freitas do Amaral não o ser, pois ambos reflectem quer Portugal quer a CPLP restante em linhas onde facilmente convirjo.

Soares traz-nos pois um Rumo para este Portugal novo, e, de novo um Rumo que vai para além da clivagem Esquerda/ Direita. Citando-o de novo, “Precisamos de sacudir o pessimismo. No amplo debate de ideias que espero suscitar, as portuguesas e os portugueses encontrarão bons argumentos para pensar que Portugal tem futuro e hoje, como no passado, vamos de novo vencer a crise que nos afecta. Para lá do deficit – que, em parte, depende da crise mundial – para lá da subida imparável do preço do petróleo e do estado de pré-recessão da economia europeia – que também nos condiciona muito – há outras realidades. O que conta, finalmente, são as pessoas e a sua determinação de lutar. E, nesse sentido, a coesão social é um elemento essencial do desenvolvimento económico.”

Não sendo somente português, tenho andado bastante mais preocupado com Angola e a CPLP restante que com Portugal, isto para além das normais preocupações profissionais que tenho no âmbito de uma cooperativa de Ensino e Formação Profissional.

Mas neste dia prévio ao 25 de Novembro, neste seu 30º aniversário de data que cumpriu o 25 de Abril, mas que mal foi comemorado, não resisti a recordar o que nesse período vivi e dessa recordação nasceu-me a premência deste texto.

Nessa altura, salvar Portugal de uma Ditadura prósoviética era, também, potenciar a salvação da CPLP Africana, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e fiz com gosto esse combate Democrático.

Porque o Mundo já na altura estava bastante interligado. Mas porque o Mundo hoje ainda mais o está, mais razão tenho para me perfilar por detrás deste Refundador de Portugal e de, com ele, me encontrar na CPLP, porque, “o que constitui uma enorme riqueza, sendo a primeira delas a nossa língua comum falada hoje por cerca de 200 milhões de seres humanos, a terceira língua europeia”.

Porque Mário Soares, Refundador deste novo Portugal pode, e deve, contando com Freitas do Amaral, outro Refundador, liderar, nesta globalização que caminha mal, cumprir como sempre fez, no essencial que é, “Acreditar no futuro de Portugal – não por razões emocionais mas por forma consistente, articulada e racional – unir os portugueses, em redor de uma grande ambição nacional, no quadro europeu, atlântico e da lusofonia, contribuir para lhes proporcionar uma visão cultural do futuro – aberta, humanista e generosa…”



Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 11:55
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Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2005

Eleições em Angola?

Algo parece indicar que as eleições em Angola, previstas para 2006, estão mais uma vez em risco de não acontecer… As razões, infelizmente, são as habituais e a comunicação social angolana descreve-as passando pelo habitual.
De novo surgem as insuficiências na emissão dos Bilhetes de Identificação angolana, ou o problema de desminagem de partes importantes de Angola. Mas, em acréscimo, surgem agora as ditas fragilidades dos inúmeros próprios partidos políticos angolanos, os do Poder e os da Oposição…
Assim, a 28 de Novembro último, um comunicado da UNITA, partido que teimo em assumir como sendo um dos dois partidos do Poder, assumia estas fragilidades internas com um comunicado inacreditavelmente não esclarecedor onde se referia que haveria a “necessidade de se acompanhar com atenção redobrada o andamento do processo eleitoral, de forma a certificar-se de que os passos dados na implementação das tarefas conducentes à realização das eleições estejam de acordo com o espírito e a letra da Lei Eleitoral vigente, evitando assim a execução de medidas que sugerem o esvaziamento das funções da Comissão Nacional Eleitoral a favor de Comissões Executivas.”
Uma tal afirmação, saída de uma reunião do “Presidente da UNITA, Isaías Samakuva... com os membros da Comissão Política residentes em Luanda”, denuncia as enormes dificuldades internas deste Partido e vem acentuar o seu estado de partido irremediavelmente atravessado por divergências lamentáveis, até porque pouco politicas, ou pelo menos não assumidas enquanto tal no exterior…
Segundo o semanário ANGOLENSE, o essencial estaria até na “impreparação da maior parte dos partidos políticos…”, mas continuaria por via de “dificuldades técnicas de monta que estão atrasar o cronograma de tarefas preparatórias do sufrágio.”
Penso que a ser verdade o que se relata e o que se ouve por Angola, que conduzirão a CNE a anunciar a não realização de eleições em 2006, então estaremos perante um grave anúncio político que merece um reparo atento dos que, como eu, acompanham a politica angolana. É claro que, por enquanto, tudo não passa de especulação, aproveitando-se o facto de Sª Exa o Presidente da República não se ter referido em 11 de Novembro à marcação efectiva do acto eleitoral
Tal, ao que parece, resulta também da forma como os Partidos Políticos angolanos andaram a reiterar “junto do Presidente que não estão preparados” para este pleito eleitoral. Ao que parece ainda, o Presidente José Eduardo dos Santos tem entendido que não deve aproveitar-se desta situação, não pondo a nu esta realidade “por razões éticas”, que, a existirem, são particularmente respeitaveis.
No entanto, para os cidadãos, este comportamento dos Partidos Políticos é inaceitável. Em Angola, os cidadãos e as cidadãs anseiam por eleições, única forma de garantir um regime estável e democraticamente eleito, e, também, eleitoralmente responsabilisado junto deles.
Curiosamente, alguns sectores do MPLA ainda não entenderam que esta dilação de prazos lhe é francamente desfavorável. Assim, alguns analistas “compram” a ideia deste partido necessitar ainda de tempo para “apresentar a maior quantidade possível de realizações”, o que escamoteia o outro problema com que se defronta este Partido – o de estar há demasiado tempo no Poder sem ser por consequência de uma decisão eleitoral dos angolanos…
Esses mesmos analistas apresentam o que se passa na UNITA, nesta matéria, de forma bem crua. Assim, a actual direcção deste Partido estaria a “diligenciar para substituir uma série de membros seus das comissões provinciais eleitorais, prevendo-se que dentro de dias faça chegar essa pretensão à Assembleia Nacional.”, demonstrando-se desta forma a caça ás bruxas interna que nele se vive…
É lamentável, de facto, que se esteja a viver este processo pré eleitoral na hipótese do seu adiamento, por razões menores que passam pelas “impossibilidades” dos partidos que estarão presentes neste pleito eleitoral que já tarda. Tão lamentável que pensei ser importante reflectir esta minha preocupação aqui.
Joffre Justino
in O LIBERAL
publicado por JoffreJustino às 14:51
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Domingo, 4 de Dezembro de 2005

outra vez o Carlos Muralha....entre ensinos e os mas...de Portugal

Joffre

Estava eu aqui em profunda crise de pensamentos estúpidos e lembei-me:

Imagine o meu caro que é professor, que é dia de exame do 12º ano e vai ter de fazer uma vigilância.

Continue a imaginar. O despertador avariou durante a noite. Ou fica preso no elevador. Ou o seu filho, já à porta do infantário, vomitou o quente, pastoso, húmido e fétido pequeno-almoço em cima da sua imaculada camisa.

Teve, portanto, de faltar à vigilância. Tem falta. Ora esta coisa de um professor ficar com faltas injustificadas é complicada, por isso convém justificá-la. A questão agora é: como justificá-la? Passemos então à parte divertida.

A única justificação para o facto de ficar preso no elevador, do despertador avariar ou de não poder ir para uma sala do exame com a camisa vomitada, abadalhocada e malcheirosa, é um atestado médico.
Qualquer pessoa com um pouco de bom senso percebe que quem precisa aqui do atestado médico será o despertador ou o elevador. Mas não. Só uma doença poderá justificar a sua ausência na sala do exame.

Vai ao médico. E, a partir deste momento, a situação deixa de ser divertida para passar a ser hilariante.

Chega-se ao médico com o ar mais saudável deste mundo. Enfim, com o sorriso de Jorge Gabriel misturado com o ar rosado do Gabriel Alves e a felicidade do padre Melícias. A partir deste momento mágico, gera-se um fenómeno que só pode ser explicado através de noções básicas da psicopatologia da vida quotidiana. Os mesmos que explicam uma hipnose colectiva em Felgueiras, o holocausto nazi ou o sucesso da TVI.

O professor sabe que não está doente. O médico sabe que ele não está doente. O presidente do executivo sabe que ele não está doente. O director regional sabe que ele não está doente. O Ministério da Educação sabe que ele não está doente. O próprio legislador, que manda a um professor que fica preso no elevador apresentar um atestado médico, também sabe que o professor não está doente.

Ora, num país em que isto acontece, para além do despertador que não toca, do elevador parado e da camisa vomitada, é o próprio país que está doente.

Um país assim, onde a mentira é legislada, só pode mesmo ser um país doente.

Vamos lá ver, a mentira em si não é patológica. Até pode ser racional, útil e eficaz em certas ocasiões. O que já será patológico é o desejo que temos de sermos enganados ou a capacidade para fingirmos que a mentira é verdade. Lá nesse aspecto somos um bom exemplo do que dizia Goebbels: uma mentira várias vezes repetida transforma-se numa verdade.

Já Aristóteles percebia uma coisa muito engraçada: quando vamos ao teatro, vamos com o desejo e uma predisposição para sermos enganados.

Mas isso é normal. Sabemos bem, depois de termos chorado baba e ranho a ver o "ET", que este é um boneco e que temos de poupar a baba e o ranho para outras ocasiões.

O problema é que em Portugal a ficção se confunde com a realidade. Portugal é ele próprio uma produção fictícia, provavelmente mesmo desde D.Manuel I, que Deus me perdoe.

A começar pela política. Os nossos políticos são descaradamente mentirosos. Só que ninguém leva a mal porque já estamos habituados. Aliás, em Portugal é-se penalizado por falar verdade, mesmo que seja por boas razões, o que significa que em Portugal não há boas razões para falar verdade. Se eu, num ambiente formal, disser a uma pessoa que tem uma nódoa na camisa, ela irá levar a mal. Fica ofendida. Se eu digo isso é para a ajudar, para que possa disfarçar a nódoa e não fazer má figura. Mas ela fica zangada comigo só porque eu vi a nódoa, sabe que eu sei que tem a nódoa e porque assumi perante ela que sei que tem a nódoa e que sei que ela sabe que eu sei.

Nós, portugueses, adoramos viver enganados, iludidos e achamos normal que assim seja. Por exemplo, lemos revistas sociais e ficamos derretidos (não falo do cérebro, mas de um plano emocional) ao vermos casais felicíssimos e com vidas de sonho. Pronto, sabemos que aquilo é tudo mentira, que muitos deles divorciam-se ao fim de três meses e que outros vivem um alcoolismo disfarçado. Mas adoramos fingir que aquilo é tudo verdade.

Somos pobres, mas vivemos como os alemães e os franceses. Somos ignorantes e culturalmente miseráveis, mas somos doutores e engenheiros. Fazemos malabarismos e contorcionismos financeiros, mas vamos passar férias a Fortaleza. Fazemos estádios caríssimos para dois ou três jogos em 15 dias, temos auto-estradas modernas e europeias, mas para ver passar, a seu lado, entulho, lixo, mato por limpar, eucaliptos, floresta queimada, barracões com chapas de zinco, casas horríveis e fábricas desactivadas.

Portugal mente compulsivamente. Mente perante si próprio e mente perante o mundo.

Claro que não é um professor que falta à vigilância de um exame por ficar preso no elevador que precisa de um atestado médico. É Portugal que precisa, antes que comece a vomitar sobre si próprio.

Eu sei que é estúpido mas lembrei-me.


Carlos Muralha
publicado por JoffreJustino às 18:48
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