Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2011

Este Prazer pela Liberdade

É o pessoal da LUAR e encontram se periodicamente. Desta vez o Luis Vaz intimou a minha presença, em nome de uma dupla homenagem - a Palma Inácio e a Camilo Mortágua, dois homens que, nunca tendo eu sido da LUAR, sempre respeitei. Precisamente porque tiveram a virtude de serem homens de acção e, confesso, nunca entendi política sem acção, e por outro lado, porque, tendo estado preso em Caxias com dois “ luareiros”, aprendi aí a perceber a sua ânsia central - o desejo de Liberdade. São ele o Nelson dos Anjos e o Rafael Galego. Com o primeiro aprendi que uma constipação se cura com uma hora de exercício físico, seguido de um banho gelado, e um copo de whisky e, com o segundo, aprendi o que é ter confiança no outro. Conheci o Rafael na cela onde eu estava e ele a chegar dos interrogatórios da Pide, vindo azul de pancada. Ajudámo-lo conforme pudemos e ele recuperou rápido daquela estúpida e brutal violência. A confiança que ele mostrou ter em mim foi essencial para os dramas que então vivia, note se, e ela foi grande. Estar numa prisão política significa estar na mão de uns energúmenos que nunca te respeitarão e que quererão dominar-te a todo o momento se deixámos que tal aconteça. Dai que ver um companheiro de cela que não é da tua organização política, (eu era um maoísta e ele um membro da LUAR), confiar em ti, ao ponto de te relatar um segredo de organização - e que segredo! Que a cadeia de Caxias iria ser atacada pela LUAR , para nos libertar a todos, é um daqueles segredos e é uma honra ouvi-o! E para o confirmar, pegou num dos sapatos, tirou a palmilha e mostrou lâminas de serra que tinham passado a vigilância dos pides e a tortura que ele sofrera, o que é mais que mostrar confiança política. É mostrar amizade, consideração. É ter um sentido de Unidade que hoje parece estar perdido entre a Esquerda. Mas devo mais ainda ao Rafael, pois quando no meu julgamento foi dito que teria de pagar uma fiança de 30 000 escudos para sair fiquei arrasado. Onde é que eu ou a minha mãe iriamos conseguir tal verba? Em 1974? O pai do Rafael operário da construção civil logo se ofereceu para ajudar. Mas, nem sei como, a minha mãe conseguiu arranjar aquela verba, o que não impediu que estivesse sempre presente, em toda a minha família, a oferta do pai do Rafael Galego. Neste jantar de sábado pude recordar aqueles tempos de combate na Cadeia de Caxias. A greve da fome de 6 dias que fizemos, as palavras de alento, para todos, do Saldanha Sanches, que fazia tal periodicamente, ou o sentido comunitário da vida em cela, pelo menos entre nós, os daquela cela concreta, estiveram presentes neste Jantar. E ouvir o Fernando Pereira Marques falar dos sua aventura na Serra da Estrela, como ver o Vladimiro Roque Laia e lembrar me da LIVRELCO e, claro, o sempre presente nestas guerras, o Vitorino e o também sempre presente, o nosso Mais Velho Camilo Mortágua. Que nos fez recordar o que unia a diversidade que era a LUAR, a ânsia de Liberdade existente em todos eles e me fez ter saudade desses tempos onde a política era mais de Valores que de Interesses. Não, eu nunca fui da LUAR, mas não me importava nada de o ter sido, e o jantar de sábado mostrou-o, mais uma vez. Obrigado ao Palma Inácio e ao Camilo Mortágua, por terem alimentado com a sua coragem e o seu sentido de acção política, uma organização como a LUAR, que fazia do prazer pela Liberdade um sentido para a Luta política!
publicado por JoffreJustino às 10:21
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1 comentário:
De José Varela (al-Farrob) a 21 de Março de 2011 às 22:49
Gostei de ouvir falar assim de pessoas que bem conheci, embora eu fosse novo nesses tempos. O meu tio José Galego faleceu o ano passado e era bem teso também, não menos que o filho :)


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