Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Um texto enviado por email de Cristovão de Aguiar e que aqui coloco com gosto e autorização MUCH ADO ABOUT NOTHING (MUITO BARULHO POR NADA)OU A BÍBLIA SEGUNDO SARAMAGO

Cristóvão de Aguiar
aguiarconraria.blogsome.com


Tomei de empréstimo a Shakespeare o título de uma das suas mais hilariantes comédias. Penso que retrata bem a situação criada à volta da última obra de José Saramago, Caim. O muito barulho continua a furar-nos os tímpanos, e há-de continuar até à náusea, tanto na imprensa escrita como na difundida: artigos, entrevistas, opiniões públicas na rádio e televisão, em que ouvintes e telespec¬tadores opinam sobre o que sabem e não sabem, maneira muito portuguesa de ser mestre em toda a arte, ou burro em qualquer parte, enfim, tudo o que ima¬ginar se possa: até teólogos, politólogos e outros pedagogos de alto coturno… A origem de tal alvoroço na capoeira da paróquia reside nas declarações, estratégicas ou não, do autor do livro, no dia do seu lançamento, em Penafiel. O nada de toda esta lagariça será o romance que, na minha modestís¬sima opi¬nião, está longe de merecer tamanho alarido.

Segundo o primeiro prémio Nobel português da Literatura, a Bíblia mais não será do que um “manual de maus costumes” e que “é pre¬ciso ter muito cuidado quando se lê a Bíblia”… Esta última afirma¬ção fez-me viajar através do tempo, como a per-sonagem Caim do romance do mesmo nome, e ouvir de novo, quietinho para não levar um beliscão da catequista, o padre da minha freguesia, aí por volta de 1949, na altura em que lá che-garam pastores de credos evangéli¬cos, que iam tentar a sorte com o sentido de pescar algumas almas para o seu seio. A lei¬tura da Bíblia constituía o seu principal argu¬mento, uma vez que o catolicismo pouco ou nada ligava ao Livro: quem não lia a Bíblia, sustentavam os pastores, não poderia com¬preender a palavra de Deus nem a doutrina de Jesus, nem muito menos as inovações e falsidades do Romanismo…

No Domingo seguinte, o padre, na homilia: “A Bíblia é de facto o livro sagrado dos cristãos, mas, caríssimos irmãos em Cristo, não deveis lê-lo, porque, além de difícil, não tendes luzes nem letras para compreender o verdadeiro alcance das palavras lá escritas quase sempre em parábolas; contentai-vos, irmãos, com as explica¬ções das homilias dominicais, e não aceiteis a oferta desse livro, que sei que andam a dá-lo a quem quiser, pois, e caso aceitar¬des, entrará em vossas casas um livro do diabo…” Saramago não é católico, muito menos sacerdote, mas, as pala-vras por ele proferidas, numa entrevista ao Jornal de Notícias, de 19 de Outubro, deram-me, por instantes, a sensação de estar ouvindo o pároco da minha freguesia, nos meados do século passado… As palavras pouco se diferençam, e os argumentos são mesmo os mesmos… Não sei se isto abona ou não a favor do escritor que tem procurado, sem êxito, destruir alguns mitos do Velho e do Novo Testa¬mento…

O escritor pode e deve destruir mitos. Mas, para derrubá-los, é mester saber em profundidade o que quer destruir. Lembro James Joyce que, com o seu romance Ulysses, destruiu a cul¬tura clássica porque era um grande conhecedor e especialista nessa matéria. O próprio José Saramago afirma que “Nunca fui um leitor assíduo da Bíblia, mas penso que a conheço bastante bem”… Será que basta? Será assim tão fácil destruir um con-junto de livros de estilos e géne¬ros literários diferentes que ser-viram de base e inspiração à Litera¬tura e Cultura Ocidental: poesia, teatro, narrativa, música, pintura, escultura e até ao cinema? Na Faculdade de Letras que frequentei, um dos professores de Literatura avisava logo no início do ano: Quem não leu a Bíblia não pode compreender a Literatura Alemã, Inglesa, Portuguesa, Americana… Portanto, quem ainda o não fez, trate de colmatar essa grave lacuna… Tão ateu como Saramago seria esse professor, o que dá que pensar, sobretudo porque o Nobel Português afirma com a segurança de quem acaba de inventar a roda que a Bíblia devia estar escondida, em casa, fora do alcance das crianças, como se de medi¬camento perigoso se tratasse…

Sabendo-se pouco, isto é, sem a profundidade necessária, sobre o que se quer destruir, distorcer ou criticar, pode entrar-se num jaco¬binismo sem consequência, apenas para chocar o burguês, ou num anticleri¬calismo primário, como aconteceu durante o século XIX. Nesse tempo, o Deus do Velho Testamento era já considerado cruel, sangrento, bruto, tudo quanto dele diz agora, em segunda mão, o nosso Nobel da Literatura. Nada de novo, portanto! Dou como exemplo o poeta Guerra Junqueiro e o seu livro A Velhice do Padre Eterno. Quem o lê hoje? Quem se incomoda com as suas dia¬tribes? Ouçamos Guerra Junqueiro: “As crianças têm medo à noite, às horas mortas, / Do papão que as espera, hediondo, atrás das portas […]. Não te rias da infân-cia, ó velha humani¬dade, /Que tu também tens medo do bárbaro papão, /Que ruge pela boca enorme de um trovão, /Que aben¬çoa os punhais san¬grentos dos tiranos, /Um papão que não faz a barba há seis mil anos, /E que mora, segundo os bon¬zos têm escrito, /Lá em cima, detrás da porta do infinito!” Tudo isto é fogo-de-artifício, bem escrito, mas que nada adianta, porque não desce aos infernos da dúvida…

É tempo de citar o Eclesiastes: “Não há nada de novo neste mundo. Aparece qualquer coisa e alguém diz: ‘Olha, isto é novo!’ Mas tudo aquilo já existiu noutros tempos, muito antes de nós. Já ninguém se lembra das coisas passadas e o mesmo acontecerá com as do futuro; não se recordarão delas os que vierem mais tarde” […]. É muito difícil ser original. E Sara¬mago não o é. Pelo menos neste seu último romance, Caim, que se situa no Velho Testamento, nem muito menos no Evangelho Segundo Jesus Cristo, que tem como campo de confronto o Novo Testamento.

Escrevi acima que este livro não merecia o alarido que dele está sendo feito. Por duas razões: Primeira, porque o barulho não se deve à leitura do livro; segunda, porque não se trata de uma obra maior do escritor. Foram sopradas as trombetas de Jericó, não cuido nem interessa se intencionalmente, e derrubaram-se os muros da nossa cidade ou paróquia provinciana, que mostrou à saciedade que milhares dos seus habitantes ainda não saíram da idade da pedra no tocante à literatura, mas correram às livra-rias para se abastecerem do romance e grande parte deles tam-bém da Bíblia. Afinal, Sara¬mago está a ser colaborante ou então o aviso grave que fez sobre a perigosidade da Bíblia deu efeito contrário. Não conseguiu apear o mito!

José Saramago, quanto a mim, atingiu o apogeu em No Ano da Morte de Ricardo Reis, embora os dois primeiros romances, Levantado do Chão e Memorial do Convento, sejam duas obras de grande valor. É humano e natural que um escritor tenha cur-vas ascendentes e descendentes. Quando se alcança o cume, o que se segue é a descida. O que é preciso é saber sair a tempo, sem dramas, a fim de se não estragar o bom que para trás ficou. Saramago, com Caim, continua em linha descendente. Há por lá muitos lugares-comuns e expressões infelizes, impróprios de um escritor da sua envergadura. Escrever um livro em quatro/ cinco meses, como con¬fessou numa entrevista televisiva, se bem que o assunto lhe esti¬vesse a latejar há muitos anos, não será bem avisado. Aquando da publicação de A Viagem do Ele¬fante, título que pode ser interpre¬tado tanto no sentido literal como no figurativo, sendo que este, no meu entender (a inter¬pretação é livre), pode ser interpretado como o percurso de um grande escritor (o elefante) que, com esse livro, iria terminar a sua carreira literária. Com certeza que alguns dos críti¬cos maldi-zentes da sua obra anterior o intuíram, porque logo se apressa-ram ao beija-mão ou ao panegírico fúnebre: “Trata-se de um hino à Língua Portuguesa”, cantaram em coro… A nossa língua deve ser um volumoso hinário de que já nin¬guém se lembra nem das músicas nem das letras. Excitações… Do romance Caim foi escrito: litera¬tura pura… Quem há-de gabar
publicado por JoffreJustino às 10:16
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2012

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.posts recentes

. Primárias - Uma Otima Pro...

. O 11 de Setembro e eu pr...

. Um recado a Henrique Mont...

. Na Capital Mais Cara do M...

. Há Asneiras A Não Repetir...

. “36 Milhões de Pessoas Mo...

. Ah Esta Mentalidade de Ca...

. A Tolice dos Subserviente...

. A Típica Violência Que Ta...

. Entre Cerveira e a Crise ...

.arquivos

. Julho 2012

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Agosto 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

blogs SAPO

.subscrever feeds