Terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

Um Governo de Salvação Nacional?

A frase ‘Salvar Portugal’ tem vindo a surgir, um pouco por toda a parte e em muitos dos textos que surgem na comunicação social e mesmo alguns dos mais activos políticos têm vindo a levantar esta ideia e não posso deixar de relevar Pedro Santana Lopes.
Pelo contrário, parte importante dos empresários portugueses, da classe política da Direita e alguma da Esquerda continua, com os hábitos ganhos pelos apoios comunitários, a pensar que vivemos em um país definitivamente rico, definitivamente desenvolvido e portanto onde é possível sustentar politicas despesistas, a todo o custo.
Vimo-lo ao tempo do debate sobre o Código Contributivo e, perante o sucedido vale recordar, mesmo que não tenha concordado na totalidade com este texto, Salvar Portugal, de Rogério Fernandes Ferreira, o seguinte excerto, “…torna-se cada vez mais difícil encontrar receitas através de impostos e de outros tributos que permitam ocorrer à totalidade dos gastos públicos que, dos modos referidos, se tornam incomportáveis. Assim, o problema económico do défice crónico da balança comercial, junta-se o do défice orçamental, também algo crónico e impossível de conter” (in o Sol de 20 de Novembro).
Perante a crise Miguel Portas, que refere a existência de 668 000 desempregados em Portugal em vez dos 548 000 oficiais, aponta como solução para a crise a “redistribuir os rendimentos com maior justiça”, (também in o SOL de 20 de Novembro), ao mesmo tempo que reconhece que, hoje, “a economia destrói mais empregos dos que os que cria se não crescer, pelo menos, 1,5 a 2% ao ano”, acrescentando entretanto que “Não acredito que a Europa e Portugal por arrasto, possam sair das taxas de crescimento medíocres enquanto se mantiverem as orientações económicas dominantes”(idem).
Já Carlos Gonçalves, membro da Comissão Política do PCP, também no mesmo SOL, limita-se a entender que existe que “O Governo tem, uma face oculta, um ‘caderno de encargos’ escondido…de continuidade das politicas de direita…”, e que se mostra na “outra face da recuperação da Bolsa e dos lucros obscenos dos cinco maiores bancos que ‘abicharam’ 5 milhões dia até Setembro deste ano, o que constitui o resultado mais efectivo da politica do PS de ‘combate à crise’…”, tendo, claro, linearmente, dado origem à “destruição do aparelho produtivo, falência das PME, crescimento do desemprego (cerca de 700 000 trabalhadores reais), mais exploração e menos direitos, retracção do mercado interno, aprofundamento dos défices estruturais, dependência externa…”.
Carlos Gonçalves, na linha antidimitroviana de alguma Esquerda dita “marxista”, em Portugal, acrescenta ainda que “a crise seja a grande ‘oportunidade de negócio’ para a concentração de capitais…Esta é a face oculta deste Governo…”, diz ainda este dirigente do PCP.
Já os empresários dão-nos um pouco mais de informação.
Assim, a ANECRA, Associação Nacional das Empresas do Comércio e da Reparação Automóvel, veio a publico recordar que em 2008 terão fechado “Mais de 1 100 empresas de comércio e reparação automóvel fecharam em 2008,…” e acrescenta ainda que “A manter-se este cenário cerca de 2 000 empresas vão encerrar até final de 2009”, (in DN 22 de Novembro). Culpa do Governo?
Não, culpa da “crise internacional” reconhece a ANECRA, que recorda que tal crise lançou, “para o desemprego mais de 6 000 trabalhadores”, sendo que a crise mostrou “as fragilidades de muitas das micro, pequenas e médias empresas do sector, que têm de lutar como nunca contra a retracção do consumo, as restrições ao crédito bancário, o excesso de empresas não licenciadas, a redução da rent6abilidade do negócio e a falta de apoios ao investimento por parte do Estado português”, (idem).
Distribuindo-se regionalmente a crise, por via do encerramento de empresas sentiu-se sobretudo na Grande Lisboa, 40% dos encerramentos, na Região Norte, 27%, na Região Centro, 23%, no Alentejo, 6%, e no Algarve com apenas 4% de encerramentos.
O que releva as limitações da Região de Lisboa e Vale do Tejo, hoje sem financiamentos comunitários, como se sabe.
A ideia de que Portugal é um país rico nasceu ao tempo dos consulados de Cavaco Silva e de António Guterres, onde predominou o despesismo, a má gestão dos financiamentos comunitários, o laxismo orçamental, e que se mostrou insustentável nos consulados de Durão Barroso e de Santana Lopes.
Na verdade, não era esta a ideia de Portugal, nem de Sá Carneiro, nem de Mário Soares…
No entanto, o PSD pode e deve ser assumido como o partido verdadeiramente despesista de Portugal enquanto que o PS tem surgido, à excepção do tempo de António Guterres, como sendo o partido da contenção orçamental.
Infelizmente o tempo das ‘vacas gordas’ findou.
E mesmo Rogério Fernandes Ferreira surge enquanto optimista, perante a realidade ‘real’ portuguesa, (seguindo a linha discursiva de Carlos Gonçalves…
Pergunta este economista se “Quererão os portugueses, em face do estado do país, prescindir de excessos e benesses? (os que as têm).”, (in, idem). Pergunta ainda, “Será que os eleitos são capazes de actuar conjugadamente? No sentido de viabilizarem propostas para a salvação nacional?”? (in, idem)
E, mais atento ainda, questiona, “ Ou ter-se-á de acabar em destruição, em nova revolução que mude estruturas que estão a apodrecer a olhos vistos? Surgirá de novo a imposição de um Governo de Salvação Nacional?”, (in, idem).
Alguma Esquerda recusa-se a olhar para a História, ou, burguesmente, prefere pensar que a União Europeia aí está para salvar Portugal…
Permitam-me duvidar.
As Invasões Francesas, o Mapa Cor de Rosa e o Ultimatum, a forma como findou a II Grande Guerra, onde Portugal foi abandonado à sua sorte, a forma como findou o Império Português, onde de novo todo ele foi abandonado à sua sorte, para beneficio da URSS e dos EUA, (que nunca perdeu a sua fonte, angolana, de petróleo…), o mostram.
Na verdade, pensar que o atraso na Qualificação das Pessoas, de pelo menos 100 anos, e que é o elemento central do atraso português, se resolve em 25 anos, como a CEE/UE imaginou e impôs, que o atraso infra-estrutural também se resolveria com meia dúzia de autoestradas, uns tantos financiamentos à Industria e a anulação da Agricultura de tipo familiar , se resolveria neste período de 25 anitos é um absurdo.
É evidente que os lucros na Banca se têm mostrado de facto abusivos, que as muito grandes empresas e grupos económicos, como os do sr. Belmiro e os do sr. Amorim, são escandalosos na gestão da distribuição da riqueza, ao mesmo tempo que vivem das pressões, (no mínimo), que fazem sobre a classe política.
Mas é absurdo imaginar que o Estado pode sustentar este estado de coisas sem receitas, ou que o pôr fim aos pagamentos especiais por conta é que é a solução para dinamizar a economia, sabendo-se que os seus impactos nas empresas não são suficientes para gerar riqueza e investimento que potencie a recuperação da economia.
Porque esta vive, por demais, das importações e das exportações, e que ambos movimentos têm custos insustentáveis, que cresceram significativamente com esta crise mundial.
Pelo que, antes que o tal Governo de Salvação Nacional saia de um movimento militar qualquer, e de um golpe de estado antidemocrático, ou que as regras comunitárias imponham limitações insustentáveis para a imensa maioria dos portugueses, prefiro que nasça de um Parlamento eleito democraticamente, por portugueses, um Governo de Salvação Nacional.
E quanto mais cedo melhor.
É certo que a tal Direita despesista e a Esquerda antidimitroviana, que hoje se sente bem no PSD e domina o PCP e o BE, acharão que não.
Mas foram elas, já, total ou parcialmente, as responsáveis de suficientes desastres, como o 28 de Maio de 1926.
Já chega.

Joffre Justino
publicado por JoffreJustino às 14:10
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