Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

Portugal Na Encruzilhada (2)…(Tenho Um Amigo…)

Alguns amigos acham que estou numa fase intelectual reaccionária, por não largar esta ideia do Portugal Imperial.
Abaixo cito um desses amigos, que entendeu a vantagem deste debate, mesmo que só negativamente, além de outro, Eduardo Pereira Marques que avança com um modelo de análise também bastante interessante.
No entanto, na verdade, e é importante que o diga, esta minha ideia não tem nada nem de original nem de reaccionária.
Valerá pois, para isso, a pena, neste momento, recordar Darcy Ribeiro, de facto a raiz das minhas reflexões .
Cidadão Brasileiro, nascido a 26 de Outubro de 1922, com uma vastíssima obra, antropólogo, mas também sociólogo, mas também educador, mas também político, o primeiro reitor da Universidade da Brasília, foi ainda Ministro da Educação do Brasil entre 1962 e 1963, na governação de João Goulart, foi também Ministro chefe do Gabinete Civil da Presidência da República do Brasil, de João Goulart, derrubado por uma ditadura militar fascista, “pró americana”, assim como foi, depois, Senador pelo Rio de Janeiro, até à sua morte, por cancro, em 1991.
Homem de Esquerda, merece ser citado, para já através de Edison Carneiro, no texto de apresentação, em capa, da 3ª edição, 1975, do seu livro O Processo Civilizatório, Etapas da Evolução Sociocultural (3ª edição, editora Civilização Brasileira),
“Com este ensaio a antropologia brasileira ganha categoria mundial…O ensaio cobre os últimos 10 000 anos. Nesta pequenina fração do milhão de anos da existência do homem sobre a Terra não menos de sete revoluções tecnológicas…Dessas revoluções teriam resultado 18 formações socioculturais, estruturadas por obra e graça de 12 processos civilizatórios distintos…A estas sucederá, sob a égide da futura Revolução Termonuclear, a civilização da humanidade, que, reunindo todos os povos da Terra no mesmo processo de civilização, concretizará a antevisão de Marx, de uma sociedade em que já não vigoram as diferenças étnicas, raciais e regionais que dividem os homens”.
Enfim, 1975, bem antes pois, desta fase que vivemos, conhecida pela Globalização…
É certo que nem todos os caminhos foram percorridos tal qual Darcy Ribeiro anteviu, e ainda bem, pois a vida tem esta virtude que é o dar maturidade ao que sobre ela se escreve, mesmo quando o saber não se comprova na totalidade.
Mas regressemos ao que interessa.
E o que interessa é que este meu amigo, que justifica o subtítulo deste texto, afirmando a minha boa escrita, me assume enquanto ignorante, (direito que claro que tem), por defender o que defendi no texto anterior.
Podia, claro, ter-me limitado a recorrer a Fernando Pessoa.
No entanto este pensador, é por demais conhecido enquanto poeta, e não enquanto sociólogo, (ainda que se assuma como tal) e, por outro lado é demasiado entendido enquanto intelectual de Direita, mesmo que na verdade não o seja.
Citemos então Darcy Ribeiro,

“Os Impérios Mercantis Salvacionistas surgem na passagem do século XV ao XVI em duas áreas marginais – tanto geográfica quanto culturalmente – da Europa: a Ibéria e a Rússia…A Ibéria, como Península avançada sobre o Atlântico, lança-se à conquista e à subjugação de novos mundos no além mar. Portugal, que vinha explorando a costa africana…contorna o Cabo da Boa Esperança e, afinal, estabelece a rota marítima para a Índia….A Espanha, atingindo as Antilhas com as expedições de Colombo, se expande a partir daí, por todo o continente americano…A Rússia, como extremidade oriental Europa, estende-se sobre a Eurásia continental, acabando por chegar também à América com a ocupação do Alasca…Por essas expansões simultâneas, é a Europa que explode lançando as bases da primeira civilização mundial. Mas é também a Europa mais islamizada, feita herdeira tanto das inovações tecnológicas como dos princípios institucionais do património muçulmano.”, (pág. 133).

Este meu amigo, que justifica o subtítulo deste texto, um amante da cultura chinesa, onde viveu, não me parece que pense com seriedade nas razões que estão por detrás da significativa preservação do património, material e imaterial, na RP da China, e nesta tendência para a autodestruição, até do ponto de vista patrimonial, material e imaterial, no Império português…precisamente porque se recusa, “marxista” que é, mesmo não o sendo, pois marxista não o é de todo, a apreender a importância do passado.
E apreender a importância do passado não é justificá-lo, nem amarrar-se ao mesmo.
Ainda hoje me sinto muito bem com o facto de me ter batido pela Independência das ex-colónias portuguesas, a ponto de me entender Angolano, até porque vivi em tempo já diverso de Norton de Matos.
No exílio, mas Angolano.
Mas continuemos um pouco mais a citação deste livro de Darcy Ribeiro,

“Ambas, (Portugal, Espanha por um lado e a Rússia, por outro), haviam experimentado séculos de ocupação islâmica e tártaro-mongólica. A Ibéria, bastião ocidental do domínio mouro, vinha intensificando as lutas pela Reconquista desde o século XIV, mas só a completou no ano da descoberta da América. Esta guerra de emancipação, extremamente destruidora, conduzida sob a direcção do Papa e do Rei,…As ordens religiosas se tornaram mais ricas e mais poderosas do que a nobreza, diferenciaram corpos especiais de sacerdotes guerreiros…”, (pág. 134).

Como podem ver pelas citações acima, não é por ser um Maçon maluco, ou um Pessoano maluco, que defendo o que assumi no texto anterior, no 1º Portugal Na Encruzilhada.
É porque é uma linha de pensamento, à Esquerda, Lusófona, onde ideologicamente me situo, duplamente, que, mesmo que apagada pelo tempo e pela pressão das culturas dominantes anglo-saxónicas, tem um fundamento cientifico racionalista, em alguns campos marxista, mas que não teme o papel da espiritualidade, mesmo quando negativa, entre as Pessoas.
Uma linha de pensamento que encontramos raiz entre os Liberais lusófonos, brasileiros, portugueses, angolanos, cabo-verdianos, guineenses, etc., uns Republicanos outros não, (ainda que na maioria Republicanos…), mas que alguns”marxistas de pacotilha”, (hoje até envergonhados de o terem sido, a ponto de escreverem páginas e páginas sobre os liberais anglo-saxónicos…), procuram anular e que vem, goste-se ou não, do pensamento Templário.
Pensamento esse que se manteve no seio dos Maçons não operativos, na anglosaxofonia, por aí os Templários terem sido derrotados, e nas cortes ibéricas, onde o templarismo se manteve, distinguindo-se por tal as duas situações.
Por entre correntes diversas note-se, ainda que não estudadas, porque até na Maçonaria predomina o poder ideológico anglo-saxónico, infelizmente.
Mas também não será por acaso a dificuldade do Maçonismo anglo-saxónico ser dominante na Lusofonia…
Por isso defendi que neste Portugal pós 25 de Novembro de 1975, Nasceu esta Nação/Estado, que também se chama Portugal mas que já não é um Império, e ainda se recusa a ser uma Comunidade, em nome de lideranças que já não pode ter e que se arrisca a um dramático suicídio, pela simples razão de se entender enquanto Europa, mas uma Europa que a restante terá de sustentar…indefinidamente.
O que, claro, não irá suceder, daí o suicídio, bastando para tal, como prova, estes recentes debates na Assembleia da República, onde a coligação derrotada nas eleições, PSD/BE, com algumas desastrosas alianças pontuais do PCP parlamentar, e do CDS, e que pretende impor a impossibilidade de um Governo minoritário.
Enquanto empurra o país para a falência e para a total desmotivação e, claro, para a tal ditadura de seis meses, ( esquecendo-se que a última de seis meses previstos durou 48 anos…).


Joffre Justino

Um primeiro texto do meu amigo,

“Meu caro Joffre
Conhecer a História de Portugal
não faz mal a ninguém, só faz bem a alguém.
Contigo estou sempre a aprender, não História,
mas esta mescla difusa e virulenta em que às vezes nos tornamos.
Um abraço,
António Graça de Abreu”


Um segundo texto do meu amigo,


“Podes, com certeza.
Tenho aprendido contigo, e nada melhor do que um professor como tu, mesmo quando não conhece a História, debita barbaridades, mas dá ares de conhecer.
Não leves a mal.
Um abraço
António Graça de Abreu”


E Um texto de Eduardo Pereira Marques,


“Mais um texto interessante e a debater.

Para mim, trabalhando como médico e no campo biológico, tenho uma visão biológica da política.

Inovação minha? A vida é baseada em células, e qual a sua característica básica e fundamental e comum a todas as formas? Logo também às Sociedades, que como a ecologia nos mostra também são um elemento do Biológico.

Por um lado ter uma fronteira/membrana que limita o que está dentro e o que está fora.

Esta membrana/fronteira é muito especial, pois é semi-permeável. Ou seja deixa entrar umas coisas e rejeita outras; retém uns produtos que estrutura, e outros elimina.

E o critério, é dado por um programa/código interno, o seu DNA/RNA (Núcleo, Cromossomas e Mitocôndrias) o seu cérebro e mecanismo de controlo.

Assim numa sociedade/comunidade, tem de haver um limite uma fronteira, igualmente semi-permeável (logo não se pode fechar totalmente, nem abrir totalmente, está errada a autarquia absoluta, está errado o liberalismo absoluto).

Tem de haver um código/núcleo de controlo interno, que regula as admissões e processos (integrando-os na sua lógica interna) e tem de ter eliminações (a merda feita pelo sistema tem de ser mandada fora).

Há assim sempre um sistema coerente com uma lógica e teleologia, (mas sempre instável e a adaptar-se à mudança do meio. E a si próprio, pois em cada passo deixa de ser e renasce em novo ser, como novas necessidades.

Os mecanismos de auto-regulação e controlo do erro e mesmo as redundâncias, não só são naturais, como necessárias e é a pureza racionalista mecanicista perfeccionista não é biológica.

Logo mudando para o sistema sociopolítico tem de haver fronteiras/limites semi-permeáveis. As suas características e funções têm de ser determinados pelo programa interno/núcleo de gestão, numa lógica interna e de sistema e com uma teleologia/ideal.

O nosso problema é que as elites dirigentes, nunca conseguiram uma dinâmica e lógica coerente interna mobilizadora. Houve uma fragilidade interna, e um excesso de abertura e submissão a lógicas exteriores.

Salazar viu bem, ao procurar uma lógica interna, mas foi para o excesso de fecho e por outro lado para a submissão liquidação de elites intelectuais coerentes.

Portanto à questão histórica do "Chto Dielat" (Que fazer) é como recriar um DND/Núcleo de Controlo Sistémico e Coerente, mas Semi-permeável e adaptável ao meio e suas mudanças, e a trabalhar para o sistema e não para si (temos que definir dois conceitos de elite, e para mim é ou aristocrática, rural e rentista (todos para um, o Rei), ou republicana e democrática equalitária (um por todos, o Demos), mas o Demos só evolui se aceita e reconhece o valor do excepcional, logo não submete e extingue a criatividade, seja o Eu não se pode diluir no Grupo, tem de haver uma dialéctica mas activa, e sem síntese estática, seja a síntese desaparece no momento em que se forma questionando-se, ou se é a dialéctica que é a síntese é subproduto, e a história é o registo da sequência de sínteses emergentes, e a tensão dialéctica entre as complexidades é a matéria, sempre a recrear-se, no conflito interactivo do material e imaterial)?

Os Templários poderão ter sido uma hipótese de solução, mas receio que hoje não tivessem uma visão suficientemente ampla, complexa e adaptada, o que é natural, porque muito do conhecimento sobre o ser humano e social, é actual.

Logo teríamos de recriar algo parecido, mas actualizando conceitos, conhecimentos e procedimentos, e não retornar à origem. Encontrar o fundamental a manter e mudar o que os ensinamentos e conhecimentos, nos dizem ter de mudar, até porque os tempos, os contextos, as culturas evoluíram, o ser humano e a comunidade em geral, elevou a sua cultura, complexidade e potencialidade.

Logo temos de fazer uma análise Fofa/Swot (forte, oportunidade, fraco, ameaça), determinar os pontos de apoio a manter, e os erros e fragilidades a corrigir.

Como tudo está envolvido num ambiente emocional e de lealdades sujeitas a grandes pressões de conformidade, não será fácil, e aqui só o método, e o desconstruir para construir, nos pode dar a rede e segurança para encontrar o caminho possível, pois os baixios são muitos e perigosos no meio de ventos e correntes fortes e adversos.

Claro que a honestidade e competência requerida, é de génio, e nós comuns mortais apenas nos é permitido tentar humildemente. Continuo a achar que a organização dum Centro de Referência e Documentação, uma Nova Enciclopédia Humanista de Amor e Acção, é um passo inicial fundamental, em que os passos e aquisições possam ficar registados e disponíveis, balizas para os passos seguintes.

Terei sido claro?

Eduardo
publicado por JoffreJustino às 10:08
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1 comentário:
De Filipe Soarista a 9 de Dezembro de 2009 às 23:29
Boa noite o meu nome é Filipe Barroso, sou militante do Partido Socialista e da Juventude Socialista, gostaria de contactar com o Dr.Joffre Justino para lhe fazer algumas perguntas sobre o fundador e eterno Presidente da Unita Jonas Savimbi.Estou a desenvolver um projecto de investigação histórica sobre o tema, para além de ter grande curiosidade sobre o assunto, sobretudo a nível das questões ideológicas.Desde já o meu muito obrigado.


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